sábado, 26 de junho de 2021

Demétrio Magnoli – Pôr do sol, atrás das grades

Folha de S. Paulo

Na praça do Pôr do Sol, 'restrições sanitárias' revelam sua face, de restrições sociais

No lugar dos tapumes, nasceram cercas. Na icônica praça do Pôr do Sol, zona oeste de São Paulo, as "restrições sanitárias" revelaram sua verdadeira face, de restrições sociais. Lá, a prefeitura paulistana sintetizou sua própria identidade: assim como os comunistas definem-se por meio da foice e do martelo, o poder municipal encontrou seus símbolos nas grades e nos ferrolhos.

Tapumes interditaram a praça, em abril de 2020, "com o intuito de conscientizar e prevenir a população devido à pandemia do novo coronavírus, a fim de evitar aglomerações", segundo nota da Subprefeitura Pinheiros redigida em língua vagamente assemelhada ao português.

As duas reaberturas de parques e praças municipais, em julho de 2020 e em abril passado, não se estenderam à praça do Pôr do Sol. O advento da cerca evidenciou que a saúde pública não passava de álibi: a praça está fechada para evitar a circulação de "gente estranha".

A praça atrai moradores do bairro, mas, também, pessoas da cidade inteira, além de turistas, especialmente no entardecer. O projeto, dos anos 1970, assinado pelas paisagistas Rosa Kliass e Miranda Magnoli, sofreu descaracterizações já na origem, mas conservou-se o conceito básico, de mirante aberto para o vale do rio Pinheiros que faz uso da topografia para estruturar gramados e bancos como arquibancadas de contemplação da paisagem.

O espaço abre-se em todas as direções, com acessos laterais que o conectam às ruas. A nova cerca de galinheiro, com portas aferrolhadas, configura um contraprojeto assentado nas ideias de isolamento e exclusão.

Três meses depois do início da pandemia, os epidemiologistas concluíram que são mínimos os riscos de contágio em espaços abertos. Lá fora, inúmeras cidades reabriram parques e praças, alertando apenas para o perigo de aglomerações excessivas.

Por aqui, no país cujo presidente recusa-se a usar máscara em locais fechados, prefeitos seguiram punindo os cidadãos com o cerceamento de acesso a áreas públicas abertas. Mas, na praça do Pôr do Sol, a prefeitura paulistana foi ainda mais longe, explicitando o cerne de suas políticas urbanas.

A pandemia é um período sombrio de intensificação das desigualdades, da pobreza e do desencanto. Contudo, em meio à angústia dos lockdowns, cidades europeias descobriram a necessidade de reverter a segregação socioespacial, qualificar o transporte coletivo, limitar o tráfego de automóveis, revalorizar as praças e os parques.

São Paulo, como tantas outras metrópoles brasileiras, passou longe das ideias de reinvenção da urbe. Sob a ótica da prefeitura, a cidade deve ser um campo de caça da especulação imobiliária, um espaço de gentrificação e um modelo de exclusão social. Grades e ferrolhos.

O vírus veio a calhar. Já em 2015, atendendo à pressão de um grupo de moradores do entorno, um decreto municipal da gestão Fernando Haddad reclassificou a praça do Pôr do Sol como parque, com o intuito de gradeá-la.

A ideia foi congelada na gestão seguinte graças à oposição de outra parcela dos moradores, que pretendiam conservá-la aberta, montando estrutura de limpeza e fiscalização.

O conveniente pretexto sanitário reativou a sanha exterminista: sob Covas/Nunes, do tapume à cerca, a prefeitura engaja-se num mal disfarçado sanitarismo social.

Parques distinguem-se de praças por um conjunto de equipamentos inexistentes na praça do Pôr do Sol. Mas, sempre no seu idioma peculiar, a prefeitura alega que a praça "contém características de parque", com a intenção de justificar o gradeamento definitivo.

No varejo, a mensagem do alcaide é que a praça forma uma extensão das propriedades dos residentes dos arredores, não um espaço público aberto a todos. No atacado, seu projeto é a expulsão da "gente estranha" que a frequenta para propiciar a valorização imobiliária de um amplo entorno.

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