quarta-feira, 14 de setembro de 2022

Nicolau da Rocha Cavalcanti* - Covardia e arrependimento

O Estado de S. Paulo

Mesmo depois de dois anos, Bolsonaro nem sequer começou a intuir como suas atitudes na pandemia foram desumanas

Na entrevista ao Jornal Nacional, o presidente Jair Bolsonaro não pediu desculpas à população brasileira por suas falas e, principalmente, por suas atitudes no enfrentamento da pandemia. Agora, vendo que a rejeição à sua pessoa não diminui, mudou o tom. “A questão do coveiro eu retiraria”, disse na segunda-feira em entrevista a um conjunto de podcasts evangélicos. Em abril de 2020, após ser questionado sobre o número de mortes por covid, disse: “Não sou coveiro”.

“Dei uma aloprada (na questão do coveiro). Aloprei. Perdi a linha. Aí eu me arrependo”, falou Jair Bolsonaro aos entrevistadores evangélicos.

O arrependimento é uma das atitudes humanas mais admiráveis. Ele permite reconciliar-nos com o nosso passado e com as pessoas que possamos ter ferido ou magoado ao longo da vida. Há um ditado africano, de grande realismo, que relaciona a maturidade com a descoberta da nossa capacidade de magoar – de fazer sofrer – os outros. De fato, a vida ganha outra dimensão quando se descobre como as nossas ações, nossas ausências, nossas falas, nossas distrações, nossos silêncios, nossas piadas e até mesmo nossos olhares podem afetar os outros de uma maneira muito diferente do que havíamos originalmente pensado. É simplesmente espetacular a descoberta do outro, de sua alteridade.

O arrependimento também se relaciona com o futuro. Não existe arrependimento sem a disposição de não voltar a fazer aquilo do que nos arrependemos. O propósito quanto ao futuro é consequência necessária desse condoer-se interiormente pelo que fizemos ou deixamos de fazer. E aqui está outro aspecto espetacular do arrependimento humano: a abertura a um futuro diferente do que foi o passado, a possibilidade real de um novo modo de vida.

No caso do arrependimento de Jair Bolsonaro, não é preciso fazer um julgamento de suas disposições internas para concluir que ele não representa um ato de grandeza moral, um ato de coragem. As suas próprias palavras expressam a natureza de sua atitude.

Não duvido de que, neste momento eleitoral, Jair Bolsonaro preferisse não ter esse passivo verborrágico. Ou seja, não duvido de que o presidente da República possa, diante das atuais circunstâncias eleitorais, ter-se arrependido do que disse. Suas palavras na segunda-feira podem ter sido sinceras. O ponto é outro. Jair Bolsonaro explicita que, no seu modo de ver, foi mero deslize: “Dei uma aloprada. Aloprei. Perdi a linha”.

Com isso, Jair Bolsonaro desvela a natureza de seu arrependimento. Mesmo depois de mais de dois anos, ele nem sequer começou a intuir como suas atitudes na pandemia foram profundamente desumanas, como foram profundamente agressivas, como foram profundamente desrespeitosas, como foram profundamente inadequadas para o cargo que ocupa, como foram profundamente desconectadas da realidade que a população vivia, como foram profundamente covardes. Na hora mais difícil, Jair Bolsonaro não assumiu o peso de suas responsabilidades. Teve medo das consequências políticas. Teve medo de liderar. Teve medo de olhar a realidade de frente. Teve medo de falar de morte quando a vida exigia falar de morte.

Não nego a possibilidade de que Jair Bolsonaro venha a se arrepender genuinamente de sua covardia, de sua escandalosa covardia, durante a pandemia. Mas, quando isso ocorrer, as palavras e as atitudes a expressar esse arrependimento terão de ser muito diferentes – ou não será arrependimento.

Fico abismado como líderes religiosos, que, a princípio, lidam cotidianamente com profundas conversões humanas, possam apoiar alguém tão indecorosamente superficial em sua contrição. Terão esses líderes religiosos meditado alguma vez sobre o Salmo Miserere, no qual Davi manifesta a Deus a dor pelo seu pecado? Arrependimento é coisa séria. Não é dito fazendo piada. Não é formulado em meio a deboches. Não é truque eleitoral.

Uma das consequências do arrependimento é uma grande vergonha pelo que se fez ou deixou de fazer. Isso se dá porque o arrependimento não é mera decisão racional, como se fosse a detecção de um erro de cálculo. Nunca é descoberta de mero deslize. Arrependimento é cair em si, é dar-se conta do que fez e de suas consequências. O arrependimento gera um reenquadramento afetivo dos atos passados, com um desejo incontido de agir no futuro de forma inteiramente diferente.

Até agora, Jair Bolsonaro não fez nada disso. Ele disse que cometeu um deslize ao falar “não sou coveiro”. Será essa a sua grande reflexão sobre o seu governo durante a pandemia? Será esse o seu grande aprendizado? Não é preciso recorrer aos críticos mais ardorosos de Jair Bolsonaro para desqualificar sua gestão. Ele mesmo explicita quem ele é.

Causa perplexidade, não há dúvida, que tantos brasileiros queiram a reeleição de Jair Bolsonaro. Mas é possível também ver a situação atual por outra perspectiva. Quantos brasileiros não eleitores de Jair Bolsonaro em 2018 querem votar nele agora? Quantos se sentiram positivamente surpresos com o atual governo? Por mais que haja fake news, a covardia ainda não se tornou uma virtude.

*Advogado e jornalista

 

3 comentários:

Anônimo disse...

Excelente análise do colunista! Bolsonaro é um monstro, "suas atitudes na pandemia foram profundamente desumanas, como foram profundamente agressivas, como foram profundamente desrespeitosas, como foram profundamente inadequadas para o cargo que ocupa, como foram profundamente desconectadas da realidade que a população vivia, como foram profundamente covardes." Bolsonaro não precisa se arrepender de suas palavras, ele DEVE SE ARREPENDER DE SEUS ATOS E CRIMES! Passando o resto da vida na cadeia, pode ser que isto aconteça...

Anônimo disse...

A cadeia é ele mesmo, deve ser duro de aguentar um Bolsonaro 24 horas por dia. Quanta podridão nessa cabeça doentia.

ADEMAR AMANCIO disse...

A gente planta e colhe.