quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Master impõe a Lula o problema de Dilma na Lava-Jato. Por Fernando Exman

Valor Econômico

Uma ala do governo intensifica as recomendações para que o presidente tenha cautela na abordagem do caso Master

Enquanto aguarda as primeiras pesquisas de opinião do ano com a expectativa de que os efeitos das mudanças no Imposto de Renda (IR) elevem a popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, uma ala do governo intensifica as recomendações para que ele tenha cautela na abordagem do caso Master. “A Lava-Jato começou assim”, alerta um aliado próximo, “e a postura dele está muito parecida com a de Dilma”.

O cálculo é simples. Há poucos dias, pela primeira vez milhões de trabalhadores receberam seus contracheques de janeiro sem deduções do Imposto de Renda. Um aliado de Lula lista: também serão beneficiados funcionários públicos de todo o país, professores e aposentados.

Como se sabe, a proposta sancionada no ano passado prevê a isenção do Imposto de Renda Pessoa Física para quem ganha até R$ 5 mil por mês e estabelece descontos para rendas de até R$ 7.350 mensais. Autoridades podem tentar envelopar esses dados com um discurso antissistema e, também, com a bandeira da justiça tributária. Mas o fato é que, do ponto de vista eleitoral, há a perspectiva de aumento do consumo de milhões de famílias de todas as regiões. Segundo dados do governo, cerca de 15 milhões de brasileiros deixarão de pagar Imposto de Renda com a nova lei, sendo 10 milhões que passarão a ser isentos e outros 5 milhões que contarão com redução no imposto. “O coração das pessoas tem um bolso”, comenta essa fonte.

Ainda assim, é verdade, os estrategistas do governo veem a necessidade de amplificar o alcance da notícia, que ainda não é de pleno conhecimento da sociedade. De acordo com a pesquisa Genial/Quaest divulgada em dezembro, por exemplo, 69% dos entrevistados aprovavam a nova lei e 12% desaprovavam. Porém, 19% das pessoas ouvidas ainda não conheciam a medida. Em setembro, 30% das pessoas não sabiam da isenção do IR, contra 60% que aprovavam e 10% que não apoiavam a iniciativa.

Não é sem razão, portanto, que Lula tenha voltado a tratar do tema nas redes sociais recentemente. O mesmo tende a ser feito em viva voz, por exemplo, durante discurso no encontro de aniversário de 46 anos do Partido dos Trabalhadores a ser realizado em Salvador nos próximos dias - oportunidade, aliás, que ironicamente o caso Master pode gerar constrangimentos para o PT da Bahia.

De qualquer forma, e para alerta de integrantes do governo, Lula tem partido para cima. No fim de janeiro, foi contundente durante evento em Maceió. Sem citar Daniel Vorcaro, afirmou, citando o impacto do suposto esquema no Fundo Garantidor de Crédito (FGC): “Não é possível que a gente continue vendo o pobre ser sacrificado enquanto tem um cidadão, do Banco Master, que deu um golpe de mais de R$ 40 bilhões, mais de R$ 40 bilhões. E quem vai pagar é os bancos, é o Banco do Brasil, é a Caixa Econômica que vai pagar, é o Itaú”. Acrescentou que falta vergonha na cara a quem defende o dono do Master.

Na posse do novo Ministro da Justiça e Segurança Pública, Wellington César Lima e Silva, foi mais ameno e destacou que seu governo estava comprometido com o combate ao crime organizado. E mais recentemente, na abertura do ano do Judiciário, enfatizou em sua fala que ações coordenadas estão atingindo os “magnatas do crime”.

Internamente, o tema está em pauta com mais frequência. O presidente tem tratado muito com auxiliares sobre o caso e, de acordo com relatos, tem demonstrado indignação: nessas conversas, não há quem discorde da gravidade do caso, que expõe o setor bancário do país, o mercado financeiro, governos estaduais, integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF) e tende, também, a envolver lideranças políticas de diversos partidos. Nomes ligados ao governo também estão citados, reconhece-se, mas, diferentemente do que ocorreu em um passado não tão longínquo, o Master não possui contratos diretos com estatais nem executa obras federais. Ainda assim, muitos integrantes do governo têm alertado o presidente que a Lava-Jato começou assim.

Está fresca na memória a Lava-Jato e como a ex-presidente Dilma Rousseff tratou do escândalo ao longo do tempo.

Em um primeiro momento, Dilma deu apoio irrestrito às investigações. Disse, por exemplo, que o PT não estava acima de qualquer suspeita, que a legenda precisava apurar o ocorrido e não poderia compactuar com qualquer desvio. Naquela época, as investigações eram incipientes, restritas à Petrobras e não havia indícios públicos de envolvimento de integrantes do governo no esquema.

O mesmo tom foi adotado durante a disputa de 2014. Em campanha à reeleição, a então presidente prometeu se empenhar pelas investigações independentemente de quem pudesse ser alcançado. “Não vai ficar pedra sobre pedra”, assegurou em uma entrevista.

Reeleita, Dilma teve que calibrar o discurso à medida que a operação avançava. Manteve o apoio, mas passou a argumentar que as apurações eram frutos de melhorias institucionais das administrações petistas. Quando as manifestações nas ruas pedindo seu afastamento aumentaram, reclamou do que considerava ser o uso político dos inquéritos. Passou, então, a criticar com mais veemência, até compará-la a um golpe.

Integrantes do governo ponderam que Lula tem tudo para se reeleger em outubro e alertam que uma “bagunça” não interessa a quem está nesta condição. Até mesmo por isso acompanham as movimentações da Procuradoria-Geral da República (PGR). Em outros tempos, delações premiadas já estariam em negociações avançadas.

 

Nenhum comentário: