quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

Resultado mostra que efeitos da crise do Pix continuam - César Felício

Valor Econômico

Governo está em uma espiral de aprovação popular fortemente descendente, sobretudo no Nordeste

Não é sempre que um conjunto de pesquisas com 10.442 entrevistas é divulgado, o que dimensiona o significado dos levantamentos de avaliação do governo Lula feitos pela Genial/Quaest em oito Estados e tornados públicos hoje. Das situações específicas em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul, Goiás, Pernambuco e Bahia se distingue um mosaico com desenho bastante claro: a situação é terrível para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Poderia ser ainda pior se a oposição tivesse um rumo já traçado para 2026.

O governo está em uma espiral de aprovação popular fortemente descendente, sobretudo no Nordeste, o que sugere que o desastre comunicacional em relação à fiscalização do Pix ainda não foi contornado. A crise do Pix foi o gatilho para uma ofensiva da oposição tendo como alvo a economia. Desta vez o discurso contra Lula não passou por Israel, aborto, uso de banheiros, Venezuela ou qualquer outro tema de guerra cultural. Em linhas gerais, disseram que o governo projeta um arrocho na arrecadação em meio a uma alta da inflação de alimentos.

A desaprovação ao governo Lula passou de 33% para 51% na Bahia e 33% para 50% em Pernambuco entre dezembro e janeiro. São os Estados com maior fatia de população de renda mais baixa (54% dos pernambucanos e 55% dos baianos com ganhos abaixo de dois salários mínimos por família). Em magnitude, representa uma queda de popularidade comparável à que teve Dilma Rousseff depois dos protestos de junho de 2013. Esse foi o significado do janeiro de 2025. O tumulto e as grandes manifestações se deram de acordo com os novos tempos, em silêncio, cada inconformado com seu telefone celular.

O recuo foi mais forte no Nordeste, mas não se resume a ele: a desaprovação cresceu 14 pontos em São Paulo e Goiás, e 16 pontos em Minas Gerais.

A competitividade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2026 dependerá da capacidade da oposição de construir ou não uma alternativa viável.

A alternativa principal a Lula, o ex-presidente Jair Bolsonaro , parece por ora inviável. Do ponto de vista objetivo, está inelegível e caminha para ter uma condenação criminal no Supremo Tribunal Federal. Do ponto de vista eleitoral, de acordo com a pesquisa, Bolsonaro perdeu força em relação ao desempenho que teve em 2022, quando disputou a reeleição.

Nas simulações de segundo turno feitas pela pesquisa, Lula e Bolsonaro estão empatados no Rio de Janeiro, com 41% cada. Em 2022 Bolsonaro ganhou no Estado com 13 pontos percentuais de vantagem. No Rio Grande do Sul o ex-presidente venceria Lula por 44% a 38%. Em 2022 teve uma vantagem de 12 pontos. Em São Paulo Bolsonaro venceu por dez pontos percentuais. Agora tem uma dianteira de 9 pontos.

A pesquisa testa o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), como opção para enfrentar Lula, e seu desempenho foi bom, sobretudo no Estado que governa. Abre 24 pontos percentuais em São Paulo. Tarcísio, contudo, diz que não irá concorrer. Também são avaliados o cantor Gusttavo Lima (sem partido), opção que não é levada a sério em Brasília, e o influencer Pablo Marçal (PRTB), que no momento também está inelegível por oito anos.

Os governadores de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), e de Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil), se mostraram competitivos, mas suas candidaturas não empolgam os partidos. A pesquisa não mediu intenção de voto das opções com o sobrenome Bolsonaro: o deputado Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente, e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL). Mas mediu o conhecimento, potencial de voto e rejeição de ambos. Michelle consegue índices melhores que os do ex-presidente, o que não é o caso de Eduardo.

O filho do ex-presidente tem 58% de rejeição em São Paulo e 56% em Minas Gerais, os piores entre as opções da direita. E sua taxa de desconhecimento é pequena. Eduardo é tão conhecido em São Paulo quanto Pablo Marçal e está no mesmo patamar de Gusttavo Lima em Minas Gerais.

Talvez por gozação, 7% dos goianos disseram não conhecer Lula e 13% dos baianos afirmaram desconhecer Bolsonaro. É um índice que sugere que parte dos pesquisados deliberadamente mente ao ser entrevistado

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