domingo, 15 de fevereiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Fim demagógico da escala 6x1 terá preço alto

Por O Globo

Custo da hora trabalhada subiria entre 8% e 18%. Desemprego e informalidade cresceriam

De olho nos dividendos eleitorais, governo e Congresso apostam na redução da jornada de trabalho. A ideia é acabar com a escala de seis dias de trabalho por um de descanso, ou 6x1. Na última segunda-feira, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), encaminhou à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) duas Propostas de Emenda à Constituição. As duas reduzem as horas de trabalho mantendo intocado o salário. Basta matemática elementar para entender que isso significará menos produtividade, portanto menos geração de riqueza na economia.

A proposta da deputada Erika Hilton (PSOL-SP) reduz a jornada das atuais 44 para 36 horas semanais e estabelece uma escala de trabalho máxima de quatro dias por semana. A do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG) defende cinco dias de trabalho com dois de descanso, com jornada semanal de 36 horas (em entrevistas, ele passou a defender o limite de 40 horas). No Senado, uma PEC nos mesmos moldes, do senador Paulo Paim (PT-RS), foi aprovada na CCJ em dezembro.

No dia seguinte à decisão de Motta, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) publicou uma nota técnica com estimativas sobre os efeitos das medidas. Logo na introdução, os autores reconhecem não haver “dados que permitam identificar as escalas de trabalho mais praticadas entre os diferentes setores e, portanto, estimar com maior precisão o impacto”. Também destacam lacunas das análises e defendem “mais estudos empíricos”.

Com base em dados disponíveis para o mercado de trabalho, eles tentam determinar quantas empresas seriam afetadas (grande parte já adota uma escala de 40 horas) e estimam o inevitável aumento no custo da hora trabalhada. Haveria alta de 17,57% na semana de 36 horas e de 7,84% na de 40 horas. Eles argumentam que o país já enfrentou choques parecidos no custo do trabalho, como os provocados por aumentos no salário mínimo. “Os empresários podem reagir de diversas formas”, diz Felipe Pateo, técnico do Ipea. “Reduzir a produção é uma delas, mas podem também buscar aumentos na produtividade ou contratar mais trabalhadores para suprir a carga horária.”

Trata-se de uma visão idealista sobre como funciona o universo corporativo. Os próprios dados da pesquisa mostram que a questão não é tão simples. A capacidade de absorção de cada setor varia, mas, quanto mais o custo do trabalho representa nas despesas, mais difícil a adaptação. O maior impacto recairia sobre as atividades intensivas em mão de obra. Mesmo em casos menos traumáticos — com redução para 40 horas —, o custo da hora trabalhada subiria quase 10% em setores como automotivo, moveleiro, vestuário, têxteis, alimentos, varejo e diversos outros. Nas empresas com até quatro funcionários, a previsão é ainda mais dramática. São números que tornariam inviáveis diversos negócios.

A economia brasileira pagaria um preço alto. Não dá para nutrir ilusões. Haveria ondas de demissão, queda na produção e maior informalidade. Não há fantasia ideológica capaz de esconder essa realidade. Reduzir a jornada por lei é uma medida que atua contra a geração de riqueza e de oportunidades de trabalho. O mais eficaz seria tratar de aumentar a produtividade, por meio de um ambiente de negócios acolhedor e de regras trabalhistas flexíveis. Era nisso que o governo e o Congresso deveriam concentrar seus esforços.

Brasil deveria aceitar convite para integrar coalizão de terras-raras

Por O Globo

Governo Trump quer criar contrapeso ao domínio chinês, e país pode obter vantagens

Faz sentido o Brasil aceitar o convite do governo Donald Trump para participar de uma coalizão internacional destinada a coordenar a exploração e o uso dos minerais estratégicos na transição energética e na indústria militar, em particular o conjunto de 17 elementos químicos conhecidos como terras-raras. Fragilizados diante da China, detentora das maiores jazidas e controladora de refino e processamento, os americanos querem quebrar o monopólio. O Brasil, dono da segunda maior reserva mundial de terras-raras, desponta como candidato natural a cumprir o papel de contrapeso ao poderio chinês no fornecimento desses elementos, essenciais à nova dinâmica industrial e militar do século XXI.

A fragilidade americana diante da China ficou patente quando Trump deflagrou seu tarifaço, e Pequim ameaçou restringir as exportações de terras-raras. Forçados a buscar fontes alternativas, os Estados Unidos começaram a trabalhar na coalizão internacional e num programa para constituir uma reserva estratégica de minerais, o Projeto Caixa-Forte. Ele nasceu com orçamento de US$ 12 bilhões, entre recursos públicos e privados. “Os Estados Unidos consideram o Brasil um parceiro essencial em minerais críticos, tanto pelas imensas e ricas reservas naturais quanto pela sofisticação e diversificação de sua economia, que lhe permitem realizar o processamento no próprio Brasil e ajudar os EUA a diversificar os mercados”, disse o secretário de Estado adjunto Caleb Orr.

O acordo proposto ao Brasil inclui regras para assegurar preços internacionais que estimulem a exploração mineral. De acordo com o secretário de Interior, Doug Burgum, esse grupo de países garantirá um preço mínimo para impedir que “alguém dominante possa inundar o mercado com um determinado produto, o que pode destruir o valor de uma empresa e da produção de um país”. Só a China hoje tem este poder. Com 1,9 milhão de toneladas de reservas, os Estados Unidos estão muito distantes das 44 milhões chinesas e das 21 milhões brasileiras.

Uma vantagem do Brasil é que ainda há muito a prospectar. A exploração em larga escala desses minerais começou só em 2024, em Minaçu (GO), pela Serra Verde Pesquisa e Mineração, controlada por capitais americano e britânico (o governo Trump anunciou investimento de R$ 3 bilhões na Serra Verde). Outra área com produção prevista para 2027/2028, também em Goiás, está a cargo da Aclara Resources, que conta com capital de Peru, Chile e Reino Unido. A australiana Meteoric Resources faz estudo de viabilidade em Minas Gerais, com chance de operar antes de 2030. Em Araxá, no interior de Minas, a St. George Mining, também australiana, promove pesquisas. O mesmo acontece na Bahia com a Brazilian Rare Earths, controlada por dois grupos da Austrália, tendo como acionista minoritário um brasileiro.

O Brasil reúne todas as condições de se consolidar como polo de exploração mineral em terras-raras. É mais uma chance de atrair capital. E também tecnologia, para que o país não se limite a ser fornecedor de matéria-prima.

Supersalários indefensáveis

Por Folha de S. Paulo

Representantes de juízes, promotores e defensores recorrem da decisão de Dino que barrou penduricalhos

Membros das corporações são beneficiários de apropriação indevida de recursos escassos; Congresso precisa reiterar o teto constitucional

Como seria de esperar, representantes de magistrados, promotores, defensores públicos e membros de tribunais de contas assumiram a missão inglória de recorrer da decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, que suspendeu o pagamento dos chamados penduricalhos no âmbito dos três Poderes da República.

Dito de outra forma e sem subterfúgios, eles foram à corte defender um privilégio inaceitável: a manutenção dos supersalários que, contrariando os ditames da Constituição, têm sido pagos a integrantes dessas carreiras.

Trata-se de manobra há muito praticada e vergonhosamente aceita. A fim de garantir contracheques acima do teto constitucional (o máximo permitido ao funcionalismo, hoje de R$ 46.366,19), a corporação inventa uma verba extra e a define como indenizatória, não remuneratória.

Com essa prestidigitação linguística, apresenta-se como extraordinário um pagamento que, na verdade, é reiterado. Os tribunais, por sua vez, ao julgar a legalidade dessas rubricas, fingem que acreditam no truque de mágica e carimbam o dispêndio.

Não se constrangem de validar benefícios disfarçados de gratificação por acúmulo de processos, férias e funções; nem de legitimar a redundância salarial contida no auxílio-locomoção, no auxílio-combustível e no auxílio-educação; tampouco de corroborar o escárnio do auxílio-peru e do auxílio-panetone.

Para os membros das corporações ligadas ao sistema judicial, contudo, tudo se passa como se eles fossem alvo de injustiça, e não beneficiários de uma apropriação indevida de recursos escassos dos cofres públicos.

Na retórica barroca e burocrática de que costumam lançar mão, a regalia incompatível com as carências do Brasil, por exemplo, se disfarça de direito, e a artimanha criada para burlar a Constituição se transforma em autorização exarada por órgão competente.

Nada mais exemplar nesse sentido do que as palavras do desembargador Francisco Loureiro, presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo. Para ele, a ordem de Dino pode "comprometer irremediavelmente a administração da Justiça, produzir efeitos financeiros irreversíveis e criar insegurança jurídica sistêmica".

É uma inversão completa da realidade. Se existem efeitos financeiros, eles estão nos cerca de R$ 20 bilhões por ano gastos com vencimentos acima do teto; se há comprometimento da Justiça, ele se dá pela existência de uma casta que se considera merecedora de tratamento especial.

A decisão de Dino não resolve o problema. Ela lança luz sobre o desmando institucional tal como praticado hoje em dia e interrompe uma parte da farra salarial, mas, ao fazê-lo, abre brechas para que novas verbas indenizatórias sejam criadas por leis.

Uma solução definitiva existirá apenas quando o Congresso Nacional reiterar, sem ambiguidades, os limites impostos pela Constituição Federal.

Agruras cívico-militares

Por Folha de S. Paulo

Justiça suspende regras do programa implantado por governo Tarcísio porque podem suscitar descriminação

Problema se soma ao custo da contratação de PMs e à falta de eficácia na melhoria da aprendizagem, num estado com nota modesta no Ideb

O ano letivo começou em São Paulo neste mês com cem escolas do estado adotando o modelo cívico-militar, concessão do governo Tarcísio de Freitas (Republicanos) ao obscurantismo bolsonarista.

Custoso e carente de sustentação técnica, o programa também pode infringir direitos dos alunos. Na quinta (12), a Justiça paulista determinou a suspensão de algumas das regras do modelo sobre cortes de cabelo, acessórios e uniformes, devido ao risco de serem discriminatórias.

Pela liminar, policiais militares podem permanecer nas escolas, desde que se restrinjam a apoiar a segurança escolar e promover o respeito e a cultura de paz.

Nas escolas cívico-militares, os alunos não podem usar cabelos raspados, com desenhos ou pinturas coloridas, topetes e cortes no estilo moicano, nem bigode, barba ou cavanhaque; já os cabelos das alunas devem estar presos e sem nenhum tipo de adereço.

Segundo a magistrada, tais regras são capazes de impedir, indiretamente, manifestações ligadas à estética corporal da cultura afro-brasileira e de outros grupos, como a comunidade LGBT.

No Paraná, governado por Ratinho Júnior (PSD), a Justiça também limitou restrições similares do modelo cívico-militar local, ao atender uma ação movida pela família de um estudante negro.

Além das regras controversas, o programa gera custos extras. Apenas com o pagamento de PMS, o governo paulista estima gastar R$ 7,2 milhões, ou R$ 301,70 a cada jornada diária de 8 horas, com máximo de 40 horas semanais —dinheiro que não resulta em melhora do ensino.

Sabe-se que, em geral, o bom desempenho das instituições que seguem esse modelo se deve a rígidos processo de seleção do alunado e ao acesso a maiores volumes de verbas públicas.

O desenho do programa também apresenta distorções.

Em 2024, a gestão Tarcísio indicou que a iniciativa seria implantada em escolas com baixos resultados no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica e em regiões de vulnerabilidade social. Contudo, como revelou a Folha, das 100 escolas selecionadas, só 22 não haviam alcançado a média do Ideb e, em 90 delas, o padrão socioeconômico dos estudantes era médio-alto.

Com nota 4,2 do Ideb no ensino médio, abaixo de Pará (4,3), Ceará (4,4) e Pernambuco (4,5), São Paulo não pode se dar ao luxo de insistir num modelo educacional baseado em ideologia que em nada contribui para alavancara a aprendizagem. O estado deveria dar prioridade a experiências bem-sucedidas.

Sinais vitais da democracia nos EUA

Por O Estado de S. Paulo

Rebelião de republicanos no Congresso contra Trump, embora provavelmente efêmera, mostra que os anticorpos da democracia estão agindo para conter a doença autoritária do trumpismo

A recente votação da Câmara dos Deputados dos EUA que derrubou o decreto emergencial que justificou as tarifas impostas pelo presidente Donald Trump sobre o Canadá marcou um momento raro – e quem sabe inaugural – de contenção institucional ao ciclo autoritário em curso nos país.

Seis republicanos juntaram-se aos democratas para desafiar o presidente, em nome de um princípio que já parecia apagado: a cláusula constitucional que confere ao Congresso, e não à Casa Branca, o poder de tributar e regular o comércio.

O gesto foi simbólico, de pouco efeito prático, mas nem por isso passou despercebido. Tipicamente, Trump tentou barrar a votação, ameaçou dissidentes e insinuou retaliações internas. Dois dos rebelados não buscam reeleição. Um terceiro já enfrenta um adversário trumpista na primária. E outro está virtualmente liquidado pela nova engenharia distrital do Estado da Califórnia. Ainda assim, o sinal foi dado: por trás da fachada de obediência cega, nem todos os republicanos aceitaram abdicar de sua condição de legisladores.

O episódio ilustra o mecanismo que sustenta o projeto de poder de Trump: o governo por exceção. Tudo começa com a decretação de uma “emergência” – comercial, migratória, sanitária, energética, fiscal ou até geopolítica – que aciona dispositivos jurídicos como a Ieepa (lei de poderes econômicos emergenciais, de 1977). A partir daí, o Executivo se move por decreto, desobriga-se da autorização do Congresso e testa os limites da lei até ser barrado por algum tribunal. Quando isso ocorre, Trump recua, muda de foco ou desafia a decisão. Se não é impedido, avança.

O trumpismo tem método e teoria. O método é solapar o processo político e forçar os freios jurídicos. A teoria é a do Poder Executivo ilimitado – uma leitura radical segundo a qual tudo o que o presidente faz é legal por definição, em razão de seu mandato popular. Esse instrumental sustenta um projeto de poder que atropela normas, subjuga instituições e persegue adversários como “inimigos internos”.

O modelo não exige a suspensão das instituições, mas sua subordinação funcional. É o que alguns juristas chamam de “Estado dual”: de um lado, o aparato normativo ainda em funcionamento; de outro, o aparelho discricionário que o dribla ou o redefine. A Constituição segue em vigor – só que reinterpretada a serviço de um projeto personalista, autoritário e hostil a controles externos.

A degradação institucional é real. Mas não é total. Ao contrário de regimes como o de Viktor Orbán na Hungria – modelo confesso de certos ideólogos Maga –, os EUA ainda operam como uma federação de centros de poder concorrentes. A Suprema Corte tem hesitado, mas não se curvou. Governadores resistem. Mercados punem as barbeiragens do governo. A opinião pública está irritada, e os índices de rejeição já ameaçam projetos e nomeações. O Congresso majoritariamente republicano pode ser cúmplice, mas é uma arena sensível ao termômetro popular, e neste ano será renovado.

A revolução trumpista não depende de tanques nas ruas. Avança por decretos, por nomeações, por casuísmos, por inércia e por intimidação. Avança pela erosão. Mas também pode ser contida – por votos, por sentenças, por pressão política e por dissidências internas. O próprio Trump já recuou diante de resistências judiciais, eleitorais ou federativas.

A pequena rebelião na Câmara não desfaz o dano causado – às instituições, aos aliados, à autoridade moral dos EUA no mundo. Mas sinaliza que ainda há parlamentares dispostos a exercer o papel que a Constituição lhes atribui. É cedo para falar em reversão. O veto de Trump será inevitável. Mas não é o fim da história. É apenas mais um capítulo da luta entre um Executivo hipertrofiado e uma república que resiste a se dobrar.

Ao fim, este pode ser o paradoxo do trumpismo: ao tentar concentrar todos os poderes em si mesmo, Trump desperta as forças que o sistema desenhou para impedir que qualquer um governe sozinho. A democracia americana ainda tem anticorpos. Mas é preciso ativá-los.

A inércia ante a urgência climática

Por O Estado de S. Paulo

Ao reconhecer que a COP-30 ficou aquém do esperado, seu presidente expõe os limites do multilateralismo climático e a premência de reformá-lo para entregar resultados

O presidente da COP-30, embaixador André Corrêa do Lago, divulgou uma nova carta à comunidade internacional em que propõe uma reflexão crítica sobre os limites do atual modelo de governança climática global. O documento, publicado poucos meses após a realização da conferência em Belém – cujos resultados, como o próprio autor reconhece, ficaram “aquém do esperado” –, parte de um diagnóstico incômodo: embora indispensável, o multilateralismo climático, tal como hoje estruturado, mostra-se insuficiente para responder à urgência imposta pela crise climática.

A carta reconhece que as COPs continuam sendo o principal espaço de coordenação internacional da agenda ambiental, mas sustenta que seu funcionamento precisa evoluir. O consenso, afirma, permanece indispensável para garantir “legitimidade, universalidade, clareza jurídica e direção coletiva”. Ao mesmo tempo, defende a criação de mecanismos capazes de acelerar a implementação, sublinhando que uma “segunda velocidade” institucional deve permitir que países e coalizões dispostos a avançar implementem soluções concretas, mobilizem recursos e produzam resultados mensuráveis.

A reflexão ganha relevância justamente por vir de quem presidiu uma COP marcada, como tantas outras, pela distância persistente entre a grandiloquência dos discursos e a modéstia dos resultados práticos. Como este jornal já observou, as COPs tornaram-se grandes fóruns diplomáticos, indispensáveis para manter o tema climático no centro da agenda global, mas estruturalmente limitados por uma liturgia que privilegia o consenso formal – mesmo quando isso resulta em acordos diluídos, compromissos vagos e cronogramas sistematicamente adiados.

A experiência recente reforça esse diagnóstico. A COP-30 não expôs exatamente o fracasso do multilateralismo, mas revelou com nitidez as profundas assimetrias entre os países envolvidos. Economias fortemente dependentes de combustíveis fósseis resistiram a compromissos mais ambiciosos; países em desenvolvimento reiteraram demandas por financiamento e justiça climática; e nações ricas renovaram promessas antigas, muitas vezes sem mecanismos claros de execução. O resultado foi um conjunto de decisões que preservou o consenso político, mas deixou em aberto a questão central: como transformar compromissos diplomáticos em ação concreta e célere?

É nesse ponto que emerge o dilema central da governança climática. Como imprimir velocidade às decisões climáticas? O mundo ainda não sabe responder a essa pergunta. Ao mesmo tempo, não se pode permitir ficar refém de dois extremos igualmente problemáticos. De um lado, a impaciência radical de setores ambientalistas que defendem rupturas imediatas, frequentemente alheias a custos econômicos, sociais e geopolíticos. De outro, a lentidão conveniente de países e setores que utilizam essas mesmas restrições como justificativa permanente para postergar decisões e preservar modelos energéticos já reconhecidamente insustentáveis.

Entre esses polos, consolidou-se uma paralisia perigosa. A ciência avança mais rápido do que a política, e as janelas de oportunidade se fecham enquanto o multilateralismo permanece preso a um ritmo que favorece a procrastinação organizada. Persistir nesse modelo, como se a simples repetição anual das COPs fosse suficiente para produzir resultados diferentes, equivale a aceitar a inércia sob verniz institucional.

Defender o multilateralismo, portanto, não é defendê-lo como está. É reconhecer que sua legitimidade depende, cada vez mais, de sua capacidade de entregar resultados. Reformá-lo é condição para preservá-lo. Arranjos plurilaterais, compromissos diferenciados, acordos setoriais e coalizões de implementação – todos já presentes, ainda que de forma dispersa – precisam deixar de ser exceção e assumir papel central na governança climática.

Embora adornada pela polidez diplomática ao elogiar um modelo que claramente tem seus limites, a carta de André Corrêa do Lago aponta na direção correta ao admitir que a crise climática já não cabe nos rituais tradicionais. O desafio agora é transformar esse diagnóstico em mudança efetiva. O multilateralismo continua sendo o único caminho possível, mas, sem adaptação e velocidade, corre o risco de se tornar irrelevante diante de uma emergência que não negocia.

A saúde mental do trabalhador

Por O Estado de S. Paulo

Cresce o número de licenças dadas pelo INSS por ansiedade e depressão, o que exige acolhimento

A ansiedade e a depressão afastam cada vez mais brasileiros de seus postos de trabalho, num sinal preocupante de como a saúde mental começa a mudar o perfil das doenças laborais no País. Segundo um levantamento feito pela Associação Nacional de Medicina do Trabalho (Anamt) com base em dados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), o número de trabalhadores afastados em decorrência de transtornos mentais passou de 219,8 mil, em 2023, para 393,6 mil, até novembro de 2025, os últimos dados disponíveis. Significa dizer que a concessão desse tipo de benefício previdenciário cresceu nada menos do que 80% em apenas dois anos.

Trata-se de um exército de empregados formais que deixou de trabalhar por, no mínimo, 15 dias. Não entram nessa conta aqueles trabalhadores que ficaram afastados por um período menor de tempo ou que trabalharam na informalidade, sugerindo uma potencial subnotificação dos casos, o que leva a crer que esse recente problema é muito maior do que os números oficiais conseguem dimensionar.

Alguns fatores ajudam a entender esse fenômeno, a começar pelas mudanças no ambiente de trabalho após a pandemia de covid-19. Segundo especialistas ouvidos pelo Estadão, a demarcação da fronteira entre o trabalho e a vida ficou mais opaca, ao passo que as ferramentas tecnológicas, como a inteligência artificial, aumentaram as incertezas e o medo. Tudo isso intensifica a sensação de insegurança e o sofrimento psíquico dos trabalhadores. Não à toa, os transtornos depressivos e ansiosos respondem por nada menos do que 86% dos afastamentos. E, dentre os que sofrem, as mulheres são as mais afetadas, respondendo por 68% do total das licenças, enquanto no recorte por idade a maior parte dos doentes tem entre 40 e 49 anos.

Tanta angústia, que atravessa as classes sociais, atinge as mulheres e os homens e adoece trabalhadores de todas as faixas etárias, aumenta os gastos públicos com os benefícios previdenciários e diminui a força de trabalho na economia, o que, por óbvio, impacta a produtividade das empresas e do País. Por tudo isso, é dever dos empregadores promover a prevenção, para que mais trabalhadores não venham a sofrer; ofertar o acolhimento, para que aqueles que estão doentes não sejam alvo do preconceito de colegas, superiores, parentes e da sociedade em geral; e ainda garantir o tratamento para que aqueles que já sofrem encontrem a cura para sua dor.

Transtornos mentais não podem ser tratados dentro de uma corporação como sinais de incúria, apatia ou fraqueza, mas como enfermidades que demandam compreensão das chefias e dos empregadores. Ou seja, os estigmas devem ser combatidos. E, não menos importante, a saúde mental precisa ganhar a atenção da saúde coletiva e da medicina do trabalho, de tal modo que ações sejam implementadas, com a criação de espaços de promoção da saúde integral, além de canais de escuta. Encontrar amparo no ambiente de trabalho e se sentir psicologicamente seguro é um direito do empregado, e não um favor do empregador.

Protegendo os inocentes

Por Correio Braziliense

O poder público tem o dever de combater firmemente, por meio da legislação e da ação policial, indivíduos e grupos criminosos que agem no submundo digital

Na última semana, o governo federal lançou uma série de recomendações a respeito do cuidado com a intimidade e a privacidade de crianças e adolescentes neste período de carnaval. Em mensagem dirigida aos pais e responsáveis, a campanha dá especial atenção a um problema crônico no ambiente digital: os crimes sexuais. Orienta as famílias a evitarem a postagem de fotos de filhos, sobrinhos, netos e amigos menores de idade nas redes sociais. Isso porque essas imagens, divulgadas em público, atraem predadores sexuais. Eles capturam esses registros para criarem perfis falsos na internet e atraírem outras crianças, a fim de cometer sua perversão criminosa.

Há motivos para o alerta. Segundo relatório recente divulgado pela organização não governamental Safernet, a Central Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos, mantida pela entidade, registrou 87.689 queixas no ano passado. Trata-se de um aumento de 28% em relação a 2024. A larga maioria dos casos está ligada ao abuso e à exploração sexual infantil, em um total de 63.214 notificações. Apesar de todos os apelos e iniciativas, criminosos continuam a agir no ambiente digital, resultado de uma permissividade do poder público e da sociedade, que deixam uma geração inteira vulnerável à depravação de pedófilos e abusadores.

Para enfrentar esse grave problema de dimensões globais, iniciativas protetivas da infância e da adolescência ganham corpo mundo afora. Em Portugal, avança no Parlamento um projeto de lei que determina aos pais autorização expressa para menores entre 13 e 16 anos frequentarem redes sociais. A intenção é preservar os jovens de cyberbullying, conteúdos nocivos e predadores sexuais. Medidas semelhantes estão mais adiantadas na França e na Austrália, que buscam construir uma legislação que proteja a quem é alvo de toda sorte de violência. 

De forma lenta e gradual, os gigantes da tecnologia anunciam medidas para impedir a ocorrência de crimes. Mas trata-se de ações pontuais para um quadro urgente e grave. O deficit de credibilidade das big techs é tão grande que serão necessários anos para a opinião pública se convencer de que os magnatas digitais darão mais atenção à integridade física e mental de crianças em detrimento aos seus lucros multimilionários. Sob o suposto manto da liberdade de expressão defendida pelos donos das plataformas, escondem-se indivíduos e grupos cujo interesse é manter uma indústria criminosa e satisfazer os mais odiosos instintos. 

No Brasil, o Supremo Tribunal Federal determinou uma medida de efeito parcial, ao determinar, em junho do ano passado, que plataformas digitais são responsáveis pelo que é publicado por seus usuários e devem retirar conteúdos ofensivos ou ilegais mesmo sem decisão judicial. A decisão é salutar, mas insuficiente para garantir proteção aos mais vulneráveis na internet. O poder público tem o dever de combater firmemente, por meio da legislação e da ação policial, indivíduos e grupos criminosos que agem no submundo digital. À sociedade, é fundamental vigiar a agir em favor dos inocentes.

Alegria com segurança no Carnaval

Por O Povo (CE)

A cidade de Fortaleza já se veste da alegria do Carnaval há alguns fins de semana. Desde o início do ano, uma série de programação dá as boas-vindas ao período oficialmente aberto nestes dias, como um prenúncio da festa que ora se instala. É interessante observar que há muitas festas privadas para quem deseja participar, mas há inúmeras festas públicas com o intuito de reunir o maior número de pessoas possível. Até a próxima terça-feira, a Capital e o Interior estão cheios delas.

As atividades ocorrerão em oito polos, incluindo Teatro São José, Aterrinho da Praia de Iracema, Benfica e Avenida Domingos Olímpio. Neste ano, a festa integra as comemorações pelos 300 anos da capital Fortaleza e homenageia o Mestre Macaúba do Bandolim.

Além disso, há os blocos de rua independentes, cujos membros se reúnem para manter a tradição dos festejos, contribuindo para ampliar as opções de quem gosta de se divertir nestes dias, seja em qual ritmo for.

É importante, também e sobretudo, que a alegria seja aproveitada com segurança. Além dos cuidados pessoais que cada um tem de ter, sabendo que todos são responsáveis pelo bem-estar público, as forças de segurança precisam se ocupar de fazer com que esse clima seja mantido, e não haja brechas para a violência. Quando se misturam, por exemplo, diversão e álcool, há altas possibilidades de haver problemas que afetam a tranquilidade de quem quer, de fato, aproveitar a festa.

De acordo com a Secretaria da Segurança Pública, 9.380 agentes do Ceará atuarão diariamente na "Operação Carnaval 2026", nos cinco dias, visando ao reforço no policiamento ostensivo e investigativo. A ideia, conforme a Secretaria, é focar nos locais com grande movimentação de foliões, mas também atuar em operações de salvamento, resgate aeromédico ou em ocorrências que necessitem de perícia criminal.

Além dos cearenses que estão aproveitando estes dias, o Estado recebe muitos turistas - seja para a diversão, seja para a visita aos familiares. Por isso, com mais gente no Estado, é preciso uma grande operação também nas rodovias que cortam o Estado.

Há também opções para quem quer dedicar estes dias a uma conexão espiritual, optando por retiros religiosos, de modo a fugir dos eventos carnavalescos e usufruir deste período com mais serenidade.

Vale ressaltar a força cultural da festa, não se esquecendo também de seu caráter econômico, injetando boas quantias na economia cearense, proporcionando mais renda ao setor turístico e alimentando toda uma cadeia de vive dos serviços e do turismo.

Desse modo, o importante é que cada um aproveite da forma que achar mais interessante ao seu estilo, sempre levando em consideração a segurança individual e coletiva e o bem-estar geral. Bom Carvanal! 

 

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