O Globo
Hoje, 2 de fevereiro, é dia de festa no mar,
mas no coração da mata alguma coisa acontece
Antes da música da Marina, sabia-se que vinha
chegando o verão não porque as moças estavam todas de bundinha de fora, como
anuncia a letra de Renato Rocketh, mas porque das árvores ao redor de cada
bairro do Rio vinha o canto veemente da natureza tropical. “Zinem as cigarras”,
registrou o poeta Manoel Bandeira nos versos de “Elegia de verão”, em 1952.
Hoje, dia 2 de fevereiro, dia de festa no
mar, das árvores vem apenas o silêncio ensurdecedor de que alguma coisa
acontece no coração da mata, e desta vez não tem poesia. O verão já embica para
a metade, graças a Deus as moças já estão nas praias exatamente como a música
previra – mas e as cigarras? Você ouviu alguma zinindo neste verão 2026?
O canto das cigarras, num tempo em que o serviço de meteorologia não tinha tantos computadores, era um indicador urbano confiável de que “amanhã vai dar praia”. O zinir delas no fim da tarde cortava o espaço, fundia-se à “Ave Maria” do Júlio Louzada, às 18 horas na Rádio Tupi, e enchia os corações de uma melancolia preguiçosa, bonita que só vendo.
Numa playlist de sons benignos da natureza
carioca, eu botaria o das maritacas cruzando o Jardim Botânico, o do vento no
pilotis do Capanema, o “festa na favela” cantado pela torcida do Flamengo, o
bater solitário do surdo de primeira da Mangueira, o “deixa solto, doutor” do
flanelinha, o “aaaaaaabacaxi” do vendedor de praia e o zino das cigarras. Por
mais desaparecido que esteja, ainda ecoa nos tímpanos, trazido da infância.
Não me interessam aqui as cigarras das
fábulas morais de Esopo ou La Fontaine, símbolos da frivolidade, da
imprevidência, sempre cantando enquanto a formiga labuta esforçada pela
sobrevivência de seu condado subterrâneo. Falo das que conheci e de que sinto
falta.
O Rio tem, ou ainda deve ter, escondidos no
meio de alguma mata que circunda a aldeia, quatro tipos delas, entre os dois
mil catalogados pelos zoólogos. Formam a fauna carioca a que todos pertencemos,
junto com os biguás de São Conrado, as cotias do Campo de Santana, as capivaras
da Lagoa e os cisnes do Itamaraty.
Com as cigarras desaparecem as praças
repletas da casquinha-esqueleto que elas deixavam para trás depois de alçar voo
em busca de acasalamento. Gosto da história de que elas morrem depois de
estourar os timbais de tanto cantar. Seria a mais bonita das causas mortis –
mas, que pena, é lenda urbana, zoologicamente fake.
“Quem será esta cigarra que me acorda todos
os dias neste verão do diabo – quero dizer, de todos os diabos, que eu nunca vi
outro que me matasse tanto?”, escreveu Machado de Assis numa crônica de janeiro
de 1894 na Gazeta de Notícias.
O “bruxo” certamente se referia àquelas
agarradas às árvores da hoje Praça São Judas Tadeu, vizinha à casa onde morava,
no Cosme Velho – e, desculpem, leitores, se esse parágrafo soar um tanto
melancólico como o canto de nossas musas. Já não se acorda mais com aquela
melodia, o calor do planeta superaquecido não mata apenas metaforicamente e,
como se pode avaliar por essas maltraçadas que ora chegam ao fim, faltam aos
jornais da cidade cronistas com o fino zino do mestre Machado.

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