O Globo
Convocar todos os países abre a oportunidade
de perceber o mundo como feito de unidades diferenciadas em poder e riqueza
Acompanhei como pesquisador interessado em
rituais e dramatizações coletivas, e como correspondente da Rede Manchete de
Televisão, a Olimpíada de 1984 em Los Angeles.
A experiência grandiosa de reunir quase todas
as modalidades esportivas praticadas em todo o mundo num só espaço permite
observar os estilos diferentes de prática e reação à vitória e à derrota de
atletas de culturas e sociedades distintas. O antropólogo social francês Marcel
Mauss chamou, em 1936, a atenção para o estudo dos usos do corpo em diferentes
culturas. Reuniões olímpicas são ocasiões primorosas para o estudos das
“técnicas de corpo” de épocas e origens diferentes.
As Olimpíadas lembram o carnaval na orgiástica universalidade e na ênfase na “carne”. Com a diferença óbvia de que, no carnaval, somos olímpicos no quimérico e na sensualidade, ao passo que os jogos esportivos são ordenados por padrões objetivos e normas claras de disputa. Mas ambas as festividades se equiparam no ideal de recriar o mundo como centro festivo — como campo fora das rotinas que atam os meios e os fins da vida prática, racional e progressista. Progressismo que registra recordes e, em certas modalidades, põe à prova os limites do corpo humano.
Em 1984 em Los Angeles, integrei um grupo de
antropólogos que observou, reafirmo, os Jogos como rituais. Como situações fora
da rotina que marcam a plausibilidade do mundo diário, quando os fins e os
meios devem estar relacionados. No cotidiano paulificante, mas tranquilo, as
piscinas não são usadas como instrumentos de capacidade e disputa natatória.
São desfrutadas como equipamento de um lazer despreocupado, precisamente porque
nos isolam temporariamente do trabalho que exige vínculos precisos entre prego,
tábua e martelo.
Escrevi sobre a Olimpíada como conjunto de
ritos que exaltavam o competir e o confronto como divertimento ou esporte,
jamais como guerra. Na vida diária, o esporte é jogo, diversão, negócio,
profissão, paixão e — acima de tudo — transparência e conformidade na derrota.
Na Olimpíada, modalidades esportivas são
destituídas de suas compulsões viscerais do perder ou do ganhar. Nelas, o foco
é o competir, e o competir do modo mais claro, sincero e objetivo possível. É
justo, nesse sentido idealizado, que os Jogos Olímpicos englobem suas facetas
práticas e politizadas.
Vale enfatizar que o ideal de convocar todos
os países abre a oportunidade de perceber o mundo como feito de unidades
diferenciadas em poder e riqueza. E, ao mesmo tempo, oferece a experiência
excepcional de presenciar a competição de representantes de países poderosos
com atletas de povos outrora colonizados e em desenvolvimento em “jogos” nos
quais seus atletas disputam em igualdade de oportunidades.
Esse confronto entre Golias e Davis talvez
seja uma fonte significativa da popularidade da Olimpíada. Uma outra é que ela
expõe exímios praticantes dos esportes individuais, como natação, atletismo e
ginástica, em luta muito mais contra si mesmos que contra adversários concretos
— como ocorre nos esportes com rede, bola e campo em que se enfrenta um
adversário. Isso, é claro, na ginástica, no atletismo e na natação. São
modalidades em que os atletas olímpicos têm como adversários seus
inconscientes, o tempo de suas provas e sua habilidade de usar os corpos como
avatares de perfeição estética.
Um ponto fundamental dos Jogos Olímpicos é
que exaltam e dramatizam o ideal democrático de igualdade absoluta e totalmente
controlada. Uma igualdade que é a base de todo o ritual esportivo nascido —
conforme sabemos, numa Grécia idealizada e
no continente europeu — e difundido pelo mundo como valorização do ser humano
como pessoa dotada de algum tipo de excepcionalidade. Realmente, a preocupação
com a obediência a normas e regras de cada modalidade esportiva — bem como a excelência
dos atletas que ali estão não por compadrio ou preferência política — remove do
ato competitivo a violência do incivilizado, mas habitual e realista, “vencer a
todo custo”.
Certamente, talvez a maior dramatização da
Olimpíada seja essa forte e consistente experiência democrática do respeito às
regras. Pois, nas democracias são as leis, mais que medalhas e fama, que
glorificam cidadãos e atletas.
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