terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Se a China invadir Taiwan. Por Pedro Doria

O Globo

Chineses assumiriam o controle do negócio da IA no mundo

Se a China invadir Taiwan, terá nas mãos o controle quase absoluto da produção internacional de microprocessadores de ponta. Chips de computador. O cérebro digital por trás da inteligência artificial. A Nvidia, empresa americana que se alterna com Apple e Microsoft no posto de companhia mais valiosa do mundo, estaria de joelhos. Ela desenha os chips usados por OpenAI, Anthropic e outras. Mas são empresas de Taiwan que manufaturam esses chips. Para passar do projeto ao objeto, é preciso aquilo que apenas Taiwan tem. Mesmo o Google, que cria os próprios chips, depende da manufatura da ilha. A China assumiria o controle do negócio da IA no mundo. E não só da IA. Tudo depende de microchips. Carros modernos não abrem sequer a porta sem microchips. Geladeiras, micro-ondas. A geopolítica mundial seria redesenhada por completo. Mas por que a China invadiria Taiwan?

Quando a Rússia invadiu a Ucrânia, em fevereiro de 2022, muitos na esquerda brasileira abraçaram as ideias do cientista político John Mearsheimer, da Universidade de Chicago. Mearsheimer é o principal nome da escola realista em ciências internacionais. É o sucessor intelectual de Henry Kissinger, secretário de Estado de Richard Nixon e um dos responsáveis pela estratégia de espalhar ditaduras militares de direita pela América Latina. É irônico. Mas um bom pedaço da esquerda latino-americana defendeu a ação russa contra a Ucrânia abraçando o argumento de que, ora, “a Ucrânia está na zona de influência russa”. Portanto é da natureza do comportamento das nações que a Rússia não tolerará a ideia de um país vizinho ter plena autonomia.

Os realistas — eles próprios se autobatizaram assim — enxergam países como caixas-pretas que sempre reagem da mesma forma. Se um país é mais forte que o vizinho, imporá suas vontades. Nem que seja à força. Na essência, realistas não acreditam que democracias liberais realmente funcionem. Não acreditam que sociedades sejam capazes de se comprometer com regras comuns, arbítrio independente. Que um mundo multilateral seja viável.

A ofensiva que levou ao sequestro do ex-presidente Nicolás Maduro, na Venezuela, parte do mesmo princípio. O governo americano, com Donald Trump, considera que o Hemisfério Ocidental é sua zona de influência. Certos comportamentos de líderes das Américas não serão tolerados. Alguns tentam comparar a ação ao sequestro seguido de prisão de Manuel Noriega, ditador panamenho, durante o governo de Ronald Reagan. É muito pior. Noriega havia sido agente da CIA, e o governo Reagan não assumiu o controle do Canal do Panamá depois da prisão. Empresas americanas não ganharam contratos melhores com o ataque. Desde a Guerra Hispano-Americana, nos primeiros anos do século XX, os Estados Unidos não faziam uma ação tão ostensivamente imperialista. Trump foi claro: o objetivo é garantir um governo venezuelano que entregue aos americanos o melhor contrato possível de petróleo.

Um dos principais críticos de Mearsheimer é Michael McFaul, que serviu como embaixador em Moscou nos anos Obama. Para ele, cientista político da Universidade Stanford, os realistas partem do princípio segundo o qual o tipo de regime não faz diferença no comportamento de nações. Mas faz. Democracias não entram em guerra com democracias. Negociam. Quando potências econômicas incentivam a aceitação de regras comuns por todos, há mais comércio, mais crescimento, mais paz. Foi o que vivemos entre os anos 1990 e 2000. Quando regredimos à política do século XIX e à economia do século XVII, entramos no buraco.

Colega de McFaul em Stanford, Francis Fukuyama segue correto na ideia que teve no momento em que se desmontava o Muro de Berlim. O encontro entre democracia liberal e economia de mercado é o melhor caminho que já descobrimos. E estamos nos afastando dele por divisões internas das sociedades. Porque nos recolhemos a bolhas e não toleramos mais diferenças. Gente como Putin e Trump cresce nessa regressão civilizatória. Se a China olhar torto para Taiwan, o mundo muda.

 

Nenhum comentário: