Valor Econômico
Seguir o dinheiro é o caminho para
identificar as conexões políticas e a extensão das práticas fraudulentas no
mercado
No final dos anos 1960 e início da década de
1970, o mercado acionário brasileiro viveu um dos seus períodos de maior valorização.
Em pleno milagre econômico da ditadura militar, o índice da bolsa do Rio de
Janeiro, então a maior do país, passou de 110,1 pontos, em fevereiro de 1967,
para 5.236,3 pontos em junho de 1971.
Os dados vêm do livro “Crises Financeiras: Brasil e mundo (1929-2023)”, de Roberto Teixeira da Costa, observador privilegiado da história do sistema financeiro brasileiro. Naquela época, ele era gestor do Crescinco, maior fundo de investimentos da América Latina. Costa mostra como a intensa escalada de preço das ações, de um lado, e a qualidade dos dados financeiros das empresas e os mecanismos de controle do mercado frágeis, de outro, indicavam que o colapso era previsível.
Outro contemporâneo que compilou histórias
daqueles tempos loucos é Ney Carvalho. Em “Três Episódios Marcantes das Bolsas
do Brasil”, o gestor de uma das principais corretoras de então conta um causo
ilustrativo de como a falta de informações confiáveis e a fiscalização
deficiente favoreciam a especulação e os aproveitadores.
Segundo Ney Carvalho, o oba-oba na bolsa do
Rio era tão grande que alimentava a expectativa de lucro fácil no curtíssimo
prazo. A mera perspectiva de estreia de um papel despertava uma corrida para as
compras, dada a valorização astronômica naqueles anos.
Conta Carvalho que certo dia um operador
apareceu no pregão oferecendo a venda de um lote de ações de uma nova empresa,
de nome Merposa. A novidade logo gerou interesse e o mercado comprou todo o
estoque de papéis ofertado. Fechado o mercado, o corretor revelou a pegadinha.
Não havia empresa nenhuma registrada na bolsa com aquela denominação. Merposa,
na verdade, era uma sigla para Merda em Pó S/A - e o episódio serve para
ilustrar bem como todo aquele boom tinha pouco substrato na realidade.
Algo muito mais grave aconteceu na bolsa de
São Paulo. Conta Roberto Teixeira da Costa que, no final dos anos 1960, o
químico Nagib Audi, fundador de uma fábrica de diluentes para limpeza pesada,
criou um conglomerado financeiro envolvendo banco, corretora, financeira,
distribuidora de valores e uma rede distribuidora de derivados de petróleo e de
bens de consumo com lojas espalhadas por todo o Brasil.
O grupo Audi tinha ações negociadas na
Bovespa. Aproveitando-se de brechas na legislação e informações opacas sobre o
desempenho financeiro das empresas integrantes do grupo, Audi levou adiante um
esquema de sustentação artificial do preço das suas ações. A manipulação atraiu
milhares de investidores, a ponto de o grupo Audi figurar entre os papéis mais
transacionados na bolsa. Enquanto isso, o empresário ampliava seu contato com o
governo em busca de incentivos fiscais e exibia gostos exóticos, como a maior
criação de cavalos árabes puro sangue. A fraude só foi descoberta quando
integrantes do próprio mercado exigiram do Banco Central a publicação dos
balanços das empresas e um prejuízo vultoso foi revelado.
O estouro da bolha nas bolsas em 1971 gerou
uma perda de credibilidade que levou décadas para ser recuperada no mercado de
capitais brasileiro. Para tanto, foram fundamentais a aprovação da Lei das
Sociedades Anônimas e a criação da Comissão de Valores Mobiliários, da qual
Roberto Teixeira da Costa foi o primeiro presidente.
No ano do cinquentenário das duas
instituições, o escândalo do Banco Master e da Reag coloca novamente em xeque a
confiança no mercado.
Corrigindo uma injustiça da minha coluna de
19/01, a repórter Amanda Rossi, do Uol, foi a primeira a demonstrar, com farta
documentação, como dezenas de fundos da Reag investiam em duas empresas ligadas
ao pai de Daniel Vorcaro que diziam possuir dezenas de bilhões de reais em
créditos de carbono. Era tudo merda em pó.
Desde então, a cada dia temos lido novas
reportagens nos principais veículos da imprensa revelando como títulos podres,
imóveis com preços artificialmente inflados, recebíveis de empresas de fachada
e ações de empresas em vias de quebrar, entre outras mutretas, alimentavam os
fundos e negócios do grupo de Vorcaro. Isso abre duas frentes de investigações
que expõem o potencial de estrago do caso Master.
Numa direção, o mergulho nos negócios de cada
fundo ligado ao banco pode expor as suas conexões com o mundo político. Outra
matéria de Rossi (com Natália Portinari) identificou que uma das empresas de
Vorcaro investiu R$ 67,5 milhões num projeto eólico do ex-ministro de Bolsonaro
Fábio Faria. Outras tenebrosas transações com políticos são esperadas, basta
seguir o dinheiro.
Mas há também o temor de que as práticas
fraudulentas não sejam casos isolados. A se confirmar a frouxidão da
fiscalização da CVM nos fundos, quem garante que outros bancos e gestoras de
recursos não tenham seus balanços artificialmente inflados?
A exuberância do mercado de capitais
brasileiro, para ser sustentável, exige delimitar claramente se o Master e a
Reag eram tumores que foram extirpados ou apenas os primeiros focos de uma
metástase.

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