CPI pode ajudar a esclarecer dúvidas sobre caso Master
Por O Globo
Mesmo em ano eleitoral, não se pode esmorecer
na investigação de escândalo tão relevante para o país
Tem crescido no Congresso o movimento pela instalação de Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) para investigar fraudes no Banco Master. O deputado Rodrigo Rollemberg (PSB-DF) protocolou requerimento de CPI na Câmara e cobrou agilidade na instalação. O PT decidiu apoiá-lo. Sem aval do governo, uma proposta de Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI), do deputado Carlos Jordy (PL-RJ), recebeu mais de 280 assinaturas. Correndo por fora, há outra proposta de CPMI das deputadas Fernanda Melchionna (PSOL-RS) e Heloísa Helena (PSOL-RJ).
Por ora, nenhuma parece entusiasmar quem
determina a pauta no Congresso. O presidente da Câmara, Hugo Motta
(Republicanos-PB), informou que o pedido de Rollemberg irá para o “fim da
fila”. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), disse que a comissão
mista será realidade “se a pressão popular for muito grande, porque o
calendário é curto”. Pela Constituição, a instalação de comissões que cumpram
os requisitos é obrigatória e, nas CPMIs, deve ser automática. Mas o
requerimento tem de ser apresentado em sessão conjunta, marcada por Alcolumbre.
O Master foi liquidado pelo Banco Central em
novembro. De lá para cá, abriu-se um rombo de R$ 50 bilhões no Fundo Garantidor
de Créditos, a Polícia Federal (PF) vem desmascarando fraudes bilionárias, mas
a condução do inquérito tem sido tumultuada por decisões controversas, suspeitas
de conflitos de interesse, falta de transparência e excesso de sigilo. Se bem
conduzida, uma comissão parlamentar poderia ajudar a jogar luz sobre fatos que
inspiram toda sorte de temor e especulação em Brasília.
Há, com certeza, riscos. Em caso tão
rumoroso, num ano eleitoral, não faltarão tentativas de transformar qualquer
debate em palanque. O histórico das CPIs também inspira desconfiança. Muitas
terminam sem conclusão satisfatória. No caso do Master, existe um agravante.
Parlamentares que trabalharam em sintonia com o banqueiro Daniel
Vorcaro têm todo interesse em confundir a opinião pública.
Apesar dos perigos, precedentes de sucesso
podem servir de guia. A Lei do Feminicídio, de 2015, foi inspirada em proposta
elaborada pela CPMI da Violência contra a Mulher. A CPI da Pedofilia, de 2010,
também resultou em avanços legais na punição a crimes sexuais contra crianças e
adolescentes. A CPI do Lalau, de 1999, ajudou a desvendar desvios no Tribunal
Regional do Trabalho de São Paulo. A CPI de PC Farias foi determinante para a
queda de Fernando Collor. As dos Anões do Orçamento e do Mensalão desbarataram
esquemas de corrupção.
Tais exemplos deveriam inspirar os parlamentares
interessados em elucidar as suspeitas em torno do Master, em especial na
captação de fundos de previdência de servidores. Na terça-feira, a PF prendeu o
ex-diretor-presidente do Rioprevidência, fundo de pensão do estado do Rio que
comprou quase R$ 1 bilhão em papéis do Master. Há muito mais a apurar. O
Parlamento tem uma oportunidade de informar a opinião pública e de facilitar as
investigações. Se evitar o espetáculo, as tentativas de tumultuar a busca pela
verdade e não poupar ninguém, há boa chance de uma CPI contribuir. É sempre
difícil, sobretudo em ano eleitoral, mas não se pode esmorecer na investigação
do escândalo do Master. As dúvidas não são poucas. Vale a pena tentar.
Pacote de bondades do Congresso é o contrário
do que o Brasil precisa
Por O Globo
Em vez de distribuir benesses descabidas a
servidores, Parlamento deveria dar exemplo de austeridade
No início do ano legislativo, era de esperar
que parlamentares demonstrassem preocupação com a escalada dos gastos públicos
e a rápida deterioração do quadro fiscal. O que se vê no Congresso em pleno ano
eleitoral é justamente o contrário. Já na primeira semana, a Câmara contratou
um pacote de bondades, criou cargos no Executivo e, como se invejasse os
penduricalhos do Judiciário, aumentou de forma descabida a remuneração dos
servidores do Legislativo. Péssimo sinal.
Pelo projeto aprovado, serão criados quase 20
mil cargos no Executivo federal. A previsão é abrir 16 mil vagas no Ministério
da Educação e 1,5 mil no Ministério da Gestão e Inovação em Serviços Públicos.
Está prevista ainda a instalação do Instituto Federal do Sertão Paraibano,
sediado em Patos (PB), onde o prefeito é o pai do presidente da Câmara, Hugo
Motta (Republicanos-PB). Estima-se um impacto orçamentário de R$ 5,3 bilhões
somente neste ano.
Na Câmara, haverá reajustes salariais ao
redor de 9%, dependendo do cargo. No Senado, a alta será escalonada até 2029.
De modo geral, as propostas aprovadas mudam a estrutura das carreiras e
aumentam gratificações vinculadas ao desempenho e ao exercício das funções.
Entre os mimos concedidos, foi estabelecida uma Gratificação de Desempenho e
Alinhamento Estratégico, que pode chegar a 100% do vencimento básico (Motta
alegou que a mudança na gratificação atingirá no máximo 72 servidores).
Reproduzindo as piores práticas da
privilegiada elite do funcionalismo, os projetos criam, na Câmara e no Senado,
uma licença por dias trabalhados que pode ser transformada em verbas pagas,
acima do teto constitucional. A benesse valerá para o topo das carreiras e para
funcionários em cargos de comando. Servidores terão direito a um dia de folga a
cada três trabalhados, com limite de até dez dias de descanso por mês. Para o
Estado, péssimo negócio, pois reduz a produtividade. Para os servidores, o
emprego dos sonhos.
O deputado Pedro Paulo (PSD-RJ), relator da
reforma administrativa, criticou a criação da licença, que, segundo ele, abre
caminho para remunerações acima do teto. “É exatamente o oposto do que
defendemos na reforma administrativa e do que a sociedade espera de nós”,
disse. A urgência da reforma fica ainda mais eloquente diante dos desvarios no
Parlamento.
No ano passado, o Congresso já havia aprovado reajustes para servidores públicos com impacto estimado de R$ 74 bilhões até 2027. Concedeu também aumento de 8% a servidores do Judiciário federal em 2026. Além disso, deu aval a uma compensação para servidores em cargos de confiança no Tribunal de Contas da União, elevando entre 10% e 25% a remuneração bruta e permitindo o drible no teto. O descontrole fiscal do Executivo e as remunerações estratosféricas do Judiciário são conhecidos de todos. Por isso o Legislativo deveria dar exemplo, em vez de aderir à gastança desenfreada cujos efeitos perversos cedo ou tarde desabarão sobre o país.
Paz armada
Por O Estado de S. Paulo
Sob o discurso de harmonia e diálogo, os
presidentes da Câmara e do Senado deixam claro que a defesa das emendas e do
poder orçamentário do Congresso seguirá no centro do embate em 2026
Nos discursos que fizeram na abertura do ano
legislativo, o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta
(Republicanos-PB), e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP),
recorreram a um vocabulário cuidadosamente calibrado. Cada um a seu modo,
falou-se em “paz”, “harmonia”, “diálogo”, “bom senso” e “respeito mútuo”, entre
outras expressões generosas e diplomáticas. Na superfície, os pronunciamentos
soaram como um aceno de distensão institucional. Na substância, porém, deixaram
claro que o Congresso segue mobilizado em torno de uma prioridade central: a
defesa corporativista das prerrogativas acumuladas nos últimos anos, em
especial o controle ampliado do Orçamento da União por meio das emendas
parlamentares.
Não à toa, a suavidade retórica em torno da
suposta pacificação e do equilíbrio entre os Poderes foi acompanhada de
afirmações inequívocas. Hugo Motta disse caber aos parlamentares “fazer valer a
prerrogativa constitucional do Congresso de destinar as emendas parlamentares
aos rincões Brasil afora”. Já Davi Alcolumbre fez questão de sublinhar:
“Defender a paz nunca foi – e nunca será – sinônimo de omissão. Nosso desejo de
paz não significa que tenhamos medo da luta”.
Na cosmologia dos dois timoneiros do
Congresso, é precisamente de luta que se trata, sobretudo da luta pelo direito
de seus pares de exercer força máxima sobre o orçamento público. Daí se conclui
que o conflito com o Executivo e com o Supremo Tribunal Federal (STF), onde
hoje se concentram os principais diques de contenção ao poder excessivo do
Legislativo sobre o Orçamento federal, não apenas permanece como tende a marcar
todo o ano político de 2026.
O presidente da Câmara adotou um tom
conciliador, mas não menos assertivo. Ao afirmar que o Parlamento deve atuar
“em sintonia com as ruas” e que as emendas seriam instrumento legítimo para
atender às demandas da população, Hugo Motta reiterou a narrativa segundo a
qual a crescente intervenção do Legislativo no Orçamento representaria
expressão direta da democracia representativa. O discurso da cooperação veio
acompanhado de uma mensagem clara: o Congresso não pretende abrir mão do poder
que conquistou.
Davi Alcolumbre foi menos cuidadoso na
embalagem. Seu discurso trouxe a advertência explícita de que “paz nunca foi –
e nunca será – sinônimo de omissão”, frase que sintetiza o espírito com que o
Senado observa o governo Lula. Ao defender as “conquistas do Congresso”, o
senador tratou o avanço das emendas como patrimônio institucional a ser
preservado, não como um arranjo passível de revisão. O recado ao Executivo foi
direto: o diálogo é possível, desde que não implique retrocesso na autonomia
orçamentária do Legislativo.
Este jornal tem chamado atenção, de forma
reiterada, para o significado desse movimento. Sob o argumento de fortalecimento
do Parlamento, consolidou-se um sistema em que parcelas crescentes do gasto
público são definidas por critérios pouco transparentes, com baixa
rastreabilidade e escassa avaliação de resultados. O orçamento secreto foi a
versão mais escancarada desse processo, mas sua lógica persiste, agora sob
formatos formalmente legais e politicamente blindados.
A retórica da pacificação não altera essa
realidade. Ao contrário, funciona como recurso discursivo para normalizar um
desequilíbrio que enfraquece a coordenação do Executivo, fragmenta o
planejamento estatal e dilui responsabilidades. O Congresso reivindica
protagonismo na definição do gasto, mas resiste a assumir os ônus dessa
escolha.
Nada disso aponta para uma pacificação real.
O que se desenha é a continuidade de um embate áspero ao longo deste ano, seja
nas negociações orçamentárias, seja nas tensões com o STF, frequentemente
chamado a conter excessos que o sistema político se recusa a enfrentar.
Enquanto o discurso da harmonia convive com a prática da defesa intransigente
de interesses corporativos, o País segue refém de um arranjo disfuncional. E
assim a toada da pacificação continuará soando como o que significa hoje:
palavras mansas para encobrir um conflito que está longe de arrefecer.
De volta à corrida nuclear
Por O Estado de S. Paulo
Os controles imperfeitos mas funcionais da
guerra fria se dissolvem numa atmosfera de instabilidade, desconfiança e
chantagem. A nova ordem tende a ser mais nuclear, mais opaca e mais instável
Sem cerimônia, sem tratados, sem inspeções, o
mundo cruza mais uma das linhas vermelhas traçadas no pós-guerra. A partir de
hoje, pela primeira vez em meio século, Estados Unidos e Rússia já não estarão
sujeitos a nenhum pacto que limite, verifique ou fiscalize seus arsenais
nucleares. O tratado New Start, derradeiro remanescente da arquitetura de
controle construída na guerra fria, expira sem sucessor – e, com ele, os
vestígios de uma engrenagem mínima capaz de conter a escalada entre grandes
potências.
A ordem nuclear erguida a partir dos anos
1960 se sustentava sobre três pilares: limitação mútua, verificação recíproca e
dissuasão estável. Todos estão ruindo. Os principais tratados foram abandonados
ou esvaziados nos últimos 20 anos. A confiança entre as potências evaporou. A
tecnologia multiplicou o risco de erro e de desestabilização. E agora não há
sequer a ficção de uma regra comum.
Ao contrário da guerra fria, o eixo da
instabilidade já não é bipolar. A Rússia de Vladimir Putin aposta na chantagem
nuclear tática, no uso político de novas ogivas e em armas projetadas para
escapar a qualquer sistema de controle. Sob o governo de Donald Trump, o velho
dilema interno dos Estados Unidos entre evitar o colapso do regime multilateral
ou manter a primazia militar americana é solucionado em favor da última opção.
É sobretudo a China o ator que reconfigura o jogo. Recusando qualquer tratado,
Pequim dobrou seu arsenal em cinco anos, desenvolve plataformas móveis e subterrâneas
e desafia a lógica da paridade regulada. No xadrez da dissuasão, o tripé entrou
em colapso.
O resultado é uma corrida armamentista
assimétrica, opaca e fragmentada. Não há mais convergência quanto ao que deve
ser proibido, limitado ou monitorado. Cada potência persegue sua própria
doutrina: supremacia convencional, dissuasão escalatória, neutralização
tecnológica. A lógica da estabilidade foi substituída pela lógica da vantagem.
E a corrida deixou de ser apenas quantitativa – mais ogivas, mais silos – para
se tornar qualitativa: inteligência artificial, mísseis hipersônicos, drones
submarinos e sistemas furtivos. Nesse cenário, a transparência deixa de ser um
fator de contenção e passa a ser um risco estratégico.
O impacto vai além das superpotências. O
Tratado de Não Proliferação perdeu credibilidade e eficácia. O Irã se tornou um
Estado limítrofe. Com apoio da China, a Arábia Saudita desenvolve sua
infraestrutura com potencial dual (civil e militar). A Coreia do Norte acelera
sua produção. Diante disso, o debate ressurgiu no Japão, Coreia do Sul, Turquia
e Europa. Potências regionais como o Brasil também precisam repensar
profundamente sua estratégia nuclear numa era em que o cenário tradicional de
um clube fechado de potências sob controle mútuo cede lugar a um pluralismo
atômico desregulado. Mais atores, menos freios. E mais zonas cinzentas:
arsenais clandestinos, ambiguidades estratégicas, ameaças veladas.
A corrida nuclear voltou, não com um
estrondo, mas com um gemido – e sob uma lógica pouco familiar. A dissuasão
clássica exigia clareza de doutrina, canais de comunicação e reconhecimento
mútuo de interesses vitais. Hoje há novos riscos: blefe descontrolado,
sabotagem por terceiros, erro de interpretação, uso tático. A bomba voltou ao
centro do tabuleiro. Mas seu papel é menos previsível, e sua utilização, mais
concebível. A barra foi rebaixada.
Mesmo que a arquitetura do passado seja
irrecuperável, é possível erguer mecanismos mínimos de coordenação e freios
localizados: tratados sobre armas emergentes, zonas de exclusão, protocolos de
alerta. Porém o custo da inação cresce a cada ciclo tecnológico.
A trégua nuclear pode se provar uma anomalia
histórica, mas não foi obra do acaso, e sim de vontade política, liderança
estratégica e constrangimentos institucionais. Esses elementos parecem se
dissipar. O novo cenário tende a ser menos modelado pela força do Direito e
mais pela força dos fatos. As regras do pós-guerra estão desmoronando. A
questão é se o mundo conseguirá erguer novas antes da próxima crise.
Escola não é quartel
Por O Estado de S. Paulo
Nas escolas cívico-militares de SP, até o
corte de cabelo é regulado, como se os alunos fossem soldados
Começaram no dia 2 de fevereiro passado as
aulas nas cem primeiras escolas cívico-militares da rede estadual paulista de
ensino. Idealizado para afagar a militância bolsonarista mais estridente, o
projeto da gestão Tarcísio de Freitas, desde sua concepção até sua execução,
enfrentou obstáculos: resistência de parte do Legislativo, ações na Justiça,
cobranças do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo e, não menos importante,
o questionamento de especialistas em educação sobre a eficácia dessa política pública
para alavancar os indicadores de educação. E nem nas primeiras horas de sua
implementação a iniciativa conseguiu se desviar das controvérsias: nos colégios
cívico-militares, os alunos precisam seguir rígidas regras sobre a própria
aparência.
Nessas unidades frequentadas por 53 mil
estudantes, estão proibidos boné, piercings e determinados cortes e cores de
cabelo. Os meninos devem zelar por cortes de cabelo discretos, sem desenhos, e
suas sobrancelhas não podem ter riscos. Já as meninas não podem usar roupas
curtas e devem privilegiar penteados como tranças, coques e rabos de cavalo, em
vez de deixar os cabelos soltos. Há ainda a obrigação de cantar o Hino
Nacional, o que é louvável, e a bater continência, o que é questionável. E,
como não há nenhuma evidência de que tais restrições e exigências garantam a
disciplina entre os alunos, o respeito aos professores ou a melhoria do
processo de ensino-aprendizagem, trata-se de um evidente exagero.
A ideia das escolas cívico-militares se
sustenta na visão distorcida, própria dos saudosos do regime militar, de que os
civis são incapazes de manter a disciplina e instilar valores como respeito aos
professores e amor ao País nas escolas. Trata-se de um desdobramento, na área
de educação, da concepção reacionária segundo a qual só os militares sabem o
que é melhor para o Brasil e, sendo assim, devem tutelar a sociedade.
A educação, nas escolas públicas, é uma
atribuição dos civis. Não se pode confundir com os colégios exclusivamente
militares, que têm normas próprias e visam, como meta pedagógica, a “despertar
a vocação para a carreira militar”, como se lê no Regulamento dos Colégios
Militares. A simples presença de policiais militares atuando como bedéis em
escolas públicas, sem qualquer formação pedagógica e com o objetivo genérico de
manter a disciplina como se ali fosse um quartel, é, portanto, uma aberração.
A ideia da gestão Tarcísio é aumentar a disciplina: um ambiente mais disciplinado pode melhorar o aprendizado e, aprendendo mais, os alunos podem alcançar notas mais altas no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). Não à toa, o projeto visa a atender às unidades com os piores indicadores. Mas, diferentemente de uma escola militar, em que os pais matricularam seus filhos cientes das duras regras que serão impostas, nas escolas estaduais devem prevalecer os princípios constitucionais do pluralismo e da liberdade de pensar e de se expressar, que visam ao pleno desenvolvimento, ao preparo para o exercício da cidadania e à qualificação para o trabalho. E nada disso tem relação com o corte de cabelo dos alunos.
Recorde com petróleo em tempos de transição
energética
Por Folha de S. Paulo
Produção brasileira em 2025 é a maior da
história, mas país também precisa mirar um futuro sem poluentes
Sucesso da Petrobras se deve, em grande
parte, a ajustes que deixaram para trás corrupção e investimentos perdulários
de gestões petistas
O Brasil fechou 2025 com a marca
histórica de produção média de 3,77 milhões de barris de petróleo por
dia, um aumento de 12,3% sobre o recorde anterior de 2023. Em plena era de
transição energética, o país ainda conta com resultados assim para atrair
divisas e reduzir os déficits persistentes nas transações com o exterior e no
Orçamento público.
As exportações do produto alcançaram US$ 44,6
bilhões no ano, liderando a pauta nacional. Esse sucesso se deve em grande
parte ao saneamento financeiro e operacional da Petrobras após
a dilapidação da estatal nas gestões petistas anteriores, marcadas por
investimentos perdulários, endividamento excessivo, corrupção e desvios
estratégicos.
A partir de 2016, a companhia revisou
drasticamente seus negócios, desinvestiu em ativos não essenciais e concentrou
recursos em exploração e produção. Com contas em ordem, mais enxuta e
eficiente, no ano passado a Petrobras adicionou 1,7
bilhão de barris às reservas, descobrindo 1,7 barril para cada
barril produzido —o suficiente para quase 13 anos de extração no ritmo atual.
O foco em maximizar a eficiência de extração
em campos petrolíferos já descobertos, como Tupi, Búzios, Mero e Itapu,
permitiu elevar a produção em bases financeiramente saudáveis, sem os excessos
do passado.
Os recordes também irrigam as contas
públicas. Royalties e participações especiais representam parcela relevante das
receitas federais e, sobretudo, dos estados e municípios produtores. Esses
recursos financiam saúde, educação e
programas sociais, demonstrando que o petróleo, quando bem gerido, ainda pode
contribuir diretamente para o bem-estar da população.
Outro aspecto positivo é a participação
crescente de empresas privadas no setor. Em dezembro de 2025, a Petrobras
respondeu por menos de dois terços da produção total, o que prova o acerto da
abertura, iniciada com o fim do monopólio estatal em 1997 e depois aprofundada,
apesar das resistências ideológicas do PT.
Não se pode ignorar, entretanto, o contexto
global de busca por energia não poluente. Investimentos futuros precisam
avaliar cuidadosamente a viabilidade econômica à luz da descarbonização, e as
divisas obtidas devem ajudar a financiar a transição.
Tudo indica que, enquanto houver demanda
mundial, o que persistirá por décadas, o Brasil continuará apostando em
combustíveis fósseis. Novas fronteiras —com destaque para a margem equatorial,
na bacia da Foz do Amazonas— atraem a cobiça de governantes e investidores.
Compreende-se que uma economia de renda média
não pretenda abrir mão de seus recursos naturais, porém cumpre
planejar o futuro. A crença no desenvolvimento à base de receitas do
petróleo explorado pelo Estado, espalhada da esquerda à direita no país, já se
mostrava obsoleta antes mesmo das preocupações globais com a crise climática.
Tudo muda para permanecer igual na Venezuela
Por Folha de S. Paulo
País caribenho altera leis sobre presos
políticos e petróleo, mas cúpula do regime segue intocada
A líder interina é a vice de Maduro, e os
principais ministros, inclusive os que controlam as forças armadas, continuam
em seus postos
Há pouco mais de um mês, Donald Trump ordenou
uma ação militar na Venezuela.
O ditador Nicolás
Maduro e sua mulher foram levados aos Estados
Unidos, onde aguardam julgamento por crimes relacionados a
narcotráfico e terrorismo.
A incursão se pautou pela máxima de
Lampedusa: mudou tudo para que tudo permanecesse como estava. O regime
chavista, exceto pela supressão de Maduro e algumas outras alterações, segue
praticamente intocado no poder.
Quem agora
comanda o país é Delcy Rodríguez, a vice de Maduro. Os principais
ministros, notadamente os responsáveis pelo controle das Forças Armadas que
reprimiam adversários políticos, permanecem em seus postos.
É difícil afastar a hipótese de que a
intervenção foi de algum modo encenada. Antes de despachar seus soldados, os
americanos já teriam negociado com os auxiliares do caudilho, que entregariam a
cabeça do líder em troca da permanência no poder, fazendo concessões menores.
É nesse contexto que teriam surgido as
recém-aprovadas mudanças na
legislação relativa à exploração do petróleo e à soltura de
parte dos presos políticos.
Pode-se até louvar o que seria certa
prudência. Washington evitou uma aventura militar destrambelhada que poderia
precipitar a Venezuela em guerra civil —e tudo o que sua população não precisa
após décadas de ruína econômica, social e institucional é um conflito doméstico.
Mas trata-se de uma cautela bastante específica e autointeressada.
Trump não hesitou em violar a soberania de um
país nem em imolar a ordem global que tanto beneficiou os EUA nos últimos 80
anos. Ele só evitou criar um problema para si mesmo. As fracassadas
intervenções no Afeganistão,
no Iraque e
na Líbia ainda
estão na memória dos americanos.
O modelo de ingerência do republicano lhe
permitiu posar de líder inconteste, que agora exerce controle sobre a produção
de petróleo do detentor das maiores reservas do mundo. Não está claro, porém,
se empresas americanas terão real interesse em investir num país cuja
estabilidade ainda não está assegurada.
Outra ideia sacrificada nesse desenho de
intervenção é a de que os EUA atuam pela liberdade. O americano nunca rezou por
essa cartilha, mas restaurar a democracia na Venezuela (ou ao menos eliminar o
regime chavista) era uma bandeira cara a parte do eleitorado mais à direita.
No saldo da operação, Trump desmantelou a ordem internacional criada pelos próprios EUA, e o autoritarismo está longe do fim no país caribenho.
Trânsito não pode ser via de tragédia
Por Correio Braziliense
Ao poder público cabe não só fiscalizar, mas
estabelecer meios para garantir que rodovias interestaduais e urbanas tenham
qualidade para o tráfego de motos, carros e ônibus, e sinalização adequada,
provida de câmeras de vigilância ou de agentes de trânsito para conter os
infratores
Em meio ao crescimento, a cidade se depara
com desafios urbanos, tais como trânsito intenso nos horários de pico e
questões de segurança em áreas periféricas. A expansão acelerada exige
investimentos contínuos em infraestrutura, saneamento e moradia acessível.
A frota de motocicletas no Brasil chegou a 35
milhões em 2025, com a comercialização de 2,19 milhões de unidades, superando a
compra de automóveis (1,9 milhão), um crescimento de 17% em relação a 2024.
Manteve-se, assim, uma curva ascendente de aquisição de veículos sobre duas
rodas — a frota cresceu 42% em 10 anos, de 2015 a 2024 —, que tem mudado a
forma de deslocamento da população e desafiado os gestores públicos.
Um dos alertas é com relação à segurança. O
número de acidentes de trânsito envolvendo motociclistas e óbitos acompanha os
ritmos de compra e venda. Segundo o Ipea, a participação de motos em sinistros
com morte nas estradas brasileiras passou de 3% no fim dos anos 1990 para quase
40% em 2023.
Dados divulgados pelo Ministério da Saúde em
janeiro último trazem ainda mais detalhes sobre esse fenômeno. O Nordeste
passou a liderar o ranking de mortes no trânsito — posição historicamente
ocupada pelo Sudeste — justamente por conta da maior adesão aos veículos sobre
duas rodas na região. Foram registrados nos estados nordestinos 1.894 óbitos no
trânsito em 2024, contra 10.995 no Sudeste. Considerando apenas as vítimas em
motocicletas os números são, respectivamente, 6.116 e 3.820.
O descontrole em acidentes fatais envolvendo
motociclistas não está circunscrito ao Nordeste. É uma triste realidade em todo
o país. No Distrito Federal, o Departamento de Trânsito (Detran-DF) constatou
aumento de 40,5% de motociclistas mortos de 2024 para 2025. Nas vias da capital
federal, 271 pessoas morreram no ano passado. Os motociclistas somaram
104 (38,4%) dos óbitos — um aumento de 40,5% em relação a 2024. Preocupa ainda
a constatação de que, em 46,2% dos sinistros fatais, o uso de álcool figurou
como fator de risco.
Em Minas Gerais, só no primeiro semestre do
ano passado, a Polícia Rodoviária Federal registrou 37,4 mil acidentes
envolvendo motos. A BR-040, com elevado tráfego é considerada uma rodovia
perigosa, o que exige muita atenção dos condutores de todas as modalidades de
veículos.
Especialistas atribuem a maioria dos casos de
óbitos de motocicletas à imprudência, ao excesso de velocidade e à falta de
atenção dos condutores. Embora esses fatores tenham peso nos acidentes, é
inegável que nem sempre as vias de tráfego estão em condições adequadas, o que
contribui para os desastres.
As condições de trabalho, também. A entrega
de encomendas sobre duas rodas é cada vez mais fonte de renda no país,
sobretudo entre os mais jovens e com baixa escolaridade. E a renda depende da
quantidade de produtos entregues. Sem regulamentação, a lei do asfalto propicia
o excesso de velocidade e outras infrações cometidas por motociclistas.
Há de se reconhecer que há um movimento do
governo para trazer mais segurança ao trânsito, como mudanças nas regras para
obtenção da Carteira Nacional de Habilitação e a gratuidade de renovação para
os bons condutores. Também está prevista a elaboração do Programa Nacional de
Segurança de Motociclistas. Essas medidas são importantes, mas a eficiência dependerá
da garantia de que não haverá impactos na educação dos condutores — que,
segundo especialistas, precisa, inclusive, ser atualizada — e que serão
acompanhadas por mais rigor e eficácia nas fiscalizações.
E mais: ao poder público cabe não só fiscalizar, mas estabelecer meios para garantir que rodovias interestaduais e urbanas tenham qualidade para o tráfego de motos, carros e ônibus, e sinalização adequada, provida de câmeras de vigilância ou de agentes de trânsito para conter os infratores. Experiências como as de São Paulo, com faixas exclusivas para os motociclistas, também devem ser consideradas.
Congresso aprova ‘pacotão’ de regalias do dia
para a noite
Por Valor Econômico
A aprovação das benesses mostra por que
grande parte do Congresso rejeita dar apoio a uma verdadeira reforma
administrativa
O Congresso abriu o ano legislativo com uma
enxurrada de aumentos de salários para seus servidores, instituição de benesses
que privilegiam a elite de seus funcionários, que poderão exceder o teto
constitucional do serviço público (R$ 46,3 mil), e mais a criação de 20 mil
cargos no Executivo. Em apenas um dia, a Câmara dos Deputados e o Senado
aprovaram um aumento de custo de pelo menos R$ 6 bilhões para os contribuintes
em 2026. O Auxílio Gás, de entrega gratuita de botijões a famílias com até meio
salário mínimo inscritas no Cadastro Único, que consumirão R$ 5,1 bilhões no
ano, foi também aprovado rapidamente pelos senadores.
Ao iniciar os trabalhos da Câmara, o
presidente Hugo Motta (Republicanos-PI) disse que a Casa não abriria mão de seu
poder de enviar recursos aos “rincões”, ao defender o enorme poder adquirido
pelos parlamentares de distribuírem as verbas do Executivo como quiserem por
meio das emendas. No dia seguinte, Motta não se esqueceu dos que têm
remuneração muito superior ao salário médio do cidadão brasileiro (R$ 3,6 mil),
contemplando-os com uma reestruturação salarial que elevará, por exemplo, o
piso de um consultor legislativo de R$ 13,7 mil para R$ 24,1 mil até 2029 e o
salário base dos auxiliares do Legislativo de R$ 3,3 mil para R$ 5,86 mil
mensais.
O presidente da Câmara disse que estipular
reajustes salariais para todos era uma “marca” de sua gestão, preocupada em não
criar “castas”, mas não as deixou ao relento. Motta e o presidente do Senado,
Davi Alcolumbre (UB-AP), criaram a Gratificação por Desempenho e Alinhamento
Estratégico, uma classificação pomposa para beneficiar o topo da carreira
funcional no Congresso. Serão, conta Motta, 73 funcionários agraciados. A conta
é modesta e abrangerá muito mais servidores.
A gratificação mínima será equivalente a 40%
do salário base e a máxima, 100% dele. Como sempre, os cargos comissionados,
preenchidos em sua maioria por indicações políticas, terão os maiores
benefícios por critérios que formalmente lembram a eficiência, como o de
desempenho, mas passam longe dela. Na administração pública a avaliação de
performance dos funcionários é, para efeitos práticos, inexistente. A
justificativa do “alinhamento estratégico” é uma piada de mau gosto, pois só
serão agraciados cargos preenchidos por indicados que têm afinidades políticas,
condição a priori para a ocupação do posto.
As benesses do Judiciário e do Ministério
Público foram estendidas para a elite do funcionalismo da Câmara e do Senado,
embora ainda não tenha sido desta vez que férias de dois meses dos magistrados
chegaram a eles. Câmara e Senado aprovaram licenças compensatórias para cargos
comissionados ou de assessoramento superior como compensação ao “acúmulo de
tarefas de alta complexidade” em atuações “fora do horário regular do
expediente”. A definição é tão elástica quanto é incompreensível a extensão de
benefícios por supostas cargas excessivas de trabalho a aposentados e
pensionistas.
O projeto aprovado fixa a licença em um
mínimo de um dia para cada 10 trabalhados e um máximo, um para cada três, com a
restrição de 10 dias por mês, o que, ao final das contas, dá no mesmo. A
compensação pela dedicação funcional poderá ser recebida em dinheiro, e sobre
ela não incidirá o Imposto de Renda. As disposições são conhecidas e seus
efeitos também: abrir mais espaço para que os salários ultrapassem o teto
constitucional.
O projeto da Câmara estabelece reajustes de
8% a 9% para servidores efetivos, comissionados e secretários parlamentares.
Para auditores fiscais da Receita e Trabalho, os salários subirão 9,22% para o
topo da carreira.
O Executivo nada fez para demover o Legislativo
do aumento de gastos, pois também foi contemplado com as mudanças. O Ministério
da Educação poderá contratar 9.587 professores para educação, inclusive
técnica, mais 4.286 técnicos em educação e 2.490 analistas. O Ministério da
Gestão ganhará 750 postos de analistas técnicos de desenvolvimento social e
outros 750 de analistas técnicos em Justiça e Defesa, por terem atuação
“transversal” nas políticas públicas.
As mudanças foram feitas pelo comando do
Legislativo sob o signo da “modernização”. As forças políticas que impulsionam
mais benefícios agora são as mesmas que colocam obstáculos para uma
modernização de fato, representada pelo projeto de reforma administrativa em
exame no Congresso, cujo relator é o deputado Pedro Paulo (PSD-RJ), que traz
mudanças relevantes de fato na gestão da máquina pública. Suas propostas
vedavam muitos dos benefícios que foram aprovadas esta semana. Os líderes do
Congresso estão em “modo eleição”, disse o deputado, que votou contra as
mudanças.
O pacotão de regalias do Legislativo mostra por que grande parte do Congresso rejeita dar apoio a uma verdadeira reforma administrativa e, ao mesmo tempo, à sua urgente necessidade. Remendos corporativos são mais benéficos aos parlamentares, mais caros para o Executivo e prejudiciais às contas públicas.
Câmara dos Vereadores volta ao Centro de
Fortaleza
Por O Povo (CE)
A iniciativa do Legislativo é bem-vinda,
porém, insuficiente. É preciso ir além, com planejamento integrado, que
considere todos os aspectos urbanísticos, sociais, históricos e de mobilidade
da região
Neste ano, quando Fortaleza completa 300
anos, a Câmara dos Vereadores (CMFor) toma a iniciativa de transferir a sede do
poder Legislativo para o Centro da cidade, onde nasceu a capital. Funcionando
em várias ruas do Centro até a década de 1970, a CMFor seguiu para o Meirelles,
depois para o bairro Luciana Cavalcante, onde funciona atualmente. Será, então,
um retorno ao seu local de origem.
É uma iniciativa que pretende contribuir com
o que se convencionou chamar de "revitalização" de uma área
relevante, economicamente e pela sua história, porém degradada, apesar dos
recorrentes discursos pela sua recuperação.
O assunto é muito discutido, porém, na
prática, as iniciativas são esparsas e sem conexão entre elas, mesmo
reconhecendo a importância de alguns novos equipamentos, como a Estação das
Artes. Esse debate está em pauta há décadas, remontando ao século passado, por
vezes com mais intensidade, em outros momentos adormecido, voltando à tona
quando algum estímulo desperta a polêmica.
Isso leva à pergunta: o que foi feito do
Fortaleza 2040, uma proposta de planejamento de longo prazo para a cidade que,
por óbvio, incluía o Centro da capital? Lançado em 2016, na administração do
ex-prefeito Roberto Cláudio (2013-2020), o plano pouco andou nas gestões
subsequentes.
Ao anunciar a mudança, o presidente da CMFor,
Leo Couto (PSB), afirmou que a obra será custeada com recursos próprios do
legislativo municipal, sem informar em quanto a obra está orçada. O prédio será
construído no local onde antes se alojava o antigo Mucuripe Club, nas cercanias
do edifício da Receita Estadual.
Segundo Couto, a escolha do Centro
"reforça o compromisso da Câmara com a democratização do acesso aos
serviços públicos". Segundo ele, pela região transitam diariamente mais de
160 mil pessoas, às quais serão somados mais de mil funcionários da CMFor, além
das pessoas que buscam serviços públicos oferecidos pela Câmara, que terão mais
facilidade de deslocamento, citando as mais de 100 linhas de ônibus que passam
pela região.
Por fim, Leo Couto disse que devolver a
Câmara ao Centro da cidade é um "resgate histórico e cultural", além
de resolver problemas estruturais que hoje afetam a sede do poder legislativo.
Em resumo, pode-se dizer que a iniciativa da
Câmara dos Vereadores é bem-vinda, porém, insuficiente. É preciso ir além, com
planejamento integrado, que considere, entre outros objetivos, os aspectos
urbanísticos, sociais, histórico e de mobilidade da região.
Caso contrário, continuarão os remendos
pontuais, que podem amenizar algumas mazelas, sem resolver a questão principal,
que é a recuperação do Centro da cidade como um local para a integração da
população fortalezense e um incentivo para o turismo cultural.
Plano Diretor, planejamentos de longo prazo,
são inúteis servirem apenas para efeito de propaganda em dias de festa. É
necessário haver disposição para torná-los realidade.

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