Financial Times / Valor Econômico
Atentado terá profundas repercussões para a democracia dos EUA. Convenção Nacional Republicana em Milwaukee (EUA) esta semana será dominada pela quase fatalidade do ex-presidente americano
Não foi apenas Donald Trump que
escapou por pouco. Se a bala que passou de raspão na orelha de Trump tivesse
acertado meia polegada à esquerda, ele teria se tornado um mártir. Não se pode
prever o que sua morte teria desencadeado.
Tal como está, a reprovável tentativa de
assassinato de Trump terá profundas repercussões para a democracia dos EUA. Em
segundos, cercado por agentes do serviço secreto, Trump estava gritando “lutem,
lutem, lutem” para a multidão. A foto instantaneamente onipresente dele
levantando o punho contra o fundo da bandeira americana se tornará o emblema de
sua campanha.
Uma sociedade de alta confiança — onde os valores éticos são fortemente compartilhados pela população — aguardaria os fatos do tiroteio antes de tirar conclusões. Por esse critério, os Estados Unidos estão perto do abismo. Dois dos republicanos cogitados ao cargo de vice-presidente de Trump culparam os democratas por incitar o ódio contra Trump.
O favorito, o senador JD Vance, disse
que a retórica da campanha de Biden “levou diretamente à tentativa de
assassinato do presidente Trump”. O também senador Tim Scott disse
que a “retórica inflamatória dos democratas coloca vidas em risco”.
Elon Musk, dono da plataforma social X
(ex-Twitter), onde essas declarações foram postadas, foi rápido em embarcar em
uma conspiração sobre como o atirador conseguiu chegar tão perto: “Ou extrema
incompetência ou foi deliberado”, escreveu Musk.
Muitos à esquerda foram igualmente rápidos em
afirmar que o tiroteio foi uma operação encenada ou uma operação de bandeira
falsa para aumentar as chances eleitorais de Trump. É notável, no entanto, que
nenhum alto funcionário democrata tenha alimentado esses rumores.
A identidade do suposto atirador, um homem de
20 anos chamado Thomas Matthew Crooks, ofereceu pouca ajuda. Embora fosse um
republicano registrado e um entusiasta de armas, ele fez uma pequena doação
para um grupo pró-democrata. É plausível que, como a maioria dos assassinos dos
EUA, Crooks estava agindo sozinho e mentalmente perturbado. Isso não impedirá
os empreendedores políticos de atribuir o atentado a seus inimigos ideológicos.
A maior questão é o que Trump fará com isso.
Nenhuma contabilidade honesta do clima compurscado dos EUA pode ignorar o fato
de que o ex-presidente é o expoente mais influente da violência política no
país. Ele descreveu aqueles que invadiram o Congresso com facas e laços em 6 de
janeiro de 2021 como “patriotas inacreditáveis”. Ele zombou de um ataque a Paul
Pelosi, marido da ex-presidente democrata, Nancy Pelosi, depois que um de seus
próprios apoiadores o agrediu na cabeça com um martelo. E Trump encorajou
milícias extremistas a “ficar em prontidão” pouco antes da eleição de 2020.
Em democracias mais calmas, um incidente tão
letal quanto a quase morte de um líder partidário com um rifle semiautomático
do tipo AR-15 levaria a apelos bipartidários por controle de armas. Não há
chance de o partido de Trump mudar de ideia sobre esse assunto. O número de
AR-15s nos EUA foi estimado em até 44 milhões, o que coloca as comparações com
períodos anteriores de violência política nos EUA em perspectiva.
Se Trump ganhar um impulso duradouro de
simpatia, é algo ainda incerto. Mas três conclusões já podem ser tiradas. A
primeira é que a Convenção Nacional Republicana em Milwaukee esta
semana será dominada por sua quase fatalidade. A campanha de Trump é
enormemente habilidosa em coreografar óticas para melhorar sua mensagem. A
imagem icônica de Trump levantando o punho corajosamente de sua quase morte vai
permear o palco da convenção.
Trump deve nomear seu companheiro de chapa
nos próximos dois dias — provavelmente na segunda-feira (15). O país deve ser
cativado pela admiração ou pavor pelo uso que os republicanos farão do quase
martírio de Trump. Na primeira convenção presidencial de Trump em Cleveland em
2016, as ruas ao redor do salão principal estavam repletas de milícias privadas
brandindo armas. Policiar as ruas de Milwaukee esta semana será um desafio
incomum, mesmo para os padrões americanos.
Em segundo lugar, Joe Biden provavelmente
receberá pelo menos uma trégua temporária do debate interno democrata sobre se
ele deve renunciar como candidato de seu partido. Embora pareça muito mais
longo, os 17 dias desde que Biden errou no debate da CNN com Trump foram
consumidos por uma discussão cada vez mais amarga entre os democratas.
As paixões por trás dessa disputa — quem
estaria melhor posicionado para derrotar Trump em novembro — permanecem tão
relevantes quanto antes. Mas o foco agora se voltará para Trump. A campanha de
Biden disse que estava suspendendo seus anúncios de ataque anti-Trump no
domingo (14). Será surpreendente se isso durar mais do que alguns dias. Ainda
faltam cinco semanas para a convenção democrata em Chicago. Também seria uma
surpresa se os apelos para Biden desistir não revivessem.
É muito cedo para especular — como alguns
foram rápidos em fazer — que as já boas perspectivas eleitorais de Trump não
são agora inevitáveis. Em 1981, Ronald Reagan teve um enorme aumento
de popularidade depois de ser baleado por um atirador solitário. Esse aumento
evaporou dentro de algumas semanas. Mas é justo dizer que uma eleição já
existencial agora está consideravelmente mais conturbada do que antes. A violência
já era implícita em grande parte da retórica. Agora é explícita.
É sempre tentador apontar que armas e
assassinatos políticos são um elemento básico da república dos EUA. Isso é
verdade em comparação com outras democracias. Mas as condições em 2024 são
únicas. Uma bala quase matou o homem que promete vingança se for reconduzido à
Casa Branca. Um espírito de vingança está assombrando os EUA.
Um comentário:
Ave Maria!
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