quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Sem mocinhos no caso Master. Por Julia Duailibi

O Globo

Era muita gente pedindo pelo banco. Vorcaro criou uma rede de contatos considerável

O salvador da pátria é figura valorizada no imaginário brasileiro, mas, no caso envolvendo o Master, está difícil encontrar alguém que se encaixe no papel. O avanço das investigações aponta para, na melhor das hipóteses, um misto de omissão e incompetência, em meio a uma estrutura normativa falha. Na pior, a atuação em defesa de interesses privados, os de Vorcaro. Como o mundo é complexo, e não existem heróis na política (engana-se quem acha que este é um caso só técnico), o final da novela deverá apontar para uma combinação das duas hipóteses.

Sob as barbas das autoridades fiscalizadoras, Vorcaro teceu negócios com base em, entre outras engenharias, precatórios lançados com valores acima dos praticados no mercado e empréstimos suspeitos que alimentavam fundos em looping. A partir de 2023, com o Banco Central (BC) sob Campos Neto, as operações suspeitas passam a despertar rejeição dos operadores mais prudentes — ou mais bem informados.

O BC, no entanto, tocou a bola de lado. Em outubro de 2023, diante das reclamações de outros bancos, editou a resolução 346, que impunha regras para diminuir a exposição a precatórios, uma das operações mais suspeitas do Master. Mas havia um senão:

— O tratamento previsto neste artigo não se aplica aos precatórios expedidos (...) até a data-base de 30 de junho de 2023.

A regra não valia para trás. Foi um baita fôlego para o Master. A farra dos CDBs também correu solta até quase o Natal de 2023, quando a resolução 5.114 do Conselho Monetário Nacional limitou ao patrimônio líquido do banco emissões com garantias do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).

Os olhares mais atentos já viam problemas de solvência — não só de liquidez — desde 2024. Mas somente em novembro Vorcaro foi chamado no BC para apresentar um plano de sobrevivência, segundo Alex Ribeiro, do Valor Econômico. Àquela altura, o Master apresentava também falhas no recolhimento dos compulsórios e, meses depois, já em 2025, os bilhões declarados em créditos repassados ao BRB já exalavam cheiro ruim. Apesar da situação insustentável, o BC ainda autorizou, em junho de 2025, a transferência do controle do Banco Voiter, de Vorcaro, ao empresário baiano e ex-sócio Augusto Lima, também alvo da Polícia Federal (PF). Com a decisão, na prática, um ativo do Master saiu protegido de uma eventual liquidação. Em setembro, diante de todo esse cenário, o BC vetou a venda do Master ao BRB, apesar da posição contrária do diretor de fiscalização.

Se mercado, BC, FGC, Ministério Público e PF já sabiam, por que o BC esperou até novembro, quando veio a operação da PF que prendeu Vorcaro, para liquidar o banco? Os defensores da demora alegam que a liquidação seria traumática, que se buscava uma solução de mercado e que havia preocupação com o FGC.

A variável política pode explicar a demora do BC, que estava sob pressão. Era muita gente pedindo pelo Master. Vorcaro criou uma rede de contatos considerável. Do Congresso ao STF, passando pela Bahia e aportando no Planalto. Lula o recebeu quando Galípolo era diretor do BC. A liquidação ocorreu apenas depois de Vorcaro parar nas páginas policiais. Tanto que, a partir daí, o presidente do BC pediu investigação interna para saber se houve omissão na fiscalização. Não dava mais para o BC tocar a bola de lado.


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