segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Mundo vive ‘momento Groenlândia’, por Demétrio Magnoli

O Globo

O presidente dos Estados Unidos alveja os três paradigmas da ordem do Pós-Guerra

“Mais de 80 anos após o início da construção, a ordem internacional pós-1945 liderada pelos Estados Unidos encontra-se, agora, sob demolição.” O diagnóstico é do Relatório de Segurança de Munique, texto-base para a conferência que reúne, desde 1963, autoridades e especialistas de mais de 70 países. O mais destacado “demolidor”, de acordo com o relatório, não é Xi Jinping ou Vladimir Putin, mas Donald Trump.

O presidente dos Estados Unidos alveja os três paradigmas da ordem do Pós-Guerra: a segurança baseada em instituições multilaterais, a paz amparada na integração econômica e a descrição dos direitos humanos como ativo estratégico. Debatia-se, uma década atrás, se a China transformara-se em “potência insatisfeita”, engajada na contestação da Pax Americana. Hoje, poucos duvidam que a principal “potência insatisfeita” são os Estados Unidos. China e Rússia operam em meio às ruínas que se acumulam no rastro de Trump.

Na Conferência de Munique do ano passado, J.D. Vance anunciou a cisão dos Estados Unidos com seus aliados europeus. Seu discurso apontou o “apagamento civilizacional” da Europa, que só poderia ser contido pela hipotética ascensão ao poder dos partidos da direita nacionalista alinhados a Trump. Depois daquele choque retórico, Washington aplicou tarifas contra Europa e Canadá, ofereceu apoio às exigências de Putin de capitulação da Ucrânia e, finalmente, ameaçou anexar a Groenlândia.

Desde 1945, a segurança europeia repousa sobre a aliança militar com os Estados Unidos. O Artigo 5º da Otan materializa o compromisso de defesa comum contra uma agressão estrangeira. No papel, a promessa persiste; na prática, foi envenenada pelo ácido da desconfiança. Segundo o relatório, as ações do governo americano conduzem a “um mundo esculpido por acordos transacionais, no lugar de cooperação em torno de princípios”. De olho na Ucrânia, Putin identificou em Trump um proverbial “idiota útil”, na expressão celebrizada por Lênin. A China, de olho em Taiwan, pressente uma oportunidade histórica.

O “demolidor” acendeu as luzes de alarme no Velho Mundo. O francês Macron concedeu entrevista de alto perfil declarando um “estado de emergência europeu”. A Europa descobre-se sob duplo assédio: de um lado, as tarifas de Trump; de outro, uma invasão de bens baratos oriundos da China. Tudo isso, na hora de uma aventura militar russa que, diante da traição de Washington, poderia estender seus tentáculos aos países bálticos e à Polônia. A saída imaginada por Macron é usar o “momento Groenlândia” para impulsionar a União Europeia (UE) à condição de potência geopolítica global. A UE é uma potência financeira e comercial. Segundo a receita francesa, seria preciso mobilizar seus recursos econômicos, por meio de emissão de dívida conjunta, numa ambiciosa modernização industrial e tecnológica.

O projeto envolveria pesados investimentos em inteligência artificial e computação quântica. Nos últimos anos, a Europa trocou a dependência do gás natural russo pela do gás liquefeito americano. O esforço abrangeria a aceleração da transição energética destinada a atenuar a dependência externa. A Otan converteu-se em incerteza perene. Os europeus teriam de financiar uma indústria de guerra autônoma e criar mecanismos de defesa comum.

Desde os tempos de De Gaulle, a França nutre a ideia de uma Europa mais autônoma diante dos Estados Unidos no plano geopolítico — e, claro, sob liderança francesa. O obstáculo de fundo está na própria natureza da UE, que não é um Estado e nasceu para perpetuar a paz. A Europa é de Vênus, não de Marte — mas, ante a “demolição” da Pax Americana, precisa abraçar o deus da guerra.

Há, ainda, um obstáculo conjuntural. O Macron que conclama à ação é um presidente impopular, às voltas com a oposição ascendente de um partido da direita nacionalista atraído por Trump e Putin. Mais: na Alemanha, parceiro indispensável, o governo de Friedrich Merz também rema contra a corrente da opinião pública. Macron qualifica o governo Trump como “abertamente hostil” à Europa e engajado no “desmembramento” da UE. Entre a constatação e a solução, porém, estende-se um largo abismo.

 

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