domingo, 30 de novembro de 2025

Opinião do dia - Norberto Bobbio* (Democracia)

“Na memória histórica dos povos europeus, a democracia apresenta-se pela primeira vez através da imagem da agorá ateniense, a assembleia ao ar livre onde se reúnem os cidadãos para ouvir os oradores e então expressar sua opinião erguendo a mão. Na passagem da democracia direta para a democracia representativa (da democracia dos antigos para a democracia dos modernos), desaparece a praça, mas não a exigência de “visibilidade” do poder, que passa a ser satisfeita de outra maneira, com a publicidade das sessões do parlamento, com a formação de uma opinião pública através do exercício da liberdade de imprensa, com a solicitação dirigida aos líderes políticos de que façam suas declarações através dos meios de comunicação de massa.”

*Norberto Bobbio (1909-2004), filósofo político, historiador do pensamento político, escritor e senador vitalício italiano. Teoria Geral da Política - A Filosofia Política e as Lições dos Clássicos. P.387.Editora Campus, Rio de Janeiro. 2000.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Supersalários são combustível da desigualdade

Por O Globo

Remuneração acima do teto recebida pela elite do funcionalismo custa R$ 20 bilhões ao ano, conclui estudo

Não é surpreendente, mas nem por isso deixa de ser estarrecedor o quadro exposto pelo estudo a respeito de supersalários no poder público realizado pelo pesquisador Sérgio Guedes-Reis para as organizações da sociedade civil República.org e Movimento Pessoas à Frente. O gasto brasileiro com pagamentos acima do teto salarial estipulado na Constituição somou nada menos que R$ 20 bilhões entre agosto de 2024 e julho deste ano — ou dois terços do que o governo busca para cumprir a meta fiscal do ano que vem. Por qualquer parâmetro, o Brasil é o país que mais gasta com a elite do funcionalismo numa amostra de 11 países.

O gasto brasileiro com supersalários — cerca de US$ 8 bilhões pelo critério de conversão adotado — equivale a 21 vezes o que gasta a Argentina, segundo país com mais pagamentos acima do teto. Depois vêm Estados Unidos e México,únicos com gastos acima de US$ 200 milhões. França, Itália, Colômbia, Portugal e Alemanha despendem menos de US$ 4,2 milhões, ao redor de 0,05% do total brasileiro. A distorção é tão grande que o excedente do teto constitucional pago no Brasil a 40 mil servidores públicos daria para financiar um salário mensal de R$ 2.200 a 9,1 milhões de brasileiros — ou 18,8% dos empregados com carteira assinada.

Crise de lógica, por Merval Pereira

O Globo

Para punir o governo, a Câmara aprovou o projeto que concede gratificação especial para agentes de saúde, sem dizer de onde vai sair o dinheiro.

A escolha pelo eleitor de candidatos a deputado estadual ou federal deveria ser feita pelo partido ou coligação de que ele participa, e não por suas qualidades pessoais. Essa escolha pessoal serve mais para as disputas majoritárias, especialmente Governador ou presidente da República. Se o eleitor desse prioridade à organização partidária, tenderia a votar para dar aos candidatos majoritários o apoio necessário para que governassem. Se as legendas partidárias significassem alguma coisa lógica com seu programa oficial, não aceitariam certos candidatos, por fragilidade moral ou desencontro ideológico. Mas o que importa é o voto na urna, que aumenta os fundos de financiamento.

No Brasil, dificilmente o governante tem a maioria na Câmara dos Deputados ou na Assembleia Legislativa. Esse desencontro obriga a que o candidato majoritário eleito tenha que fazer alianças fora de seu arco partidário, o que invariavelmente inclui acordos com parlamentares de campos opostos, e mesmo distintos ideologicamente. Esses acordos são regidos por interesses pessoais, que desvirtuam o sentido da coalizão partidária estendida, muitas vezes sem nenhuma lógica.

O Congresso não derrotou o governo. Derrotou o país, por Míriam Leitão

O Globo

Na semana em que o Brasil puniu golpistas pela primeira vez, parlamentares impõem um retrocessos brutal, com ameaças ao meio ambiente

A democracia brasileira não permite descanso. Na mesma semana em que o Brasil atravessou uma fronteira histórica para fortalecer os pilares do regime das liberdades, o Congresso humilha o país mostrando que é capaz de tudo para atender a interesses menores. Não foi o governo que o Congresso derrotou com suas pautas-bomba e destruição das leis de proteção ambiental e do patrimônio histórico. Foi o país.

O Brasil nunca havia punido golpistas. Passou toda a história republicana assombrado por golpes, tentativas de golpes, quarteladas e pela ideia dos militares de que lhes cabia tutelar o poder civil. Prender generais e um ex-presidente condenados após o devido processo legal por tentativa de golpe é um passo gigante. Os que têm a democracia como valor supremo poderiam, quem sabe, depois disso, descansar um pouco da grande batalha.

As encrencas de Augusto Heleno, por Elio Gaspari

O Globo

O general Augusto Heleno, condenado a 21 anos de prisão, revelou durante um exame médico que convive com o mal de Alzheimer desde 2018. Um ano depois desse diagnóstico, ele passou a ocupar a chefia do Gabinete de Segurança Institucional (GSI).

A trama golpista de 2022/2023 não foi a única encrenca pela qual Augusto Heleno passou. Na manhã de 21 de outubro de 1977, o capitão Augusto Heleno era ajudante de ordens do ministro do Exército, general Sylvio Frota, que acabara de ser demitido pelo presidente Ernesto Geisel. Por volta das 10 horas da manhã, do carro de seu chefe tentou telefonar para o general Fernando Bethlem, comandante das guarnições do Sul, convocando-o para reunião do Alto Comando na qual Frota pretendia emparedar Geisel. Não o achou, pois Bethlem foi para o Palácio do Planalto, onde recebeu o convite para assumir o ministério.

Um ano depois, Augusto Heleno era vigiado pelo Serviço Nacional de Informações: “Vale lembrar que o capitão de cavalaria Augusto Heleno, ex-ajudante de ordens do general Sylvio Frota e que com o mesmo continua a manter estreita ligação, e o capitão de infantaria paraquedista Burnier (filho do brigadeiro Burnier) e ligado ao general Hugo Abreu, irão cursar a Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais.”

Homens ocos, por Dorrit Harazim

O Globo

Melhor sair logo da escuridão e da indignação fácil. E encarar quem somos nós, que aceitamos o que vemos

Três meses atrás, no Festival de Veneza, a estreia mundial do filme “A voz de Hind Rajab” recebeu ovação histórica de 23 minutos. A diretora tunisiana desse longa híbrido acredita que ele consiga ser um dos favoritos ao Oscar de Melhor Filme Internacional em março de 2026. Ele reconstitui as últimas horas de vida da menina palestina Hind, de 6 anos, passadas dentro de um automóvel que acabara de ser perfurado por 335 disparos. O tio, a tia e três primos espremidos nos dois bancos do carro familiar foram morrendo a seu lado. E a menina, agora sozinha, aciona o número de emergência do Crescente Vermelho que toda criança ou adulto de Gaza sabe de cor. A voz infantil tem urgência adulta e é indelével:

— Estou com medo, por favor, venham.

O fato ocorreu em 29 de janeiro de 2024. Como se sabe hoje, ninguém veio —ou melhor, os dois socorristas que tentaram chegar até Hind de ambulância foram igualmente metralhados pelas Forças de Defesa de Israel (FDI). O conjunto de corpos em carcaças retorcidas ali ficou por 12 dias até ser recolhido.

Um novo ciclo político se abre diante de uma onda reacionária global, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Mas falta direção estratégica. Falta o movimento político mais profundo do que a agitação radical, que permita avançar na modernização em bases democráticas

A percepção de que há uma corrida mundial para reinventar o Estado não é nova, mas nunca foi tão flagrante e urgente. As mutações tecnológicas, a reconfiguração das subjetividades na chamada “sociedade líquida” e a crise dos mecanismos tradicionais de representação, como os partidos, o parlamento e a imprensa, colocaram os países diante de escolhas dramáticas. No turbilhão, democracias representativas parecem correr atrás dos acontecimentos, enquanto regimes autoritários, por concentrarem poder, reprimir dissensos e eliminar freios e contrapesos, conseguem produzir respostas mais rápidas e, em certos casos, mais eficazes à necessidade de modernização.

A Arábia Saudita talvez seja o exemplo mais eloquente dessa contradição: moderniza sua economia com velocidade quase futurista, mas à custa de liberdades civis, participação política e direitos humanos. Já no Ocidente, democracias centrais como a França se contorcem diante da pressão das ruas, da polarização ideológica, da erosão de partidos tradicionais e da incapacidade de produzir reformas que mobilizem consenso.

Chega de intermediários! Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Grande vitorioso com a prisão de Bolsonaro, Centrão se torna principal adversário de Lula

O grande vitorioso com a prisão de Jair Bolsonaro é o Centrão, que se descola do ex-presidente e pega em armas contra o presidente Lula no Congresso para fazer jus ao próprio apelido, tornar-se alternativa à polarização política e aventurar-se por mares nunca dantes navegados: a disputa da Presidência da República. Chega de intermediários! É hora de candidatos próprios.

Assim, o grande adversário de Lula em 2026 deixa de ser o bolsonarismo e passa a ser o Centrão, que nada mais é do que direitão e ocupa o vácuo eleitoral criado pela prisão, soluços e delírios de Jair Bolsonaro, a beligerância antipatriótica de Eduardo Bolsonaro e o salve-se quem puder na turma e na família.

Hora de pensar no interesse nacional, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Trump elevou de 25% para 50% a tarifa sobre a Índia por causa da importação do petróleo russo

A fragilidade da ordem mundial se tornou ainda mais evidente nos últimos dias, com as tensões entre China e Japão e os obstáculos a um cessar-fogo entre Rússia e Ucrânia. O Brasil importa 90% dos fertilizantes que consome, dos quais 25% vêm da Rússia e 20% da China.

Estudo do Insper Agro Global lista os riscos comerciais, geopolíticos e logísticos dessa dependência. O Brasil, cuja economia é fortemente impulsionada pelo agronegócio, responde por 23% das importações mundiais de fertilizantes. Dessa maneira, a economia fica exposta às variações de preços, que dependem diretamente do custo do gás e do carvão. De 2020 para cá, a energia subiu 105% e os fertilizantes, 129%.

A urgência do crescimento, por Ana Paula Vescovi*

Folha de S. Paulo

Brasil precisa criar consensos mínimos, capazes de orientar reformas

Falta engajar a sociedade no desafio de crescer mais e de modo sustentado

Europa discute um dos temas mais relevantes desde a criação da União Europeia. O relatório Draghi e o estudo da London School of Economics recolocaram no centro da agenda uma pergunta que deveria ser simples, mas que raramente recebe respostas claras: o que precisa ser feito para que o continente volte a crescer de forma sustentada? A partir disso, formou-se algo novo: os movimentos em busca de um consenso de longo prazo, capaz de sobreviver a governos, orientar investimentos estratégicos e manter a coesão entre os países.

O diagnóstico europeu claramente é que, sem crescimento, não há como financiar a transição energética, a defesa do continente, lidar com o envelhecimento populacional e garantir autonomia tecnológica em um mundo mais competitivo. Tudo passa por produtividade e inovação, integração de padrões industriais e segurança institucional. A região escolheu discutir um novo projeto; se vai prosperar, a história há de contar.

O Brasil com menos empregados domésticos, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Proporção de trabalhadores domésticos no total cai ao menor nível de que se tem registro

Mercado de trabalho vai bem, mas esfria; mulheres fogem de emprego na casa dos outros

Os empregados domésticos nunca foram tão poucos em relação ao total dos trabalhadores, ao menos desde 2012, desde quando há estatísticas comparáveis, e desconsiderados os números distorcidos da época da epidemia. Em outubro deste ano, eram 5,4% do total. Em março de 2012, eram 6,8% (e sempre mais de 6,3% até a Covid-19). Sim, mais de 1 de cada 20 pessoas ocupadas no país é doméstico. São 5,6 milhões, mas não atraem tanta atenção quanto os trabalhadores por aplicativo, 1,7 milhão. Continuam quase invisíveis no debate público —é secular.

São dados baseados na Pnad do IBGE. Dizem algo sobre mudanças no mundo do trabalho e até sobre a inflação e a taxa de juros do Banco Central.

Direita precisa se perguntar: valeu a pena? Por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Graças a Bolsonaro, morreu todo o trabalho de décadas que PSDB e PFL fizeram para livrar a direita da associação com a ditadura militar

Bolsonarismo atrapalhou processo orgânico de crescimento de uma direita com enraizamento social

Agora que Jair está em cana, opa, calma aí, não consigo abandonar esse começo de frase ainda não, me deixe saborear, agora que o Jair está em cana, rapaz, que gostinho de justiça e bolo da vovó que sinto após dizer isso em voz alta.

Vou ter que dizer de novo, agora que o Jair está em cana, olha só, se o golpe tivesse dado certo, eu teria sido assassinado no pau-de-arara.

Se está achando ruim, vá ler outra coluna, quero mais é dizer de novo, agora que Jair está em cana por ter tentando roubar o voto dos pobres e usar as armas da República para matar seus adversários.

Desculpa, foram anos ouvindo gente dizer sem rir que o charlatão do Guedes era competente, mas OK, parei, agora que o Jair está em cana por ter tentado roubar o voto dos pobres e usar as armas da República para matar seus adversários, Vacina! Vacina!

Legalidade é o melhor remédio, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

O histórico de escândalos nas altas esferas poderia colocar o país no lugar de paraíso de ilegalidades

A boa notícia é que desde a redemocratização muitas malfeitorias explodiram, mas várias foram implodidas

Quatro ex-presidentes presos, dois impeachments em 24 anos, cinco ex-governadores de um só estado (RJ) com passagens pela cadeia é um portfólio e tanto, para o bem e para o mal.

Diz muito sobre a conduta das autoridades, mas diz muito também sobre o histórico nacional de tolerância com os poderosos, não só da política estrito senso, como atividade profissional.

Até o início da década dos 1990, os barões do jogo do bicho no Rio de Janeiro eram tratados como celebridades, financiadores de campanhas eleitorais em cena aberta.

Uma gafe muito instrutiva, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Lapso verbal de Lula é acidente de percurso que deixa claro que o problema da droga é também de linguagem

As estruturas burocráticas de repressão travam uma guerra de enxugar gelo contra a narcocracia internacional

Todo homem de Estado comete gafes. O chanceler alemão Friedrich Merz disse estar "contente" por deixar Belém e retornar a seu país, que "é lindo". Fez feio. Em Bolsonaro, a frase "eu não sou estuprador, mas se fosse não iria estuprar porque ela não merece", a propósito de uma parlamentar, não é gafe, mas exposição de um "self" maligno: ele próprio foi uma gafe republicana.

Lula é reincidente. A sua última merece discussão por um possível mal-entendido. Ele deixou escapar algo como "traficante é vítima do usuário". Literalmente, a frase é um absurdo para o senso minimamente ciente do mal que o narcotráfico inflige à sociedade e às famílias. Cansaço ou falta de concentração prejudicam o processamento mental, levando a lapsos de linguagem.

Poesia | Não se mate, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Simone - O que será

 

sábado, 29 de novembro de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Congresso promove retrocesso ao derrubar vetos de Lula

Por O Globo

Para atingir Executivo, Parlamento deteriora proteção ambiental e quadro fiscal. Maior derrotado é o Brasil

Congressistas podem ter mirado no governo, mas atingiram duramente o Brasil ao derrubar, na quinta-feira, vetos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva interpostos a dois projetos: o que muda regras de licenciamento ambiental e o que estabelece o Programa de Pleno Pagamento das Dívidas dos Estados (Propag). No primeiro, abriram a porteira à devastação do meio ambiente, mandando às favas qualquer preocupação com a preservação e ameaçando as metas ambientais brasileiras, logo depois do fim da COP30, em Belém. No segundo, beneficiaram estados endividados pondo em risco o equilíbrio das contas públicas. Em suma, um desserviço ao país.

Girando em falso, por Marco Aurélio Nogueira

O Estado de S. Paulo

A insistência em viver a disputa eleitoral como um choque entre polos enraivecidos dificulta que forças de mediação entrem em campo

Numa bela passagem de Minha Formação (1900), Joaquim Nabuco estampou um pensamento que permanece instigante mesmo depois de ter atravessado tempos e gerações. Escreveu: “Há duas espécies de movimento em política: um, de que fazemos parte supondo estar parados, como o movimento da Terra que não sentimos; outro, o movimento que parte de nós mesmos. Na política são poucos os que têm consciência do primeiro, no entanto esse é, talvez, o único que não é uma pura agitação”.

A frase famosa pode nos ajudar a refletir sobre o Brasil.

Fazemos parte da política que se movimenta, mas não supomos estar parados. Imaginamos estar na vanguarda dela, conduzindo-a. Na verdade, mais colidimos do que interagimos com ela. Os mais dinâmicos e espertos fazem da política uma via de ascensão. Nossa política é movimento permanente, desatento ao que importa.

Mutações não podem desvirtuar a essência da Constituição, por Oscar Vilhena Vieira

Folha de S. Paulo

Sistema político brasileiro passa por acentuado processo de mutação

Força está migrando para o Poder que tem menos confiança da população

O sistema político brasileiro vem passando por um acentuado processo de mutação no que se refere à relação entre os Poderes. Embora não se deva cravar que abandonamos o chamado presidencialismo de coalizão, fica cada vez mais claro que o presidente perdeu a posição de dominância em relação ao Legislativo, tornando-se cada vez mais dependente do equilíbrio de forças dentro do Supremo Tribunal Federal.

derrubada dos vetos presidenciais à nova lei de licenciamento ambiental e a ameaça de não ratificação da nomeação de Jorge Messias para o STF confirmam esse processo de realocação de forças, em que o Parlamento busca ao mesmo tempo impor maiores custos de governabilidade ao Executivo e reduzir a influência do Executivo na composição do Supremo. Afinal, o Supremo não apenas tem jurisdição criminal sobre os membros do Parlamento como também decide vários temas de interesse dos parlamentares.

Autoritarismo global se inspira nos EUA, por Fareed Zakaria

O Estado de S. Paulo

Suprema Corte permissiva e Congresso submisso transformam Executivo no terror da democracia

A presidência passou de um cargo modesto para uma superpresidência que centraliza poder

Em uma conversa com um amigo paquistanês, lamentei a recente decisão do Paquistão de conceder poderes ampliados ao chefe do exército, incluindo imunidade vitalícia contra processos judiciais. Meu amigo respondeu: “Estamos apenas seguindo os passos dos EUA. A Suprema Corte americana não decidiu que o presidente poderia assassinar seu oponente político e ainda assim ser imune a processos na Justiça?”

Se os Pais Fundadores dos EUA retornassem e analisassem seu legado, a presidência moderna sem dúvida seria algo que os surpreenderia. Eles projetaram o sistema político americano para fragmentar o poder. Eles estavam reagindo contra uma monarquia e a “acumulação de todos os poderes nas mesmas mãos” (Federalista n.º 47).

Bolsonarismo arrefece, e aliados já cogitam Tarcísio sem Bolsonaro, por Thaís Oyama

O Globo

Aliados começam a semear a ideia de convencer governador a se candidatar sem o apoio do ex-presidente

‘Se for o Macaco Tião contra Lula, eu prefiro o Macaco Tião.’ Com a frase, o deputado Eduardo Bolsonaro, líder do bolsonarismo selvagem, reiterou ontem o que havia dito dias antes em entrevista ao UOL: não descarta apoiar uma eventual candidatura do governador Tarcísio de Freitas ao Planalto, ainda que no contexto de um segundo turno.

— Se o Tarcísio for esse candidato [contra Lula], a gente vai acabar falando, sim, de Tarcísio de Freitas — disse.

Ninguém arrisca um pão com leite condensado na garantia de que a afirmação do deputado se sustentará. Mas merece atenção ela ter sido feita num momento em que uma conjuntura inédita se desenha.

De um lado, pesquisas mostram o arrefecimento do apoio popular a Jair Bolsonaro, definitivamente preso e reduzido de Mito a “seu Jair” — por obra da delicadeza de uma policial penal que, ao analisar a calcinada tornozeleira eletrônica do ex-presidente, dirigiu-lhe o tratamento benevolente que se costuma dar a pessoas idosas e frágeis quando fazem algo que não deveriam. Do lado de Tarcísio, o vetor aponta para a direção oposta. Em fase animada, ele retoma suas falas de presidenciável e prospecta cenários para avaliar que nome daria um bom vice.

Golpistas foram condenados, mas democracia segue incompleta, por Flávia Oliveira

O Globo

Não é democrático o Estado que permite a tomada de territórios populares por grupos criminosos

Novembro termina com o desejado desfecho da Ação Penal 2668, que puniu o núcleo crucial da trama golpista, incluindo um ex-presidente da República, sentenciado a 27 anos e três meses em regime fechado, três generais e um almirante. Na semana derradeira, a prisão antecipada de Jair Bolsonaro numa sala tornada cela na Polícia Federal em Brasília e o trânsito em julgado, que encarcerou os demais integrantes do topo da organização criminosa, à exceção de um foragido, Alexandre Ramagem, ex-diretor da Abin.

O deputado federal (PL-RJ) foi o candidato bolsonarista a prefeito do Rio de Janeiro no ano passado. Foi derrotado por Eduardo Paes (PSD) no primeiro turno. Tivesse ganhado, escaparia pela fronteira amazônica abandonando a cidade, como fez com o mandato na Câmara? Fica o questionamento a quem entrega o voto a imerecidos. O abandono dos cargos para fugir da Justiça tornou-se método na extrema direita brasileira, a ponto de ser argumento para tirar Bolsonaro da custódia domiciliar para a prisão preventiva.

O golpismo no banco dos réus, por Roberto Amaral*

É relevante e inédita entre nós a prisão de um ex-presidente da República e, com ela, a de uma récua de oficiais superiores das forças armadas (três generais e um almirante de esquadra, e um extenso rol de coronéis, majores e capitães) julgados e condenados ao cárcere por conspirarem contra a democracia. 

Julgamento e condenação levados a cabo pelo poder civil, às claras, sem qualquer sorte de questionamento digno e, até aqui, sem resistência corporativa. A lição há de ser esta: a partir de agora (hosanas!), atentar contra a democracia pode sair caro. 

Mas, trata-se, ainda, de uma só expectativa, ou sonho, cuja efetividade depende, e muito, do papel a ser desempenhado pelo poder político, que vem dando poucos sinais de vitalidade; a tudo assiste silente, e em face do processo histórico procura instalar-se na plateia. 

O fato é que a chamada sociedade carece de motivação própria, ou de estímulo (falência dos partidos populares?), para voltar às ruas em defesa da democracia, que deveria ser seu ânimo mais caro. A exceção, animadora, foram as recentes mobilizações de 21 de setembro, que percorreram o país e empolgaram o Rio de Janeiro e São Paulo. 

Um ciclo se fechou, André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

A atual geração não deverá ver mais uma tentativa de derrubada violenta do poder no Brasil. Mas, é bom se manter alerta

O mais recente capítulo da longa história de tentativas de golpe militar no Brasil se encerrou nesta semana. O ministro Alexandre de Moraes anunciou o fim do processo, seu trânsito em julgado e determinou que os réus comecem a cumprir pena. São quatro oficiais de alta patente, um capitão, ex-presidente da República, e Alexandre Ramagem, civil, ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), que se aproveitou de um descuido das autoridades e fugiu para os Estados Unidos. Ele, aliás, inaugurou uma nova rota que é utilizada no sentido contrário pelos cubanos que fogem para o Brasil. A Guiana mantém relações estáveis com Cuba e também com os Estados Unidos.

Xandão como ideia, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

O gênio xandônico não voltará mais à lâmpada. A coação contra o STF – eis o texto – é perene. O juiz deve estar de prontidão, para agir de ofício, para se antecipar, corrompido o sentido do verbo atacar de modo que a manifestação do pensamento seja compreendida preventivamente como ataque às instituições, de súbito criminalizada a expressão que considere haver uma “ditadura do Supremo”.

O sujeito tem o direito de difundi-la; sem que a prática o classifique como agente numa organização criminosa, vício em função do qual uma vigília logo consistirá em disfarce para “movimentos populares criminosos” – esse conceito em que tudo cabe. É lindo quando se condena à baciada, sem individualização de condutas, aqueles de quem não gostamos. Né?

A demência do general, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Diagnóstico de Alzheimer poderá dar a Augusto Heleno benefício de prisão domiciliar

Seria desejável criar controles para evitar que pessoas em declínio cognitivo assumam cargos políticos?

Está dando certo. O general Augusto Heleno apareceu com um diagnóstico de Alzheimer, seus advogados pleitearam prisão domiciliar e a PGR concordou. É bem possível que Alexandre de Moraes conceda o benefício humanitário. Ao contrário de Jair, Heleno não fez nada que pudesse ser interpretado como tentativa de fuga.

Sei que muitos desconfiarão do oportuno diagnóstico, mas não me embrenho nessa seara. O que me interessa aqui é a questão da capacidade jurídica. A crer no estratego, ele descobriu ter a doença em 2018 e, no ano seguinte, tornou-se ministro de Estado. Passamos quatro anos sob o tacão de uma alta autoridade que já apresentava síndrome demencial ou ao menos sinais de declínio cognitivo suficientes para procurar um médico.

O que ocorre com o capitalismo brasileiro? Por Alexa Salomão

Folha de S. Paulo

Na história, negócios vivem ciclos ruins, mas está difícil entender a recente toada de crises e prejuízos

Investidor sofre com fraude contábil, manipulação de ações e até crime organizado na economia formal

Vira e mexe, a história dos negócios brasileiros, como ocorre em outros países, vive ciclos ruins. A abertura de mercado nos anos 1990, por exemplo, criou um choque competitivo que levou muitos à falência. Às vezes, o baque vem de fora. Foi assim na crise financeira global de 2008, com a quebra do banco americano Lehman Brothers. Tivemos a Operação Lava Jato, momento em que Justiça e polícia propunham passar a limpo a corrupção entre público e privado.

É difícil, porém, definir a toada mais recente, que esfarela investimentos privados e, principalmente, a credibilidade institucional. O caso da Lojas Americanas espalhou espanto e prejuízos. Como um negócio com as digitais de três dos mais bem-sucedidos empresários do Brasil —Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira— pôde se envolver numa fraude contábil que, descoberta, levou a um rombo financeiro superior a R$ 25 bilhões?

A Transição Energética, o Brasil e a COP 30, por George Gurgel de Oliveira,

A interdependência entre as questões econômicas, sociais e ambientais e as demandas de energia colocam a discussão da questão energética nos planos nacional e internacional, mobilizando interesses de estado, de governo, de mercado e da cidadania preocupados com a maneira pela qual as potencialidades energéticas estão sendo apropriadas da natureza e de que maneira são utilizadas nas diversas atividades humanas. Estas relações, históricas e atuais, acontecem de maneira desigual entre os EUA, a China, a Rússia, os países da Europa, América Latina, África e Ásia, com impactos diferenciados na vida econômica, social e ambiental de cada sociedade. Estas escolhas e relações determinaram e determinam sociedades (in)sustentáveis.

Perde o Brasil sem Rodrigo Pacheco no STF, por Marcus Pestana

Em 2012, Daron Acemoglu e James A. Robinson publicaram um importante livro, que os levou ao Nobel de Economia em 2024. POR QUE AS NAÇÕES FRACASSAM discute os determinantes do desenvolvimento. E qual é a conclusão central? A diferença entre o êxito e o fracasso de uma nação é fruto da qualidade de suas instituições.

 As pessoas, os governos, os partidos, passam. As instituições, em países desenvolvidos e democráticos, ficam. As instituições moldam o destino de uma nação. Instituições robustas, legitimadas, inclusivas, promovem a participação social, a inovação, o desenvolvimento e a justiça.

A Constituição é a coluna vertebral da democracia. Aprendamos com o timoneiro da redemocratização e presidente da Assembleia Nacional Constituinte eleita em 1986, deputado Ulysses Guimarães, no discurso da sua promulgação:

“A Constituição certamente não é perfeita. Ela própria o confessa, ao admitir a reforma. Quanto a ela, discordar, sim. Divergir, sim. Descumprir, jamais. Afronta-la, nunca. Traidor da Constituição é traidor da Pátria... A persistência da Constituição é a sobrevivência da democracia”.

O mapa para a COP31, por Cristovam Buarque

Veja

É preciso adotar a educação para enfrentar a tragédia ecológica

Não deveria causar espanto o fato de a COP30 não ter incluído em suas decisões um “mapa do caminho” para o mundo abolir o uso de combustíveis fósseis (leia a reportagem na pág. 52). Porque, embora busque soluções para o problema das mudanças climáticas no planeta, a COP reúne países independentes, cada um com interesses nacionais e imediatos. Com seus eleitores mais preocupados com o preço da gasolina do que com o nível do mar, fica difícil adotar uma estratégia de conjunto que implique sacrifícios para cada pessoa e cada país. O governante toma decisões comprometido com o presente de sua população, não com o futuro da humanidade.

Soldar a democracia, por Jamil Chade

CartaCapital

O mundo olha com especial atenção para o encarceramento de Jair Bolsonaro

O historiador e escritor Luiz Antônio Simas nos alerta que não é verdade que o Brasil fracassou em seu projeto. Seria um equívoco pensar que se trata de um país que “deu errado”. Se ele foi instaurado com o objetivo de ser explorado, de dar benefícios às metrópoles e às elites, a única conclusão possível é de que o êxito foi total e duradouro, por gerações e gerações. “O Brasil foi projetado pelos homens do poder para ser excludente, racista, machista, homofóbico, concentrador de renda, inimigo da educação, violento, assassino de sua gente, intolerante, boçal, misógino, castrador, famélico e grosseiro”, escreveu. “O Brasil como projeto, até agora, deu certo. Somos um empreendimento escravagista fodidor dos corpos extremamente bem-sucedido. Fazer o Brasil começar a dar errado é a nossa tarefa mais urgente.”

Golpe no golpismo, por Aldo Fornazieri

CartaCapital

Acaba a histórica Condescendência com Bolsonaro

O despacho de prisão de um ex-presidente da República, de quatro oficiais generais e de um almirante ex-comandante da Marinha, entre outros altos integrantes do governo passado, é o maior golpe que a tradição militar golpista recebeu até hoje. São eles: Jair Messias Bolsonaro, Walter Braga Netto, Augusto Heleno, Paulo Sérgio Nogueira e Almir Garnier. Somam-se Anderson Torres, ex-ministro da Justiça, e Alexandre Ramagem, ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (foragido). A condenação desses personagens é inédita e histórica em termos de punição de golpistas. Expressa um duro golpe na doutrina golpista dos militares que floresceu com o nascimento da República, atingiu o apogeu com o golpe de 1964 e fez-se ouvir num eco pálido e moribundo no 8 de Janeiro de 2023.

A COP e o clima, por Cristina Serra

CartaCapital

Copo meio cheio ou meio vazio?

Vila da Barca é uma comunidade centenária, no bairro do Telégrafo, em Belém do Pará, com cerca de 5 mil moradores. Conhecida pelas palafitas fincadas sobre as águas da Baía do Guajará, a Vila mantém as características de povoação ribeirinha, onde vivem muitos pescadores e suas famílias, em plena área urbana da metrópole de 1,3 milhão de habitantes.

Quando eu tinha 18 anos e ainda era estudante de Jornalismo, pisei na Vila da Barca pela primeira vez. O professor de Fotografia orientara os alunos a andar pela cidade com o olhar atento para os seus habitantes. Escolhi conhecer a Vila. Lembro do choque ao me dar conta do contraste entre as carências da comunidade e o conforto do bairro de classe média onde eu vivia.

O Master e a maestria financeira, por Luiz Gonzaga Belluzzo

CartaCapital

Não há como escapar, no capitalismo as decisões são governadas pela especulação permanente sobre o futuro

A liquidação judicial imposta pelo Banco Central ao Banco Master suscitou manifestações de economistas e jornalistas econômicos. As manifestações buscaram identificar as razões do infausto episódio com base nos critérios que assolam o “espírito microeconômico”.

Vou cometer a ousadia de considerar a derrocada do Master a partir dos movimentos histórico-sistêmicos, gravados inexoravelmente nas formas constitutivas dos mercados financeiros, corpo e alma do capitalismo desde os primórdios de sua existência.

No livro Manias, Panics, and Crashes, o economista Charles Kindleberger faz uma autópsia dos processos maníacos que, inevitavelmente, culminam no colapso de preços dos ativos financeiros e nas crises de crédito. Assim foi em Amsterdã, no episódio da Tulipomania, um antepassado modesto dos grandes crashes dos séculos XX e XXI. Entre 1634 e 1637, os investidores holandeses, muitos de classe média, especularam furiosamente com a possibilidade de negociar, a preços cada vez mais elevados, os bulbos de tulipa, que, ademais, tinham a vantagem de exigir muito pouco ou nada para a sua reprodução.

Poesia | Os três mal amados (Trecho), de João Cabral de Melo Neto

 

Música | Sem fantasia - Antônio Zambujo & Roberta Sá

 

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Operação contra Refit revela que unir esforços é essencial

Por O Globo

Ação contra criminosos envolveu Receita, Procuradoria da Fazenda, MPs, polícias e secretarias estaduais

Foi oportuna a megaoperação deflagrada nesta quinta-feira para desarticular um esquema de sonegação fiscal em cinco estados e no Distrito Federal. A operação cumpriu mandados de busca e apreensão contra 190 alvos ligados a empresas de combustíveis e ao grupo Refit, dono da antiga Refinaria de Manguinhos. Batizada Poço de Lobato, a ação reuniu mais de 600 agentes e envolveu Receita Federal, Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional, polícias, Ministérios Públicos e secretarias de São Paulo e outros estados — mostra de que a cooperação entre diferentes instituições é fundamental para combater atividades criminosas.

Comandado pelo empresário Ricardo Magro, que mora em Miami, o Refit é acusado de ser o maior devedor de ICMS no estado de São Paulo e um dos maiores devedores da União. Segundo o MP paulista, o esquema de fraude fiscal causou prejuízos a estados e ao governo federal estimados em mais de R$ 26 bilhões. Autoridades informaram ter bloqueado R$ 10,2 bilhões em bens dos acusados.

Bolsonaro vai preso, e Tarcísio abre o jogo, por Andrea Jubé

Valor Econômico

O momento é mesmo de incertezas

O início da execução da sentença de 27 anos e 3 meses de prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro, em uma cela da Polícia Federal (PF), deu uma chacoalhada na oposição, que reagiu.

Na mesma data escolhida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para rufar os tambores com a isenção do Imposto de Renda (IR) para quem ganha até R$ 5 mil mensais, a direita providenciou um palco para o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), mandar recados.

Compartilhando os holofotes de quarta-feira (26) com Lula, que comemorou o trunfo eleitoral para 2026, Tarcísio tentou acalmar apoiadores, atordoados com a notícia da prisão e o futuro incerto, diante de uma direita acéfala e fragmentada. “Não tenham ansiedade”, recomendou, durante o fórum UBS WM Latin America Summit, observando que a candidatura da direita poderá ser anunciada até março.

Selo de Ignácio de Loyola Brandão, por José de Souza Martins

Valor Econômico

Estampa comemorativa do escritor Ignácio de Loyola Brandão pelos 60 anos de seu primeiro livro lembra que a filatelia é uma educativa fonte de conhecimento, de arte, de história

Há dias, os Correios do Brasil lançaram um selo comemorativo dos 60 anos do primeiro livro de Ignácio de Loyola Brandão, membro não só da Academia Brasileira de Letras, mas também, há mais tempo, da Academia Paulista de Letras.

Ele começou com “Depois do sol”, que também abre o ciclo de livros inspirados em suas descobertas do que virá a ser o elenco de suas observações sobre a cidade grande em que passara a viver vindo de Araraquara, sua terra.

Munido com as referências da idílica cidade de origem, o que se tornou característico dos interioranos de muitos recantos do Brasil, desenvolveu um desdobramento literariamente crítico, próprio do romantismo dos que vêm de longe.