quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Brasília entre dois medos. Por Míriam Leitão

O Globo

Caso Banco Master: temor de acordão para abafar investigações e da escalada de conflito entre os poderes

Em Brasília, se teme um “acordão” que abafe de alguma forma as investigações do Banco Master. Em Brasília, se teme o aumento de conflito entre poderes por causa do Master. Ontem, o senador Renan Calheiros fez uma ameaça explícita a Gabriel Galípolo, afirmando que um ex-presidente do Banco Central saiu do Senado preso. “É evidente que não queremos que isso aconteça de novo”, mas “Galípolo precisa ajudar a comissão”. Dito isso, o parlamentar foi para o Banco Central se reunir com ele. Ouviu que, do ponto de vista bancário, deveria ser uma liquidação simples e que a causa de tanta atenção ao tema sugere que é um problema criminal. Renan saiu dizendo que vai querer todas as informações, inclusive as sigilosas.

O Master era apenas um banco pequeno em que o banqueiro optou por tecer uma enorme rede de contatos com políticos e o mundo jurídico achando que, com isso, blindaria seus negócios perigosos e fraudulentos. O banco é pequeno, mas a investigação é grande. E terá desdobramentos.

O temor do “acordão” é curioso porque contém um dilema chamado Dias Toffoli. Ele definitivamente não é o ministro indicado para este caso e já provou isso tentando interferir de forma tão direta no rumo das investigações. E também pelo óbvio conflito de interesses. Por outro lado, se as informações forem depuradas seletivamente, deixando expostas apenas as acusações contra outros atores de menor relevância, pode ser o caminho da pizzaria.

A investigação abre novas abas a cada dia. No inquérito do Banco Regional de Brasília (BRB), que acabou de ser instaurado, o Banco Central tinha indícios dessa circulação de dinheiro envolvendo Daniel Vorcaro, Maurício Quadrado, Nelson Tanure e João Carlos Mansur. Dinheiro que ia para os fundos da Reag e às vezes voltava em CDBs ou como capital.

O que aconteceu agora é que uma auditoria interna da nova direção do BRB identificou uma série de compras de ações fracionadas que paravam estrategicamente abaixo do limite de 5% a partir do qual é preciso identificar o comprador. E se isso levar à comprovação de que se tentava comprar escondido uma participação no BRB, pode-se caracterizar formação de quadrilha.

O caso do grupo Fictor já vinha avançando pela Polícia Federal de São Paulo. Um inquérito da Delegacia de Repressão à Corrupção e Crimes Financeiros (Delecor) que apura a lavagem de dinheiro foi enviado ao Ministério Público e agora aguarda-se a denúncia. A instituição pediu recuperação judicial por não ter conseguido honrar algumas centenas de milhões de reais em dívidas. Como poderia assumir o Master com R$ 80 bilhões de passivo? Aumentam as certezas de que a proposta de compra era mais uma fraude.

Tudo são abas que se abrem e se conectam. O que eu ouvi em Brasília é que o fim do recesso trouxe também o “cheiro de acordão”. E que passaria pela volta para a primeira instância. E acordo pra quê? “Pra não investigar”, me disse uma fonte. Só poderia voltar se houvesse a certeza de que a investigação não levará a nomes com prerrogativa de foro. O problema é que o processo foi feito invertido: teria que ter investigado na primeira instância e depois, se fosse encontrada alguma autoridade, ir para o STF. Esse seria o caminho normal. Mas Toffoli interrompeu, chamou tudo para o seu gabinete, colocou sigilo, e agora pode devolver.

O BRB terá que fazer uma travessia mantendo a credibilidade. O banco está bem, é sólido e tem ativos de fácil liquidez e carteiras que poderia vender para se capitalizar. Mas tem que apresentar o balanço do ano passado até o fim de março, fazer uma provisão de mais de R$ 5 bilhões, e decidir como realizar um aporte de capital do controlador. E sem ruído de imagem.

No meio de tudo isso, o senador Renan Calheiros, presidente da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, apresentou ontem o plano de trabalho para um grupo que vai investigar a quebra do Master. Disse que é dever da comissão “vasculhar o pântano” do banco e “suas ramificações”. Em seguida, dirigiu suas baterias contra o presidente do Banco Central insinuando que ele poderia sair preso do Senado, como ocorreu com o ex-presidente Francisco Lopes, se não ajudar a comissão a “destrinchar o que houve”. Vai também inquirir por escrito o presidente Lula por ter tido um encontro com Vorcaro. Calheiros é da base do governo. Imagina se não fosse. Ele é quem tem que explicar por que tanto nervosismo.

 

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