Valor Econômico
Nunca confrontado, não se sabe se poder de
Arthur Lira é real ou fantasia
Reza a lenda que Arthur governou a
Grã-Bretanha na passagem dos séculos V e VI, após herdar o reinado de seu pai,
Uther Pendragon, o “cabeça de dragão”. Naquela época viviam-se os estertores do
Império Romano, a ilha estava dividida entre diversas tribos e ameaçada por
invasões estrangeiras.
Há muitas histórias envolvendo o rei
Arthur. Protegeu os ingleses de ataques de povos sanguinários e derrotou forças
sobrenaturais, como gigantes, monstros e bruxas, graças à sua coragem e também
a poderes fantásticos.
Ao cumprir a profecia e retirar da pedra a
lendária espada Excalibur, Arthur foi reconhecido como legítimo rei da
Inglaterra e tornou-se imbatível. Famoso por sua sabedoria, o soberano também
contava com os conselhos de Merlin, um misterioso mago que tinha ligações com o
além.
Acompanhado dos Cavaleiros da Távola
Redonda, um grupo de guerreiros que se destacavam pela bravura e pela honra,
Arthur teria conquistado o Santo Graal, cálice sagrado usado por Jesus na Santa
Ceia e que concedia a juventude eterna, a abundância e até mesmo a
imortalidade.
A mística do rei Arthur alimenta inúmeras versões que atravessam os tempos, desde a Idade Média. Nos últimos anos, contudo, uma nova fábula vem sendo escrita na política brasileira: a mística dos superpoderes de um outro Arthur, o novo rei do Congresso Nacional.
Nosso Arthur não é filho de rei, mas seu
pai, Benedito de Lira, lhe ensinou todas as artimanhas da política, dado que é
personagem de uma saga que começa como vereador no pequeno feudo de Junqueiro,
nas Alagoas, e chega até Brasília, onde foi deputado federal e senador.
Como seu homônimo medieval, o Arthur
alagoano nunca perdeu uma batalha nas urnas. Elegeu-se vereador de Maceió em
1992, aos 23 anos, obtendo mais um mandato em 1996. Em 1998, expandiu seus
domínios, tornando-se deputado estadual por três mandatos seguidos. Em 2010
fincou sua bandeira em Brasília, reelegendo-se deputado federal em 2014, 2018 e
2022.
No Congresso Nacional, Arthur teve como
conselheiro e mentor Eduardo Cunha, o mago Merlin das manobras regimentais,
possuidor de habilidades sobrenaturais usadas para prejudicar seus inimigos.
Arthur aprendeu com Cunha que o feitiço às
vezes pode se voltar contra o feiticeiro, e ao contrário de seu tutor, tratou
de se precaver conquistando o respeito e o apoio de seus pares. Conhecido pela
lealdade no cumprimento de acordos, o Arthur alagoano reuniu em torno de si os
cavaleiros do Centrão, chefes de diversas tribos da política brasileira,
dotados de um código de honra bastante peculiar.
Vivendo num período de grande instabilidade,
quando a Lava-Jato havia cortado cabeças coroadas e a República ameaçava ruir
diante das investidas das hordas bolsonaristas, Arthur emergiu, assumiu o
controle e fez do Congresso Nacional o seu inexpugnável castelo de Camelot.
O novo rei Arthur subjugou Bolsonaro
arquivando mais de uma centena de pedidos de impeachment e fez do orçamento
secreto a sua Excalibur, instrumento infalível para aprovar tudo o que
desejasse.
Rei morto, rei posto, Lula ficou
impressionado com os superpoderes de Arthur na aprovação da PEC da Transição.
Antes mesmo de ser empossado, o rei do Congresso lhe ofereceu R$ 165 bilhões
para atender suas promessas imediatas de campanha: manutenção do Bolsa Família,
aumento real do salário-mínimo, recomposição de programas sociais e reajuste de
servidores públicos.
Diz a lenda que, na batalha do Monte Badon,
o Arthur original derrotou 960 inimigos saxões sozinho, sem a ajuda de ninguém.
Ao iniciar o seu terceiro mandato, Lula deve ter pensado na força que o Arthur
alagoano não teria para obter os 308 votos para aprovar uma PEC.
Ao decidir se aliar ao rei Arthur do
Congresso Nacional, Lula sonha com o cálice sagrado da governabilidade, o Santo
Graal que cura crises, preserva a popularidade e garante abundância fiscal
infinita.
No pacto de sangue firmado com Lula, Arthur
conclamou 464 súditos que lhe garantiram mais dois anos mandando na Câmara dos
Deputados. Mas os primeiros três meses de 2023 já indicam que não teremos um
tempo de paz e prosperidade.
A nova corte do rei Arthur não votou nenhum
projeto relevante desde o início do governo Lula. Foram semanas até serem
constituídas as comissões e depois disso um conflito com o Senado paralisou a
tramitação das medidas provisórias.
Ao medir forças com o presidente do Senado,
Rodrigo Pacheco, Arthur mostra sua prepotência ao desprezar a Constituição e
desafiar o Supremo Tribunal Federal: “Não será uma decisão judicial que fará
com que os líderes indiquem, que a Mesa paute, que o plenário vote”. Arthur
deixou claro quem é que manda na política brasileira.
A esta altura dos acontecimentos, Lula já
deve ter percebido que sua lua de mel está chegando ao fim após as manobras de
Arthur, um mestre em criar dificuldades para vender facilidades.
Nas fábulas medievais o reinado de Arthur
desmoronou quando Lancelot, um dos cavaleiros mais honrados da Távola Redonda,
envolveu-se com a esposa do soberano, Guinevere, iniciando uma trágica sucessão
de traições e conflitos.
Embora suas aventuras sejam recontadas e
repetidas ao longo dos séculos, não há qualquer registro histórico ou
arqueológico de que o rei Arthur realmente existiu.
Como nas brumas de Avalon da política
brasileira ainda não apareceu ninguém realmente disposto a desafiá-lo para um
duelo, também não podemos dizer se o tão aclamado poderio de Arthur Lira, o rei
das Alagoas e do Congresso Nacional, é real ou não passa de lenda e fantasia.
O desfecho dessa história ainda está para
ser escrito.
*Bruno Carazza é mestre em economia e doutor em direito, é autor de “Dinheiro, Eleições e Poder: as engrenagens do sistema político brasileiro” (Companhia das Letras)”.
2 comentários:
SENSACIONAL este texto, simultaneamente criativo e informativo!
Parabéns ao colunista e ao blog que nos mostra um texto tão maravilhoso!
Bom mesmo.
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