quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

O seguro morreu de velho - Assis Moreira

Valor Econômico

O mundo está mais perigoso. E a questão de segurança econômica ganha ainda mais relevância com Donald Trump de volta à Casa Branca

Os ocidentais se referiam sobretudo à China quando falavam até recentemente do tema. Agora, os EUA são também uma ameaça. Parceiros se inquietam com a abrupta mudança em alianças americanas, intimidações no comércio com choques tarifários, ameaças de “tomar” o Canal do Panamá e tornar o Canadá o 51º Estado americano, reivindicar o controle da Groenlândia e abocanhar metade dos minerais críticos da combalida Ucrânia em nome de interesses estratégicos.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, tirou uma rápida conclusão: “Sabemos que haverá um aumento no uso de ameaças e de ferramentas de coerção econômica, como sanções, controles de exportação e tarifas. Vimos isso novamente nos últimos dias e a rapidez com que as coisas podem se agravar”.

Nesse cenário, um bom número de países acelera a cartografia dos riscos, para adotar suas políticas de segurança econômica, uma área cada vez mais dinâmica. Em vários deles, incluindo os europeus, o grau de integração econômica com a China é levado em conta com cuidado. Existe inquietação com o excesso de capacidade industrial chinesa, mas também o reconhecimento de que custaria caro reforçar a resiliência das economias se desviando da segunda maior economia do mundo. Isso poderia reduzir a eficiência e aumentar os preços no mercado interno, como notam certos analistas.

Uma estratégia de segurança econômica é normalmente articulada em torno de diversificação de importações e de exportações para evitar dependência excessiva em relação a parceiros importantes; política de filtragem na entrada e saída de investimentos; intervenção em setores críticos financiando políticas industriais e reforçando a segurança tecnológica; medidas para desencorajar a coerção econômica e atenuar os estragos que pode causar; acesso a matérias-primas críticas; resiliência de cadeias de abastecimento; restrições nos mercados de compras públicas, por exemplo.

Na União Europeia, o tradicional comissário de Comércio agora é também comissário de Segurança Econômica. A UE faz uma revisão dos instrumentos existentes, para eventualmente criar outros visando aumentar a segurança, a competitividade e reduzir dependências.

Considera isso ainda mais importante no cenário de intensificação brutal da concorrência econômica. Uma corrida já está lançada, como destacou Von der Leyen: dos chips à inteligência artificial, do lítio ao quantum, das tecnologias limpas ao espaço, e corrida armamentista. Novas corridas continuarão a se acelerar - em tudo, desde o espaço da informação, rotas marítimas ou equipamentos militares avançados.

No Brasil, parece haver na Esplanada dos Ministérios esforços esparsos, que deveriam levar à criação de uma força-tarefa para ajudar a navegar nesse cenário de desmonte acelerado dos princípios que sustentaram a ordem global por três quartos de século.

No Congresso Nacional, um deputado da Paraíba, Murilo Galdino (Republicanos), adiantou-se com um projeto que “autoriza o Congresso Nacional, por motivo de segurança nacional, a permitir que o Brasil adote medidas imediatas de reciprocidade a país-membro que, em desacordo com as normas da Organização Mundial do Comércio, determine a elevação de tarifas de produtos brasileiros destinados à exportação”.

Depois de mais clareza sobre próximos passos nos EUA e reações de parceiros, não será surpresa se o Itamaraty e o Mdic elaborarem uma medida provisória que justamente dê base jurídica para o país retaliar contra ações unilaterais de comércio como as anunciadas por Trump, mas não exclusivamente.

Além disso, o Brasil não tem como ignorar o exame do uso de moedas locais no comércio, no sentido de criar alternativas de liquidação de transações comerciais. O dólar pode ser transformado ainda mais em arma, e sanções usadas com alcance sem precedentes.

O Brasil precisará afinar também sua estratégia sobre minerais críticos. O país tem ativos na luta mundial pelo controle desses materiais que são essenciais para muitas tecnologias modernas e para a segurança nacional e econômica: é o maior produtor mundial de nióbio, com 92% do total; produz 13% da bauxita no mundo, para produção de alumínio; 8% do grafite natural, usado para baterias e material para produção de aço; e 9% do tântalo mundial, que serve para superligas e compensadores para dispositivos eletrônicos.

Há alguns anos, os EUA insistiram em obter do Brasil exclusividade e compromisso de o país não restringir exportações dos minerais críticos, sem sucesso. Recentemente, o Congressional Research Service (CRS), que dá assistência a parlamentares americanos, observou que a política comercial dos EUA para a América Latina nos últimos anos, bem antes portanto de Trump, abandonou o foco em liberalização comercial para se concentrar mais no atendimento de preocupações de segurança nacional. Reforçar as cadeias de suprimento em setores estratégicos emergiu já há algum tempo como objetivo prioritário de Washington no hemisfério, em parte pela proximidade geográfica e pela abundância de minerais críticos.

Em todos os casos, buscar se preparar não é simplesmente definir retaliações, mas pensar diferentes estratégias que levem em conta igualmente que há uma assimetria forte, considerando a bala na agulha em Washington.

 

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