domingo, 8 de fevereiro de 2026

O escuro é claro. Por Dorrit Harazim

O Globo

Com o Washington Post morrendo, a democracia americana e o jornalismo que a sustenta encolhem um pouco mais

Adotado pelo Washington Post em fevereiro de 2017 como mote oficial, o dístico “Democracy Dies in Darkness” (a democracia morre na escuridão) soa lindo e continua a ornar as capas das edições digitais e impressas do jornal. A frase fora cunhada ainda nos anos 1960 pelo juiz negro Damon Keith, defensor dos direitos civis, e popularizada já neste milênio pelo veterano Bob Woodward a propósito da obsessão de sigilo (“escuridão”) por parte de governantes. Era a primeira vez em 140 anos de existência que o venerável matutino da capital dos Estados Unidos adotava um lema oficial. A mensagem também era clara: um jornalismo que fiscaliza o poder, cobra responsabilidades de autoridades e instituições e promove transparência pública é essencial para a prevenção de malfeitos subterrâneos dos donos do poder — sobretudo, para a preservação da democracia.

Naquele início de 2017, o mundo vivia o choque de Donald Trump ter sido recém-entronizado na Casa Branca pelo voto popular. Jeff Bezos, o então já bilionário fundador da Amazon, adotara o lema para fincar posição: o Washington Post, pelo qual pagara US$ 250 milhões, continuaria a honrar a marca de bom jornalismo e independência deixada por Kay Graham. À época, foi saudado como mecenas pelo alto investimento feito na redação. Talvez tenha até abrigado a ambição de competir com o New York Times como jornal de referência.

Não mais. Bezos simplesmente se cansou de um “negócio” tão pouco rentável como o jornalismo independente, sistematicamente atacado, processado, perseguido e ridicularizado por um Trump cada vez mais vingativo. Melhor cortejar a Casa Branca, ampliando outros negócios (entre 2013 e 2026, seu patrimônio pulou de US$ 25 bilhões para estimados US$ 250 bilhões). Na semana passada, a notícia do corte seco de 300 profissionais do Post, decapitando um terço dos 800 e tantos postos da redação, foi impiedosa. Foram limadas seções inteiras como a resenha de livros e Esportes (em pleno ano de Copa do Mundo, Olimpíada de Inverno e pré-Olimpíada de 2028), valiosas sucursais em todo o Oriente Médio foram fechadas; inúmeros correspondentes mundo afora, dizimados por e-mail.

Coube ao diretor de redação do jornal, Matt Murray, nomeado por Bezos em 2024, conduzir o “megapassaralho”, como se diz na gíria jornalística. Seu estilo lembrou Elon Musk durante os 130 dias em que esteve à frente do defunto Departamento de Eficiência Governamental, quando 260 mil funcionários federais foram cortados ou aceitaram acordos de rescisão.

Murray definiu os cortes como “reset estratégico”. Não citou o cancelamento de milhares de assinaturas sofridas pelo jornal em 2024, quando suspendeu, à última hora, o endosso à candidatura da democrata Kamala Harris contra Trump para um segundo mandato. Tampouco mencionou que a decisão de limitar a seção de opinião a temas como liberdades individuais e livre-mercado, em detrimento de qualquer sinal de diversidade, afugentou outros 75 mil assinantes. Em compensação, no “reset estratégico” de Bezos, coube o desembolso de US$ 75 milhões pela Amazon para produzir, distribuir e divulgar mundialmente o documentário “Melania”, narrado pela própria primeira-dama.

— Tenho ouvido que a ênfase maior daqui para a frente será em inteligência artificial — disse em entrevista à Vanity Fair o respeitado Marty Baron, que chefiou o Post por oito anos até 2021, amealhou dez Prêmios Pulitzer para o jornal e consolidou a instituição como força independente às invectivas de Trump. — Devem estar se iludindo com o que a IA pode realmente fazer. Não sei como a IA cultivará fontes ou apurará o que acontece no mundo.

Ele sustenta que, mesmo sendo uma ferramenta poderosa que deve ser usada, a IA não consegue substituir um repórter. Nem um bom chefe de redação. Em livro publicado dois anos atrás (“Collision of Power”) sobre o primeiro mandato de Trump, Baron relata embates de que Bezos deveria se orgulhar até hoje. Não mais.

— O caso atual deveria ser estudado como a destruição autoinfligida de uma marca — diz Baron.

Lá atrás, Alexis de Tocqueville especulou sobre o futuro da democracia nos Estados Unidos, as possíveis armadilhas e perigos que ela enfrentaria. Incluiu em suas divagações a suspeita de que ela poderia degenerar num “despotismo brando”. Nada em Trump é brando. Ao divulgar em seu site oficial do Truth Social (11 milhões de usuários) um vídeo — depois retirado do ar — contendo um meme que retrata o ex-presidente Barack Obama e a ex-primeira-dama Michelle Obama como primatas, ele convida seu eleitorado supremacista a um gozo racista. Que ninguém se engane: com o Post morrendo, não na escuridão, mas à luz do dia, a democracia americana e o jornalismo que a sustenta encolhem um pouco mais.

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