O Globo
Caso Banco Master: temor de acordão para
abafar investigações e da escalada de conflito entre os poderes
Em Brasília, se teme um “acordão” que abafe de alguma forma as investigações do Banco Master. Em Brasília, se teme o aumento de conflito entre poderes por causa do Master. Ontem, o senador Renan Calheiros fez uma ameaça explícita a Gabriel Galípolo, afirmando que um ex-presidente do Banco Central saiu do Senado preso. “É evidente que não queremos que isso aconteça de novo”, mas “Galípolo precisa ajudar a comissão”. Dito isso, o parlamentar foi para o Banco Central se reunir com ele. Ouviu que, do ponto de vista bancário, deveria ser uma liquidação simples e que a causa de tanta atenção ao tema sugere que é um problema criminal. Renan saiu dizendo que vai querer todas as informações, inclusive as sigilosas.
O Master era apenas um banco pequeno em que o
banqueiro optou por tecer uma enorme rede de contatos com políticos e o mundo
jurídico achando que, com isso, blindaria seus negócios perigosos e
fraudulentos. O banco é pequeno, mas a investigação é grande. E terá
desdobramentos.
O temor do “acordão” é curioso porque contém
um dilema chamado Dias
Toffoli. Ele definitivamente não é o ministro indicado para este caso e já
provou isso tentando interferir de forma tão direta no rumo das investigações.
E também pelo óbvio conflito de interesses. Por outro lado, se as informações
forem depuradas seletivamente, deixando expostas apenas as acusações contra
outros atores de menor relevância, pode ser o caminho da pizzaria.
A investigação abre novas abas a cada dia. No
inquérito do Banco Regional de Brasília (BRB), que acabou de ser instaurado, o
Banco Central tinha indícios dessa circulação de dinheiro envolvendo Daniel
Vorcaro, Maurício Quadrado, Nelson Tanure e João Carlos Mansur. Dinheiro
que ia para os fundos da Reag e às vezes voltava em CDBs ou como capital.
O que aconteceu agora é que uma auditoria
interna da nova direção do BRB identificou uma série de compras de ações
fracionadas que paravam estrategicamente abaixo do limite de 5% a partir do
qual é preciso identificar o comprador. E se isso levar à comprovação de que se
tentava comprar escondido uma participação no BRB, pode-se caracterizar
formação de quadrilha.
O caso do grupo Fictor já vinha avançando
pela Polícia Federal de São Paulo. Um inquérito da Delegacia de Repressão à
Corrupção e Crimes Financeiros (Delecor) que apura a lavagem de dinheiro foi
enviado ao Ministério Público e agora aguarda-se a denúncia. A instituição
pediu recuperação judicial por não ter conseguido honrar algumas centenas de
milhões de reais em dívidas. Como poderia assumir o Master com R$ 80 bilhões de
passivo? Aumentam as certezas de que a proposta de compra era mais uma fraude.
Tudo são abas que se abrem e se conectam. O
que eu ouvi em Brasília é que o fim do recesso trouxe também o “cheiro de
acordão”. E que passaria pela volta para a primeira instância. E acordo pra
quê? “Pra não investigar”, me disse uma fonte. Só poderia voltar se houvesse a
certeza de que a investigação não levará a nomes com prerrogativa de foro. O
problema é que o processo foi feito invertido: teria que ter investigado na
primeira instância e depois, se fosse encontrada alguma autoridade, ir para o
STF. Esse seria o caminho normal. Mas Toffoli interrompeu, chamou tudo para o
seu gabinete, colocou sigilo, e agora pode devolver.
O BRB terá que fazer uma travessia mantendo a
credibilidade. O banco está bem, é sólido e tem ativos de fácil liquidez e
carteiras que poderia vender para se capitalizar. Mas tem que apresentar o
balanço do ano passado até o fim de março, fazer uma provisão de mais de R$ 5
bilhões, e decidir como realizar um aporte de capital do controlador. E sem
ruído de imagem.
No meio de tudo isso, o senador Renan
Calheiros, presidente da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, apresentou
ontem o plano de trabalho para um grupo que vai investigar a quebra do Master.
Disse que é dever da comissão “vasculhar o pântano” do banco e “suas
ramificações”. Em seguida, dirigiu suas baterias contra o presidente do Banco
Central insinuando que ele poderia sair preso do Senado, como ocorreu com o
ex-presidente Francisco Lopes, se não ajudar a comissão a “destrinchar o que
houve”. Vai também inquirir por escrito o presidente Lula por ter tido um
encontro com Vorcaro. Calheiros é da base do governo. Imagina se não fosse. Ele
é quem tem que explicar por que tanto nervosismo.

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