CartaCapital
Copo meio cheio ou meio vazio?
A Vila da Barca é uma comunidade centenária, no bairro do
Telégrafo, em Belém do Pará, com cerca de 5 mil moradores. Conhecida pelas
palafitas fincadas sobre as águas da Baía do Guajará, a Vila mantém as
características de povoação ribeirinha, onde vivem muitos pescadores e suas
famílias, em plena área urbana da metrópole de 1,3 milhão de habitantes.
Quando eu tinha 18 anos e ainda era estudante de Jornalismo, pisei na Vila da Barca pela primeira vez. O professor de Fotografia orientara os alunos a andar pela cidade com o olhar atento para os seus habitantes. Escolhi conhecer a Vila. Lembro do choque ao me dar conta do contraste entre as carências da comunidade e o conforto do bairro de classe média onde eu vivia.
Isso foi no começo dos anos 1980. O Brasil
começava a trilhar seu caminho de volta à democracia e a comunidade despertava
para a organização popular ao fundar a Associação de Moradores da Vila da
Barca. Na época, as famílias dispunham de uma única torneira para o
abastecimento de água potável, onde se formava uma extensa fila com baldes,
latas e panelas. A penúria forjou gerações na luta por vida digna e fortaleceu
a coesão social. Foi o que se viu nos meses que antecederam a COP30, em meio à profusão de obras em Belém, nos preparativos
para a conferência.
Uma das obras mais vistosas do governo
estadual foi o Parque Linear da Doca, que custou mais de 330 milhões de reais e
despertou a atenção nacional porque nele foram instaladas “árvores”
artificiais, feitas de vergalhão. A cerca de 2 quilômetros da Vila da Barca, a
Doca é o nome mais conhecido da Avenida Visconde de Souza Franco, o metro
quadrado mais caro de Belém, com seus espigões, shopping, restaurantes e
serviços de lazer. Apesar do CEP de luxo, a avenida é cortada por um canal
malcheiroso, que comprimiu o braço de rio de águas límpidas do passado.
Era preciso encontrar um local para despejar
a lama fétida retirada do canal da Doca. Adivinhe o local escolhido? Sim, um
terreno da Vila da Barca virou o “bota-fora” da obra. A comunidade armou-se de
indignação e denunciou nas redes sociais o caso típico de racismo ambiental. A
mobilização durou meses e os moradores conseguiram, no fim das contas, a
instalação da tão sonhada rede de abastecimento de água. Outra conquista foi a
rede coletora de esgoto por meio de uma tubulação que passa embaixo das
palafitas e passarelas de madeira, ainda em fase de instalação. Permanece,
porém, a luta por moradia segura. Dezenas de casas mal se equilibram sobre as
estacas, sujeitas ao vaivém das marés.
O caso da Vila da Barca expressa de maneira
exemplar o abismo que separa ricos e pobres no Brasil e serve também como um
espelho das desigualdades entre os países reunidos na COP30. Entre dezenas de
discursos proferidos naquelas duas semanas, nenhum foi tão claro em seu caráter
colonial e xenófobo quanto a declaração do primeiro-ministro alemão, Friedrich
Merz, que, já em Berlim, declarou-se feliz por ter “deixado aquele lugar”, no
caso, Belém. É esse tipo de gente que diz querer salvar a Amazônia e o planeta?
A COP30 não conseguiu avançar nenhum passo no
financiamento, para que os países mais pobres consigam fazer a transição
energética necessária para enfrentar a emergência climática. A verdade é que os
países mais ricos e poluidores veem o financiamento, quando muito, como
filantropia e caridade, não como estratégia de enfrentamento à catástrofe
global.
Depois de três COPs seguidas em países
autoritários e de mãos dadas com o capital fóssil (Egito, Emirados Árabes
Unidos e Azerbaijão), foi um avanço trazer a conferência para o Brasil. Aqui,
os povos indígenas e a Marcha Global pelo Clima fizeram a voz da sociedade
civil ecoar nos circuitos fechados da conferência, por onde lobistas do
petróleo, da mineração e do agronegócio circularam com desenvoltura. Mas a
próxima COP voltará para um país autoritário, a Turquia.
Por último, a questão mais candente da
conferência. O Brasil teve a iniciativa de propor a superação “da dependência
dos combustíveis fósseis” (responsáveis por 70% das emissões de gases de efeito
estufa), sendo necessário, para isso, criar um “mapa do caminho”, dizendo
quando e como isso deve ser feito. Os petroestados espernearam e o tema não
entrou nos documentos oficiais.
Mas o fato é que os combustíveis fósseis entraram
para valer no debate e o Brasil – com suas “dificuldades e contradições”, como
disse o presidente Lula – comprometeu-se a persistir no tema, numa agenda
paralela à oficial. Com apoio de cerca de 80 países, a Colômbia e a Holanda
puxaram uma conferência internacional sobre a eliminação gradual dos
combustíveis fósseis. O encontro está previsto para abril de 2026, na cidade
colombiana de Santa Marta. Copo meio cheio ou meio vazio? Deixo ao gosto do
leitor que chegou até aqui. •
Publicado na edição n° 1390 de CartaCapital,
em 03 de dezembro de 2025.

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