segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Agenda para o Brasil real. Por Preto Zezé

O Globo

O país tem gente qualificada, experiências testadas e instituições capazes de induzir desenvolvimento

O Brasil não sofre por falta de ideias nem por ausência de experiências bem-sucedidas. O problema é a dificuldade de transformar o que já funciona em agenda pública estruturada, contínua e com visão de Estado. Falta conexão — entre políticas, territórios, quem faz e quem decide — e sobra dependência de ciclos políticos curtos.

Nas últimas semanas, dialoguei com instituições e territórios que ajudam a compreender esse impasse. Mais que registrar boas práticas, esses encontros buscam renovar o repertório da agenda pública. Nosso papel é levar elementos concretos para provocar novas leituras e construir práticas mais eficientes, capazes de gerar impacto real.

Faço esse diálogo sem veto ideológico. Não converso com gestores a partir de bandeiras eleitorais, mas como quadros eleitos que administram recursos públicos. Gestores são transitórios; a agenda precisa ser permanente.

No Banco do Nordeste, em conversa com seu presidente, Wagner Antônio de Alencar Rocha, tratamos de economia criativa, inovação e governança local a partir de um ativo central: o maior programa de crédito popular do país. O Crediamigo acumulou uma inteligência territorial rara no sistema financeiro brasileiro. Com o Crediamigo Comunidades, o território passa a ser unidade estratégica. O desafio é articular crédito, inovação, cultura e desenvolvimento no mesmo lugar, ampliando resultados.

Na Sudene, com Francisco Ferreira Alexandre e Heitor Freire, a conversa abordou o papel do Nordeste num cenário global em transformação. O acordo entre União Europeia e Mercosul reposiciona ativos estratégicos da região. O Brasil concentra cerca de 40% da infraestrutura de data centers da América Latina, com destaque para o Ceará. Nesse contexto, favelas e comunidades urbanas precisam ser incluídas nas políticas que articulam formação, energia, conectividade e desenvolvimento urbano.

Em São Paulo, com o secretário municipal de Cultura José Antônio Silva Parente, o Totó Parente, reforçamos a cultura como vetor econômico, não como discurso, mas como prática. Em pouco mais de um ano, os programas em andamento mostram como a cultura pode organizar territórios e gerar renda.

Em Maricá (RJ), sob a liderança do prefeito Washington Luiz Cardoso Siqueira, o Quaquá, encontrei uma experiência singular: a única secretaria especial dedicada à Promoção das Comunidades, hoje conduzida por Brunna Tavares. Fica claro que o desafio não é testar ideias, mas sustentá-las ao longo do tempo. Política pública não pode ser só projeto de governo.

Esse percurso revela algo simples: o Brasil já tem gente qualificada, experiências testadas e instituições capazes de induzir desenvolvimento. O que falta é conexão, escala e continuidade. Não é preciso começar do zero, mas articular melhor o que já existe.

Por trás das instituições há pessoas que tomam decisões e sustentam políticas no dia a dia. Reconhecer lideranças não é personalizar a política, mas admitir que nenhuma agenda pública se sustenta sem gente preparada e capaz de executar. O Brasil real já produz respostas; o desafio é transformá-las em agenda pública de Estado.

 

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