sexta-feira, 9 de setembro de 2022

César Felício* - O #EleNão bolsonarista

Valor Econômico

Mobilização e radicalização andam de mãos dadas

O 7 de setembro, de um certo modo, foi o equivalente ao #EleNão do bolsonarismo. O golpismo teve ampla guarida no público vestido de verde e amarelo anteontem na praia de Copacabana, como mostrou o levantamento de um núcleo da USP, publicado no site do jornal “O Globo”, mas esta não foi a tônica das ruas.

Muito mais forte na retórica do presidente Jair Bolsonaro foi a diatribe contra o nove-dedos, o carniça, o cachaceiro, o ladrão, o comunista, o ameaçador das tradições, o pervertedor das famílias.

A aposta nas ruas implica naturalmente em radicalismo, não há outra maneira de se conseguir uma mobilização. Prega-se aos convertidos. Bolsonaro ontem reuniu uma plateia de aficcionados - 91% dos presentes votaram nele em 2018, de acordo com a pesquisa divulgada pelo “O Globo”. O saldo mais concreto em termos eleitorais é uma energização da base que leva o seu eleitor a se empenhar mais na persuasão ou intimidação de quem pensa diferente.

Como a maioria dos presentes nas ruas na quarta-feira é simpática ao que chamam de “intervenção militar constitucional”- tema que, frise-se, não fez parte da arenga do presidente - Bolsonaro já tem uma massa crítica para propósitos anti-institucionais que, no 7 de setembro, ficaram apenas na mensagem subliminar: as insistentes alusões a liberdades supostamente ameaçadas, o que tornaria necessário o uso da força, de uma forma que ele nunca explica.

“A mobilização gera imagens de impacto que em um primeiro momento permite ao candidato contestar o quadro das pesquisas e em um segundo momento o próprio resultado eleitoral”, observou o cientista político Pablo Ortellado, um dos coordenadores do estudo.

Em 2018, com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na cadeia e sem direitos políticos, a estratégia dos petistas foi a de ir às ruas contra o atual presidente. Às vésperas do primeiro e do segundo turno, produziram-se as maiores concentrações populares da campanha de 2018, capitaneadas sobretudo pelo eleitorado feminino, debaixo da aba da hashtag #EleNão. Os estrategistas da campanha de Fernando Haddad fizeram uma aposta na radicalização, para o bem e para o mal. Não foi suficiente para ganhar a eleição, por óbvio, mas talvez tenham sido plantadas ali as condições para o PT se manter hegemônico no polo oposicionista.

Hoje está patente que a estratégia de Lula é outra, talvez por falta de opção, já que muito provavelmente o líder nas pesquisas de intenção de voto, mesmo se quisesse, não seria capaz de mobilizar seus eleitores da forma como Bolsonaro mobiliza os dele. E nem da forma como se mobilizou em 2018 a favor de Haddad.

Seja como for, se Lula fosse às ruas, não poderia permanecer na narrativa que desenvolve para as eleições deste ano, como observou Ortellado.

“A gente percebe que Lula não está fazendo muito esforço para mobilizar uma contramarcha. Ele aparentemente está jogando outro jogo. Quem aposta na moderação e na união não pode exercer a opção da mobilização e da inflamação”, pondera o cientista político.

Ir às ruas para arengar as multidões não combina com o misto de saudosismo com pacifismo com o qual Lula vai dialogando com o que até hoje é uma maioria silenciosa que se declara antibolsonarista. Tanto é que nas vezes que o ex-presidente falou à multidão militante, radicalizou. Na relação entre o líder e as massas, há uma catarse em que um “looping” contínuo vai tornando tudo cada vez mais extremo e o momento das derrapagens verbais acontece aí.

Lula nestas eleições opera numa faixa de relativa ambiguidade, para que toda população que por um motivo ou por outro rechace Bolsonaro tenha alguma razão para prestar atenção em sua candidatura. Era outro o quadro em 2018. Sem poder contar com a candidatura de seu líder máximo, o PT precisava empolgar sua base para produzir a transferência de votos para Haddad.

Para isso as ruas serviram a esquerda, mas não houve como competir em radicalização e mobilização com Bolsonaro, prometendo mandar os adversários para “a ponta da praia”, forma velada de acenar com a exterminação física.

Pré-Bolsonaro

O ex-presidente Lula afirmou em seu vídeo de resposta a Bolsonaro que não houve uso eleitoral do 7 de setembro em 2006 e 2010, durante seu período de governo. De fato não houve. Em 2006 Lula reelegeu-se, mas em uma disputa relativamente apertada e bastante agressiva contra o seu atual companheiro de chapa, Geraldo Alckmin.

Naquele ano o país vinha da memória do mensalão que havia marcado 2005, quando estourou o escândalo dos sanguessugas, de desvio de recursos na área da saúde. Na cerimônia do 7 de setembro, o governo montou uma estratégia para blindar Lula do constrangimento de uma vaia. Próximo ao palanque de onde estava o presidente, só havia convidados.

O 7 de setembro de 2010 foi quase um não evento. Então candidata governista, Dilma Rousseff não apareceu. Lula chamou mais atenção ao aparecer no horário eleitoral da petista do que pelo que fez ou deixou de fazer no palanque oficial.

Na era pré-Bolsonaro, houve ao longo das últimas décadas presidentes que procuraram capitalizar politicamente a data de um ou outro modo. Em seu primeiro mandato, Fernando Henrique Cardoso sempre reservava o 7 de setembro para o anúncio de medidas na área de direitos humanos, no jardim do Palácio da Alvorada. A obrigatoriedade de rampas de acesso em prédios para deficientes públicos, por exemplo, surgiu em uma dessas ocasiões. Demarcações de terras indígenas ou quilombolas também eram frequentes.

Na ditadura, Médici marcou o sesquicentenário com a vinda do corpo de Dom Pedro I de Portugal para São Paulo, uma minicopa mundial, em que o Brasil derrotou Portugal por 1 a 0 e um desfile militar com 18 mil integrantes.

Houve também presidentes que procuraram se esconder. Em 1989, Sarney mudou o desfile do Eixo Monumental para o Setor Militar Urbano e ficou a 80 metros da arquibancada mais próxima.

Protestos na data foram emblemáticos. Em 1992, Collor tomou uma vaia histórica em pleno clima de impeachment. Em 2013, na esteira das manifestações contra tudo agitadas por “black blocs”, houve protestos em 11 capitais, com 335 presos.

*César Felício é editor de Política

 

Um comentário:

ADEMAR AMANCIO disse...

FHC aproveitava a data para falar sobre ''direitos humanos'',que diferença da era Bolsonaro!