O Estado de S. Paulo
A crítica à imprensa é sempre bem-vinda:
ajuda a aguçar a sensibilidade cívica do público e qualifica a informação.
Coisa distinta são os ataques autoritários contra jornalistas
Um rumorejo arrevesado espreita as melhores
redações deste país. A cobertura da ruína do Banco Master, um escândalo com
carradas de cifrões, talvez o maior da história bancária dos nossos pobres
trópicos, deflagrou azedumes sortidos que põem em dúvida a função
insubstituível dos repórteres: apurar o que está acontecendo nas órbitas do
poder. O caso adquire relevância porque parte dos queixumes vem de setores que
guardam compromissos reais com a causa democrática, normalmente mais propensos
a valorizar e defender a vigilância exercida pelos bons jornais.
O mal-estar, disperso e descosido, alastra-se em modulações ora estridentes, ora balbuciantes, sem unidade aparente. Os argumentos, no entanto, parecem ser os mesmos, ainda que com roupagens repaginadas conforme a ocasião. Aponto aqui os três mais chamativos.
A primeira alegação afirma que as reportagens
enfeixam uma campanha articulada nas sombras para desmoralizar o Supremo
Tribunal Federal (STF). As notícias sobre o surrupio de R$ 40 bilhões teceriam
um complô com o objetivo de desacreditar a instituição que resistiu à tentativa
de golpe de Estado e, mais ainda, julgou e condenou os criminosos.
O segundo argumento, que é um prolongamento
do primeiro, sustenta que o alvo seria o próprio Lula. O descalabro do Banco
Master configuraria, então, um factoide agigantado cuja finalidade seria
vincular o presidente da República com os malfeitos e, assim, implodir suas
chances de reeleição. Já o terceiro pressuposto identifica um vício originário:
as fontes ocultas das redações seriam agentes do Centrão, que deram de falar em
off com a intenção maquiavélica de enfraquecer o STF e derreter o capital
político de Lula.
Pode haver elementos de verdade em cada um
dos três? Eu não recusaria a possibilidade in limine, mas tendo a desconfiar de
um juízo que reduza todo o jornalismo profissional de que dispomos a um
coletivo de ingênuos ou, mais ainda, de propagandistas alienados. Sejamos
razoáveis. Com seus inúmeros defeitos, os profissionais de imprensa no Brasil
são um pouco melhores do que isso. Fora o que, não são iguais entre si. Aliás,
um dos problemas com o azedume em curso reside justamente na generalização
chapada, como se todas as redações fossem uma coisa só, unificadas sob um
comando único e inalcançável aos olhos.
É evidente que, em qualquer grande cobertura,
equipes diferentes podem pecar pelas mesmas falhas procedimentais. Durante a
Lava Jato, por exemplo, repórteres de várias redações negligenciaram do mesmo
modo o dever de não acreditar piamente nas fontes que cultivavam (ou que os
cultivavam) na polícia e no Judiciário. Isso acontece e pode acontecer de novo,
mas não parece ser o caso desta vez. Ademais, não há indícios convincentes de
que esteja em marcha uma ação orquestrada das empresas de mídia para deixar o
Centrão feliz da vida.
A crítica à imprensa é sempre bem-vinda:
ajuda a aguçar a sensibilidade cívica do público e qualifica a informação.
Coisa distinta são os ataques autoritários contra jornalistas, como os que
foram perpetrados durante o governo Bolsonaro. Não nos esqueçamos da gritaria
covarde, impulsionada pessoalmente pelo então presidente, que insultava o
jornalismo pátrio com cartazes em que se lia o palavrão “Globo-Lixo” – um eco
da expressão Lügenpresse (imprensa mentirosa), alardeada pelos seguidores de
Adolf Hitler. Os questionamentos atuais não têm nada a ver com isso. São
legítimos e de boa-fé. Devem ser levados a sério por quem leva a sério o debate
público.
Subsistem, contudo, dois senões nos discursos
contrários à cobertura das falcatruas do Master: os postulados distorcidos pelo
exagero, como vimos nos três argumentos principais, e os desvios de método.
Quanto a estes, digo apenas que não se deve medir a imprensa pelas réguas
partidárias – nunca dá certo. Jornalismo e política são territórios
reciprocamente independentes, por mais que se camuflem um no outro. O jornalismo
se ocupa dos pontos de partida; a política, dos pontos de chegada.
Explico-me. Se algo funciona mal na sociedade
ou no Estado, a reportagem vai lá e investiga. Seu papel é esmiuçar as
disfunções. As consequências que a apuração acarretar serão resolvidas em outra
esfera, que se situa além das redações: a política. O jornalismo sinaliza um
fato (ponto de partida) – a sociedade politicamente organizada encaminha as
soluções (ponto de chegada). O que aconteceu ali de fato? Isso quem responde é
o jornalismo. Aonde tudo isso nos levará e como chegaremos lá? Essa resposta só
pode vir da (boa) política.
Em suma, imprensa e política tendem a
constituir campos separados, a despeito dos tais vasos comunicantes, às vezes
espúrios, que os vinculam. Se os desdobramentos de uma série de reportagens não
favorecem as aspirações de um determinado recorte político, isso não quer dizer
as redações tenham trabalhado sem critérios objetivos. Não necessariamente.
Portanto, não vale desqualificar o repórter só porque os acontecimentos que ele
traz à luz não corroboram nossas predileções doutrinárias. •

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