Reprovação a Lula traduz deficiências de seu governo
O Globo
Saúde e segurança são as duas maiores
angústias responsáveis pela insatisfação da população
A pesquisa Quaest divulgada
nesta quarta-feira mostra que a reprovação ao presidente Luiz Inácio Lula da
Silva supera 60% nos três maiores colégios eleitorais do país, São Paulo, Minas
Gerais e Rio de Janeiro. Nos oito estados pesquisados, violência e saúde são as
maiores preocupações. A violência é o maior problema para moradores de São
Paulo, Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco. A saúde é o que mais aflige cidadãos
de Minas, Paraná, Rio Grande do Sul e Goiás. Trata-se de mais um recado para
Lula. Em ambos os temas, o governo federal não tem conseguido dar respostas
minimamente satisfatórias à angústia dos brasileiros.
Na segurança, os sinais de que a situação saiu de controle estão por toda parte. Porções significativas do território são dominadas por organizações criminosas que achacam moradores, cobram taxas por serviços essenciais, impõem leis marciais e têm a audácia de impedir a entrada do Estado em seus domínios, como mostram as barricadas na entrada de comunidades do Rio. Facções do Sudeste, como a paulista Primeiro Comando da Capital (PCC) ou a fluminense Comando Vermelho (CV), atuam em diferentes regiões do país e até no exterior, disseminando a violência. O problema não é novo, mas precisa ser enfrentado.
Disputas sangrentas entre traficantes ou
milicianos se traduzem em assassinatos, tiroteios, balas perdidas, prejuízos a
aulas e serviços de saúde, quando não em ataques a ônibus e prédios públicos.
Nas ruas das metrópoles brasileiras, cidadãos andam com medo, em meio à
explosão de furtos e roubos, muitas vezes com desfecho trágico. É óbvio que
tudo isso afeta a percepção sobre o governo.
Diante do poder assustador que ganharam as
organizações criminosas, os estados não conseguem combatê-las sozinhos. O ônus
recai também sobre a esfera federal. É verdade que o Ministério da Justiça
elaborou uma Proposta de Emenda à Constituição sensata para a área de
segurança, prevendo maior participação federal e melhor integração entre as
forças da lei. Mas lá se vão dois anos de mandato, e até agora tudo o que
existe é uma proposta que enfrenta dificuldades para avançar.
Na saúde, a situação também é deficiente. O
próprio Lula passou recibo, ao demitir a ministra Nísia Trindade. Embora
motivos políticos tenham influenciado a decisão, são indisfarçáveis os
problemas. Na gestão Jair Bolsonaro, a saúde errática foi alvo preferencial dos
petistas. Mas o governo que assumiu vacilou na logística de vacinação, comprou
produtos desatualizados, jogou no lixo frascos com validade expirada, hesitou
diante da crise dos hospitais federais do Rio e fracassou diante da maior
epidemia de dengue já registrada, responsável por 6,6 milhões de casos e 6.230
mortes no ano passado. Não se sabe se o novo ministro, Alexandre Padilha, chega
ao ministério para resolver as mazelas da pasta ou apenas para atender aos
desígnios de Lula, que parece encarar todas as deficiências de seu governo
apenas como “problema de comunicação”.
A realidade das ruas é outra, como mostra a
pesquisa Quaest. O cidadão que pena nas filas do SUS para conseguir consulta,
exame ou cirurgia, que enfrenta a alta dos preços na feira e no supermercado ou
que é obrigado a entregar o celular ao ladrão, muitas vezes sob a mira de uma
arma, já se cansou. O receituário de Lula podia convencê-lo há 20 anos, mas não
convence mais.
Melhora na vacinação ainda é insuficiente
para proteger população
O Globo
Em 2024, houve avanço, mas meta de cobertura
foi atingida para apenas 3 das 19 vacinas do calendário infantil
É urgente o Brasil melhorar seus indicadores
de vacinação. Em 2024, a meta de cobertura foi atingida em apenas 3 das 19
vacinas no calendário infantil, segundo o Ministério
da Saúde — BCG (tuberculose), tríplice viral (sarampo, caxumba e
rubéola) e reforço de poliomielite. Não se trata de recomeçar do zero. De
janeiro a novembro, houve aumento da cobertura em 15 vacinas do calendário.
Para 12 delas, uma fração maior da população foi vacinada em 11 meses que em
todo o ano de 2023. Na tríplice viral, a meta da segunda dose foi alcançada em
2.408 municípios, aumento de 180% na comparação com 2022. Na oral contra pólio,
o salto foi de 93%. Mesmo assim, como disse ao GLOBO Isabella Ballalai,
diretora da Sociedade
Brasileira de Imunizações (SBIm), é necessário atingir a meta de
cobertura vacinal em todas, do contrário os vírus e agentes patológicos
continuarão a apresentar risco.
No caso brasileiro, a hesitação vacinal,
resultado da proliferação de desinformação nas redes sociais, nem é o maior
problema. Nove de dez brasileiros dizem acreditar que as vacinas “são muito
importantes”, de acordo com pesquisa do Conselho Nacional do Ministério
Público, da Universidade de Santo Amaro e do Instituto de Pesquisas Sociais,
Políticas e Econômicas. Mesmo assim, no levantamento, um quarto dos
entrevistados diz não confiar em imunizantes. Isso prova a necessidade de
ampliar as campanhas de esclarecimento. Somente 46% dos entrevistados dizem
estar “bem informados” sobre o calendário de vacinas.
A maior dificuldade num país de dimensões
continentais está na logística. Mesmo quando as vacinas chegam aos postos de
saúde, é comum ficarem lá, à espera de quem queira se vacinar. É preciso criar
mecanismos para levá-las até a população. Escolas são fundamentais para ampliar
a cobertura, segundo Eder Gatti, presidente do Programa Nacional de Imunizações
(PNI), do Ministério da Saúde. “Esperamos atividades pedagógicas de vacinação e
o ambiente escolar para promover a vacinação”, diz ele. “Uma estratégia como
essa é importante porque pega a faixa etária jovem, que normalmente não
frequenta as unidades básicas de saúde.” Entre abril e maio, segundo o governo,
crianças e adolescentes menores de 15 anos matriculados em escolas serão
vacinados em todo o país.
À medida que as coberturas vão chegando perto
das metas, as três esferas de governo precisam intensificar a ação nos
municípios atrasados. A maioria dos estados contém bolsões de não vacinados. Os
governadores devem aumentar a pressão sobre os retardatários. Mesmo em
municípios com índices crescentes de vacinação, deve haver vacina em
locais de grande circulação e busca ativa por quem ainda não foi imunizado. A
ciência ainda é incapaz de prevenir ou curar diversas doenças que levam à
morte. Naquelas em que já existe solução, é um contrassenso não se proteger.
Erros em série desgastam imagem do governo
Lula
Valor Econômico
Amadorismo e desorganização, tanto quanto a parolagem de Lula - que desdenha ajustes fiscais, ajudando a elevar a inflação, dólar e juros -, mostram um governo desorientado e desconexo
No terceiro mandato de Lula, crises que
poderiam ser evitadas prosperam sem parar. A experiência acumulada parece ter
sido esquecida e substituída por amadorismo para enfrentar com rapidez
problemas contornáveis. Eles agora formaram uma sequência destrutiva que está
arruinando a imagem do governo Lula. Há uma política econômica equivocada na
raiz de boa parte dos desatinos, mas dela não decorre necessariamente a série
de erros cometidos pelos burocratas escolhidos pelo presidente. A inflação dos
alimentos e a suspensão das taxas de equalização do Plano Safra 24/25 são o
pandemônio do momento. As filas de pedidos de aposentadoria no INSS, que se
aproximam de 2 milhões e do recorde da gestão de Jair Bolsonaro, podem ser o
próximo.
O caso do Pix foi um marco nas desventuras em
série que afligem o governo. A iniciativa correta da Receita, de estender a
vigilância já exercida nas transações junto a instituições financeiras às do
Pix, muito mais ágeis, foi anunciada em setembro, para vigorar em 1º de
janeiro. Pela instrução normativa 2.219, movimentações acima de R$ 5 mil por
mês nas operações com Pix deveriam ser notificadas à Receita, no caso de
pessoas físicas, e de R$ 15 mil, no de pessoas jurídicas.
Não houve grandes explicações sobre a
instrução, mas deveria haver. O Pix se tornou a principal forma de movimentação
de dinheiro do cotidiano dos consumidores e a principal porta de bancarização
da imensa maioria sem conta corrente. Em 2024, as transações com Pix
movimentaram R$ 26,4 trilhões, segundo o Banco Central.
No vácuo da falta de esclarecimentos
oficiais, prosperaram os interesses da oposição em desgastar o governo com fake
news de que as novas regras nada mais eram que o preâmbulo para uma taxação em
grande estilo do Pix, a ser acompanhado de minuciosa bisbilhotagem da Receita
sobre a renda de todos que o utilizavam.
O governo acordou tarde diante de um
turbilhão e o presidente Lula consertou o estrago com outro: revogou a
instrução, defendida pelo ministro da Fazenda. O novo regime fiscal, no qual o
aumento das despesas depende do avanço da arrecadação, e várias medidas fiscais
já tomadas compuseram um ambiente que tornou plausível atribuir ao Planalto uma
intenção inexistente. Mas a vigilância fazia sentido e fará falta.
Em seguida vieram as pesquisas constatando
derrocada expressiva da popularidade de Lula e seu governo, principalmente
entre seu eleitorado mais fiel: o do Nordeste e o de baixa renda. O governo
descobriu então que a inflação dos alimentos, que correu à frente dos salários,
havia feito um grande rombo em seu prestígio.
Lula contratou um marqueteiro, mas a situação
exigia decisões e ações políticas sensatas. A alta dos preços dos alimentos foi
maior no governo Bolsonaro. O ministro da Casa Civil, Rui Costa, que deveria
organizar a reação política a uma questão real, improvisou resposta
estapafúrdia, que trouxe mais preocupações. Falou que o governo faria
“intervenções” no mercado, lembrando os piores momentos da hiperinflação no
Brasil. Lula convocou reuniões interministeriais que consumiram horas e nada
decidiram.
No curto prazo, há pouca coisa a fazer para
consertar os efeitos nocivos já manifestos de um clima hostil na safra passada,
com redução de oferta de alimentos e elevação dos preços das commodities que,
dolarizadas, causaram ainda mais inflação após a disparada da moeda americana -
alimentada pela desconfiança sobre a fragilidade da situação fiscal e pela
política de crescimento a qualquer custo de Lula. Mas, na falta de explicação
para a alta dos preços, a oposição explorou o contraste entre as bravatas do presidente
no passado e realidade presente dos preços altos da carne.
Em meio ao desgaste com a inflação dos
alimentos, o Tesouro enviou ofício aos bancos suspendendo novos contratos com
crédito subsidiado no Plano Safra 24-25 - a equalização dos juros, pela qual o
produtor paga taxa menor que a de mercado e a União entra com a diferença. De
novo, estupefação na burocracia federal, pega de surpresa, e reação imediata do
agronegócio, cuja simpatia pelo governo Lula é nula.
O Tesouro foi obrigado a fazer o que fez
porque o Congresso não votou o projeto de lei orçamentária de 2025 no ano
passado, como deveria. A reação do governo deveria ser a de comunicar aos
líderes do Congresso e à bancada ruralista que a omissão dos parlamentares está
prejudicando a agricultura e que a lei exigia que se interrompessem os
créditos. Mas a responsabilidade recaiu sobre o governo, quando era claramente
do Congresso. O orçamento só será votado na metade de março.
O papel de desarmar crises compete antes à Casa Civil, que parece menos interessada nisso do que em procurar impedir que a equipe econômica coloque em ordem as contas públicas. Amadorismo e desorganização, tanto quanto a parolagem de Lula - que desdenha ajustes fiscais, ajudando a elevar a inflação, dólar e juros -, mostraram um governo desorientado e desconexo. Criaram uma armadilha insólita: mesmo quando acerta, o governo erra.
Ministério da Saúde precisa correr atrás do
prejuízo
Folha de S. Paulo
Nísia cai após erros de gestão e fritura
promovida até por Lula, que busca melhor popularidade com reforma nas pastas
Luiz Inácio Lula da Silva
(PT)
demitiu Nísia
Trindade, agora ex-ministra da Saúde. Mesmo que
a pasta tenha cometido erros de gestão, a longa demora na exoneração —que a
deixou exposta a críticas públicas de congressistas e até do presidente— denota
não apenas pouco caso do petista, mas um governo atabalhoado.
Após o desastre sob Jair
Bolsonaro (PL),
a chegada de Nísia foi bem recebida por ser um nome técnico com credibilidade.
Formada em ciências sociais pela UERJ, suas
pesquisas abordam a relação entre ciência, saúde e desigualdades. Em 2017, foi
a primeira mulher a presidir a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), posto
que ocupou até 2022.
No entanto, em quase 14 meses de ministério,
não conseguiu deixar uma marca, melhorar de modo significativo indicadores
do SUS,
como filas para consultas e cirurgia eletivas, nem enfrentar de forma eficaz a
tragédia anunciada da epidemia de dengue.
Em 2024, mais pessoas morreram pela doença no
país (5.873) do que a soma dos oito anos anteriores (4.992). Em dois alertas no
início de 2023, a Organização Mundial da Saúde (OMS) havia
projetado os riscos de crise sanitária em regiões como a América do Sul devido
às mudanças climáticas.
Contudo o Ministério
da Saúde não preparou a rede básica de atendimento e protelou
a autorização para a vacina Qdenga. Nísia foi demitida justamente no dia em
que anunciou um acordo para a produção do imunizante do Instituto Butantan.
A calamidade da dengue foi usada
por parlamentares para tentar avançar sobre a pasta, que movimenta verba
gigantesca —a saúde pública consome 4% do PIB brasileiro, o que representa mais
de R$ 450 bilhões por ano.
Com a hipertrofia do Congresso
Nacional nos últimos anos, que gera anomalias como o uso opaco das
famigeradas emendas, aumenta a pressão sobre o Executivo por nacos do poder.
Isso somado à queda de popularidade de Lula
pavimentou o caminho para uma reforma ministerial, iniciada com a troca
de Paulo
Pimenta na Secom da presidência por Sidônio
Palmeira. Especula-se que o vice Geraldo
Alckmin (PSB)
também cairá da pasta de Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços para
dar mais espaço ao centrão.
Quem ocupará o lugar de Nísia é Alexandre
Padilha, que comandou
a pasta da Saúde de Dilma Rousseff (PT) e é ministro de Relações
Institucionais. Sua principal marca foi o Programa Mais Médicos, que teve
impacto limitado nos resultados almejados.
Por óbvio, disputas por poder e acordos com o
Congresso fazem parte, para o bem e para o mal, do presidencialismo de
coalização tradicional no Brasil.
Espera-se, porém, que Lula não pense só na
governabilidade e, sobretudo, na sua popularidade e na eleição de 2026 —ainda
mais em áreas essenciais. Que a busca por resolver os problemas crônicos do
país, missão para a qual foi eleito, seja priorizada na reforma.
Denúncias graves contra Bolsonaro antecipam
2026
Folha de S. Paulo
Ex-presidente tenta manter-se no páreo, mas
estratégia não convém a candidatos da direita, que precisarão se posicionar
No plano jurídico, o futuro de Jair
Bolsonaro (PL), denunciado
por tentativa de golpe de Estado e outros crimes, é extremamente difícil.
Tão difícil que o ex-mandatário vem privilegiando o front político.
A exemplo do que já fizeram Lula e Donald
Trump, ele se declara vítima de perseguição e afirma que é candidatíssimo em
2026. Busca assim desqualificar tanto as acusações criminais como a
inelegibilidade já decretada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Ao insistir nesse caminho, Bolsonaro antecipa
a campanha presidencial de 2026 e obriga aliados que poderiam substituí-lo como
candidato a se posicionarem.
O menos bolsonarista dos postulantes desse
campo, o governador Ronaldo
Caiado (União Brasil-GO),
parece apostar no rompimento. Já disse que vai lançar-se pré-candidato logo, o
que irritou o núcleo do ex-presidente.
Os outros dois potenciais candidatos mais
"mainstream", os governadores de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo),
e de São
Paulo, Tarcísio
de Freitas (Republicanos), optaram por permanecer fiéis à causa
bolsonarista, defendendo o representante do PL.
Zema ainda deixou entreaberta uma porta de
saída. Disse que a Justiça é pródiga em condenar e descondenar ao sabor do
momento, mas
acrescentou não ser jurista. Tarcísio, até por ser uma invenção política de
Bolsonaro, foi bem mais enfático. Classificou a denúncia como
"forçação de barra" e "revanchismo".
A estratégia de Bolsonaro lhe convém, mas não
interessa necessariamente ao campo conservador. Diante da impressionante erosão
da popularidade de Lula, a direita deve chegar a 2026 com boas chances de
vitória.
E, se Bolsonaro, na improvável hipótese de
livrar-se dos enroscos jurídicos e da inelegibilidade, é o concorrente que tem
vantagem na saída, conta, para a chegada, com altíssima rejeição. Uma figura
menos controversa tenderia a sair-se melhor com os eleitores moderados, que
poderão ser os fiéis da balança na disputa.
É aí que os cronogramas de Bolsonaro e dos
demais potenciais postulantes começam a divergir. Se ao ex-mandatário interessa
fingir que estará na disputa até o último instante, os governadores precisam de
uma definição no mais tardar seis meses antes do pleito, quando vence o prazo
de desincompatibilização.
Será uma espécie de hora da verdade. Bolsonaro terá de optar entre seus interesses pessoais e os do campo conservador; Zema e Tarcísio terão de definir se querem mesmo concorrer e se estão dispostos a finalmente romper com o ex-presidente.
Mais um bode expiatório de Lula
O Estado de S. Paulo
Nísia foi demitida da Saúde por um presidente
que desde sempre joga suas falhas nos ombros alheios. Num governo sem rumo e
sem projeto de país, nem o mais competente ministro terá sucesso
O presidente Lula da Silva recorreu à
prerrogativa do cargo e anunciou a troca de comando no Ministério da Saúde,
demitindo a ministra Nísia Trindade e nomeando para substituí-la o hoje
ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha. Mas tão inconteste
quanto a prerrogativa presidencial de mudar ministros quando bem entender é a
confirmação do método a que o petista recorre no manejo de suas funções. Que
não haja dúvida: Nísia é o bode expiatório da vez, escolhida por um presidente
habituado a jogar suas falhas em ombros alheios.
Fizesse ou não o possível e o desejável,
Nísia não conseguiria satisfazer o que dela se esperava – porque, afinal, nem o
próprio Lula saberia dizer o que dela esperar. A despeito dos muitos problemas
e eventuais acertos no período, o pecado original não está, portanto, na Saúde,
mas no Palácio do Planalto e atende por um nome: Lula da Silva, o presidente
que não tem a mais pálida ideia do que cobrar de seus ministros que não sejam
apelos fáceis de curtíssimo prazo e eficácia duvidosa para o País. Não há outra
obsessão em sua mente hoje senão encontrar uma providencial “marca”, capaz de
amenizar o desconforto nacional com o seu mandato e assegurar-lhe dividendos em
2026. Como não a encontra, a reforma ministerial foi incluída no rol de
soluções para superar a inépcia da qual ele é o maior culpado.
Na teoria lulocêntrica de poder –
autorreferente e fiel apenas a si mesma –, o mundo ao redor será sempre menor
do que o ego de Lula. Razão pela qual o demiurgo petista não só submete seus
auxiliares a situações vexatórias, como deixa correr os boatos sobre sua
insatisfação com o desempenho dos ministros. Foi assim ao creditar os problemas
do governo às falhas da comunicação, dirigida por Paulo Pimenta até sua
substituição por Sidônio Palmeira após meses de fritura pública. A descortesia
já havia sido exposta em 2023, quando Lula demitiu a ex-atleta Ana Moser do
Ministério do Esporte, trocando-a pelo deputado André Fufuca (PP-MA), que
trouxe consigo a promessa de votos do Centrão.
O bode expiatório não está sozinho. Fernando
Haddad tem sua autoridade de ministro da Fazenda frequentemente desautorizada
pelo chefe e pela ala petista avessa a qualquer responsabilidade na gestão das
contas públicas. Marina Silva só tem sua voz ouvida quando o presidente precisa
exercer seu sonhado papel de líder global na defesa do planeta. As falhas da
articulação política são direcionadas aos ministros da área, como se ao
presidente não coubesse liderar e apontar com clareza o que deseja de prioritário
no Congresso. Um governo sem rumo e um presidente impopular levam a uma gestão
que atira para todos os lados, de forma tão aleatória quanto ineficaz em busca
da gratidão popular perdida.
Nísia Trindade é vítima desses tiros. Sua
gestão foi decerto marcada por polêmicas e altos e baixos. Após anos de
negacionismo bolsonarista, trabalhou para recompor o Programa Nacional de
Imunizações e os patamares de vacinação, mas deixou sequelas com os estoques de
vacinas da covid-19 com validade vencida. Recompôs programas desmontados, mas
não soube lidar com o apetite parlamentar sobre as bilionárias verbas da pasta.
Formulou e começou a implementar um programa prioritário de nome pouco
marqueteiro – Mais Acesso a Especialistas – e de resultados de longo prazo, mas
foi atropelada por um presidente com pressa incontrolável.
Mas se há muitas razões para a queda,
inclusive sua inaptidão para a marquetagem, uma delas é claramente política. Ao
deslocar Alexandre Padilha para a Saúde, Lula abre espaço para uma troca na
área que trata de um vespeiro, isto é, a difícil relação do governo com o
Congresso. Na conjugação entre acertos e desacertos, porém, a ministra não
merecia a forma como foi demitida, exposta no noticiário por gente próxima ao
presidente, que a carimbou como incompetente – como se fosse dela a culpa pela
queda na popularidade do governo.
Para sorte de Lula, as vítimas de suas
dispensas humilhantes retribuem a indelicadeza com elegância. Ao falar sobre a
demissão, Nísia escolheu indevidamente a imprensa, e não o presidente e seus
sabujos palacianos, como culpada pela sua fritura pública – sinal de cuidado
com o chefe, mas um evidente disparate de quem foi atirada aos leões pela
covardia de quem a escolheu.
Calor, novo obstáculo à educação
O Estado de S. Paulo
Com escolas públicas despreparadas para
enfrentar calor extremo, é hora de adaptá-las emergencialmente, ou o País mais
uma vez condenará alunos a retroceder numa aprendizagem já falha
A onda de calor que fez os termômetros
ultrapassarem 40ºC em diversas regiões do País há alguns dias escancarou uma
realidade de cuja importância poucos se deram conta até aqui: o despreparo das
escolas públicas para enfrentar as altas temperaturas. O fato de muitas escolas
padecerem de estrutura ruim já seria problemático em tempos normais, mas se
torna mais dramático diante do novo normal decorrente das mudanças no clima.
Instalações com pouca circulação de ar, sem ar-condicionado e com rede elétrica
precária, salas superlotadas, ventiladores quebrados, quadras poliesportivas
sem cobertura e falta d’água são incompatíveis com o calor excessivo do
presente e do futuro. Como escreveu a jornalista Renata Cafardo neste jornal,
“o aquecimento global já impacta a educação hoje e agora” e “não há mais como
enfrentar a crise de aprendizagem no País ignorando a crise climática”.
Não mesmo. Recentemente, no Rio Grande do
Sul, a Justiça impediu a volta às aulas porque as temperaturas chegariam a
43ºC, num Estado que já precisou fechar as portas de suas escolas em razão das
enchentes do ano passado. No Rio de Janeiro, alunos, professores e funcionários
de escolas públicas fizeram protestos contra as más condições. Com 200 entre
1.234 unidades de ensino no Estado sem climatização, o governo fluminense
autorizou escolas a reduzir à metade a carga horária presencial durante a onda
de calor. Relatos de crianças passando mal e se ausentando das aulas foram
vistos e ouvidos em diferentes regiões, inclusive na capital paulista e em
cidades do litoral norte do Estado.
Os relatos foram traduzidos em números pelos
recentes dados do Censo Escolar, do Ministério da Educação, tabulados pelo
Centro de Inovação para a Excelência em Políticas Públicas (Ciepp). Neles se
constatou, por exemplo, que só uma em cada três salas de aula de escolas
públicas é climatizada. São Paulo é a cidade com os piores índices de
climatização do País. Manaus, a melhor. Com uma ressalva: o índice registrado,
de 33%, é puxado positivamente pelos Estados do Norte e do Nordeste, mais
acostumados com períodos de calor excessivo.
Outra pesquisa, do Instituto Alana e do
MapBiomas, mostra que seis em cada dez escolas brasileiras estão localizadas em
ilhas de calor. Em um terço das capitais, pelo menos metade das escolas –
públicas ou particulares – ficam em locais que apresentam desvios de
temperatura considerados altos, pois registram pelo menos 3,5ºC a mais de
temperatura de superfície em seu território do que a média urbana. Isso afeta a
vida e a aprendizagem de cerca de 2,5 milhões de crianças e adolescentes. A
falta de vegetação e a urbanização desenfreada são fatores que contribuem para
essa situação: 78% das escolas mais quentes não têm área verde no lote ou têm
menos de 20% de cobertura vegetal.
São números e relatos que emitem um grito de
alerta em escala nacional. Estudos demonstram que o calor extremo compromete a
saúde e a capacidade cognitiva dos alunos, afeta o desenvolvimento do corpo e
do cérebro de crianças e prejudica a aprendizagem pelo impacto sobre o
raciocínio e a memória. Com efeito, trata-se menos de colocar o dedo em riste
para o que não se fez até aqui e mais de direcionar esforços para responder às
exigências do novo clima. Em áreas como a cidade de São Paulo, por exemplo, conforto
térmico nunca pareceu ser exatamente um problema a resolver. Eram outros
tempos.
É o momento agora de descobrir se o País de
fato aprendeu com as lições deixadas pela pandemia de covid-19, quando impôs a
milhões de crianças e adolescentes um dos mais longos períodos de escolas
fechadas em todo o mundo. Não é possível esperarmos a construção ou reforma das
escolas com base nas recomendações mais atualizadas de ventilação e com
soluções baseadas na natureza, capazes de garantir conforto térmico. Há uma
urgência em curso e ela passa por uma solução que, mesmo não sendo a ideal, é a
possível num estado de emergência: a instalação de equipamentos de
ar-condicionado.
A essa tarefa estão convocados, desde já, o
governo federal, governos estaduais e prefeituras. O custo social, nesse caso,
será inquestionavelmente maior que o custo financeiro dessa adaptação. Ou mais
uma vez condenaremos estudantes a ficar sem aulas presenciais e retroceder numa
aprendizagem já deficiente.
O preço do dinheiro fácil
O Estado de S. Paulo
Liberação de FGTS e novas modalidades de
crédito dificultam ainda mais a missão do BC
Preocupado com a perda de popularidade, o
presidente Lula da Silva editará uma medida provisória (MP) autorizando que
trabalhadores que optaram pelo saque-aniversário do Fundo de Garantia do Tempo
de Serviço (FGTS) possam retirar o saldo remanescente do fundo em caso de
demissão. Integrantes do governo afirmaram ao Estadão/Broadcast que a
MP deve liberar algo entre R$ 10 bilhões e R$ 13 bilhões na economia.
Instituída pela Lei 13.932, de 2019, no
governo de Jair Bolsonaro, a modalidade saque-aniversário permite o resgate
anual de parte do saldo do fundo, mas, se for demitido sem justa causa, o
trabalhador fica impedido de retirar o saldo não sacado. Defensor ardoroso do
fim do saque-aniversário, o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, teve de recuar
de seus planos iniciais, dado que a modalidade caiu no gosto popular.
Nada mais justo que trabalhadores tenham
acesso aos recursos que acumulam de forma compulsória no FGTS. Mas a celeuma em
torno do saque-aniversário é apenas o sintoma de uma enfermidade que acomete as
gestões petistas: o estímulo ao crédito para acelerar a economia. O presidente
tem reiterado que vem aí o “maior programa de crédito do País”, em alusão a uma
nova modalidade de consignado privado com juros mais baixos, o famoso barato
que sai caro.
Embora Lula da Silva queira fazer o
brasileiro consumir, tudo o que o Brasil não necessita neste momento é de
medidas de caráter pró-cíclico. Se o País estivesse atravessando uma crise, tal
qual como ocorreu à época da pandemia de covid-19 ou, antes, em 2008, quando
problemas no mercado imobiliário dos Estados Unidos arrastaram o mundo para uma
das piores recessões já vistas, medidas de estímulo ao crédito teriam sua razão
de ser.
Mas não é esse o caso. A economia brasileira
está aquecida, o desemprego está em níveis historicamente baixos e os juros
estão acima de dois dígitos justamente para mitigar a inflação. Nesse contexto,
o Banco Central parece ser o único ator comprometido com o combate à inflação,
que não cede porque o governo é movido à gastança.
A gestão Lula da Silva agora quer dificultar
ainda mais a já difícil missão do Comitê de Política Monetária (Copom). Ao
optar por mais crédito e injetar dinheiro na economia liberando FGTS, o governo
acaba por garantir que a Selic, que já se encontra em patamar elevado,
permaneça acima de dois dígitos por tempo prolongado. Ao contrário do que
proclamou Lula recentemente, nem a macroeconomia é uma “bobagem”, nem a ilusão
do dinheiro fácil salvará os pobres.
Mas Lula é teimoso, razão pela qual os preços
continuarão sua trajetória de alta e a população vai se endividar mais, como
acontece sempre que o PT aplica suas teorias econômicas. Enquanto isso, os
juros altos, que lá estão porque o governo detesta austeridade, vão garantir
que a relação dívida/PIB, que encerrou 2024 em 76,1%, seguirá subindo.
Pode até ser que, no curtíssimo prazo, a festança do crédito barato e da liberação do FGTS renda alguma simpatia popular para este combalido governo, mas o custo disso será muito alto para o País.
Faltou decoro na troca de Nísia
Correio Braziliense
Nísia foi alvo de um longo e desnecessário
processo de fritura, costurado por aliados e reportado pela imprensa. A
dinâmica se assemelha à substituição de outras mulheres do primeiro escalão do
governo Lula
Durante o evento de sanção da lei do Mais
Médicos, em julho de 2023, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi
categórico ao avisar aos interessados em mexer no comando do Ministério da
Saúde: "Tem pessoas e funções que são uma coisa da escolha pessoal do
presidente da República. Eu já disse publicamente: a Nísia não é ministra do
Brasil, ela é minha ministra".
Nesta terça-feira, cerca de um ano e meio
depois, também em um evento para anunciar políticas da pasta — desta vez, uma
vacina contra a dengue 100% nacional —, não faltou demonstração de estima à
Nísia Trindade. Mas vinda de outra frente. A ministra foi ovacionada por
servidores da pasta presentes no salão do Palácio do Planalto e, com voz
trêmula, fez um discurso com tom de despedida. Lula ficou em silêncio. Horas
depois da cerimônia constrangedora, a demissão foi anunciada.
Na nota oficial que chancelou a troca por
Alexandre Padilha, titular da Relações Institucionais, a partir de 6 de março,
o chefe do Executivo "agradeceu à ministra pelo trabalho e dedicação à
frente do ministério". Ontem, Nísia afirmou que processos de substituição
"fazem parte da vivência de qualquer governo" e criticou a imprensa
por "antecipar decisões que cabem ao presidente".
É, de fato, prerrogativa de qualquer gestor
público, sobretudo de um presidente da República, que mantenha sua equipe
condizente com as demandas do momento, ou com as dimensões técnico-políticas,
nas palavras de Nísia. Da mesma forma, espera-se dos próximos uma relação de
cuidado, principalmente em situações de criticidade.
Pressionado pela queda da popularidade, Lula
passou a cobrar mais visibilidade aos feitos do governo. Com isso, a cobiça
pela pasta que tem orçamento de R$ 239,7 bilhões e capacidade de adotar medidas
facilmente percebidas pela população obviamente aumentou. É de se estranhar,
porém, o descompasso entre a declaração explícita de camaradagem em 2023 e o
silêncio na cerimônia desta terça-feira.
Nísia foi alvo de um longo e desnecessário
processo de fritura, costurado por aliados e reportado pela imprensa. A
dinâmica se assemelha à substituição de outras mulheres do primeiro escalão do
terceiro mandato de Lula — Daniela Carneiro, no Turismo, em julho de 2023; e
Ana Moser, no Esporte, em setembro do mesmo ano.
Há de se ressaltar que todas as ministras que
seguem no governo — Anielle Franco (Igualdade Racial), Cida Gonçalves
(Mulheres), Esther Dweck (Gestão e Inovação em Serviços Públicos), Luciana
Santos (Ciência, Tecnologia e Inovação), Macaé Evaristo (Direitos Humanos e
Cidadania), Margareth Menezes (Cultura), Marina Silva (Meio Ambiente e Mudança
do Clima), Simone Tebet (Planejamento) e Sônia Guajajara (dos Povos Indígenas)
— declararam, nas redes sociais, a admiração ao trabalho desempenhado por Nísia
à frente da Saúde, contrastando com o movimento de atribuir a demissão a uma
suposta incompetência da então ministra.
Fortalecimento do SUS, valorização dos
profissionais de saúde, aumento da cobertura vacinal, comprometimento com a
ciência e combate às desigualdades estão entre os feitos destacados pelas
ministras. Também destacados pelo movimento de desagravo que ganhou força logo
depois do anúncio da demissão.
Primeira mulher a chefiar a Saúde, Nísia, que tem perfil técnico, aceitou o desafio de reconstruir um setor historicamente crítico e ainda mais enfraquecido por forte desmonte promovido pela gestão anterior, de Jair Bolsonaro. Errou, acertou e, como qualquer pessoa que aceite conduzir um projeto de governo vitorioso nas urnas, está sujeita a críticas. Mas é lamentável, como já expresso neste espaço, o ataque especulativo a que foi submetida e que a reforma ministerial tenha começado sem o devido respeito que Nísia, os demais servidores da saúde e os brasileiros merecem.
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