terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

O passo seguinte:: Míriam Leitão

Uma nova reunião ontem em Bruxelas dos ministros das finanças da Zona do Euro foi o suficiente para deixar as bolsas animadas. O mundo não leva tão a sério assim o carnaval e tudo continua funcionando.

O que se pode esperar é um acordo que permita a liberação de mais uma prestação do empréstimo para a Grécia, com a qual o país irá rolar a dívida que vence em março. Isso é a solução? Não.

Uma análise feita pelas autoridades que representam os países do euro e os credores, a troica (FMI, Banco Central Europeu e Comissão Europeia), projeta que, mesmo se a dívida grega for reduzida em C 100 bilhões, pelo sucesso da negociação com os bancos, o país em 2020 estará com dívida de 129% do PIB. Eles exigiam 120%. No final do dia já aceitavam 125%. Que diferença faz? Qualquer um desses números é absurdamente alto. Qual a capacidade de um país, qualquer que seja, manter um ajuste tão longo em suas contas para conseguir um resultado tão medíocre? Todo ajuste fiscal é de longo prazo e precisa da manutenção de metas de superávits cumpridas por vários anos para se conquistar indicadores melhores.

Mas a partir de um determinado ponto o país só faz encolher, o que eleva a dívida pública mesmo se os juros forem zero. A Grécia está prisioneira dessa armadilha. Este é o quarto ano em que o PIB vai diminuir, então a dívida aumentaria mesmo se em volume permanecesse estável, porque seria mais alta como proporção do PIB. Mas não permanece estável porque os juros têm subido quanto maior é a crise no país.

Qualquer ajuste além de um determinado ponto não é economicamente viável e pode não ser viável politicamente.

Num artigo publicado no "Financial Times", o articulista Wolfgang Münchau disse que "nós estamos num ponto em que o sucesso não é mais compatível com a democracia".

Ele acha que se os credores tiverem sucesso em impor ao novo governo uma política econômica estarão criando a primeira colônia da Zona do Euro.

O compromisso assumido pelo então candidato Luiz Inácio Lula da Silva não é comparável à carta que as autoridades da Zona do Euro exigiram dos candidatos à próxima eleição grega, de abril. Na Carta aos Brasileiros, o que Lula se comprometia era do interesse geral; a manutenção da estabilidade do real. A Carta afastou os temores em relação à mudança de partido no poder, e ele foi eleito. Agora, o que se quer dos gregos não tem apoio na maioria da sociedade.

Se o remédio amargo for rejeitado democraticamente, como pode ser imposto? "Como impedir um novo governo grego e um novo parlamento de unilateralmente mudar o acordo?", pergunta o articulista do "Financial Times". A proposta alemã de que se adie eleições é simplesmente ultrajante.

Não há solução sem dor para a Grécia, mas ela tem que procurar por ela mesma que dor prefere sentir. Os gregos querem ficar no euro, mas começam a achar que é impossível.
A saída do euro vai significar um grande calote interno nos poupadores gregos porque a conversão para a nova moeda, que pode ser a volta ao centenário dracma, será feita com perda de valor do principal hoje poupado em euros. Haverá um empobrecimento adicional dos gregos.

Mas não se pode impor a alternativa de ficar a um preço que signifique determinar de Bruxelas os destinos de Atenas. Ou de Berlim.

O que Bruxelas deveria estar pensando agora é qual é o passo seguinte. Se a Grécia sair do euro, sairá também da União Europeia? Se a saída for imposta, será uma violência. Se ficar, os trabalhadores desempregados da Grécia irão para os outros países da Europa pressionando um mercado de trabalho que está com dificuldade de atender à demanda por emprego. Então, expelir a Grécia como se fosse um corpo estranho não funcionaria.

Depois de queimarem as mãos na dívida grega, os bancos vão olhar com suspeição para Portugal.

E pode-se imaginar um cenário em que se force a saída de Portugal do euro e da União Europeia? Hoje, o presidente da Comissão Europeia é um português: José Manuel Durão Barroso. E mesmo se isso for feito, não será o fim da crise.

A Zona do Euro tem demonstrado desde o começo desta crise uma enorme incapacidade de ter visão estratégica. Em que ponto mesmo quer chegar? Por mais meritório que tenha sido o objetivo inicial da moeda comum — aprofundar a unidade — o fato a se reconhecer neste momento é que não foram tomadas as devidas precauções para um momento de crise, como a atual. E dado que não se pode alterar o passado, é preciso ver adiante e ter um objetivo futuro.

Não há de ser o acordo que estava sendo fechado ontem. O parlamento grego pode aprovar um pouco mais de corte nas pensões como o que estava ontem em discussão, os ministros reunidos em Bruxelas podem aprovar o novo acordo, a Grécia pode receber a nova parcela do empréstimo e cumprir seus compromissos de março, e os bancos podem fechar o acordo de abatimento da dívida. Se tudo isso acontecer, se o melhor cenário em cada caso for atingido, o que se terá ao final? Um país em recessão, com uma dívida acima de 120% do PIB, com déficit alto, com um quinto da mão de obra trabalhando para o governo.

Até os sacerdotes da Igreja Ortodoxa Grega são funcionários públicos e têm isenção fiscal. A Grécia carrega ainda o custo de ter tido durante muito tempo — até recentemente — um sistema previdenciário que permitia a aposentadoria muito precoce.

A Europa está diante de dilemas que marcarão seu projeto comum. Mas seus líderes não parecem ter um plano estratégico. Cada passo é apresentado como a solução final. Mas a crise sempre volta.

FONTE: O GLOBO

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