Folha de S. Paulo
O histórico de escândalos nas altas esferas
poderia colocar o país no lugar de paraíso de ilegalidades
A boa notícia é que desde a redemocratização muitas malfeitorias explodiram, mas várias foram implodidas
Quatro
ex-presidentes presos, dois impeachments em 24 anos, cinco ex-governadores
de um só estado (RJ) com passagens pela cadeia é um portfólio e
tanto, para o bem e para o mal.
Diz muito sobre a conduta das autoridades,
mas diz muito também sobre o histórico nacional de tolerância com os poderosos,
não só da política estrito senso, como atividade profissional.
Até o início da década dos 1990, os barões do jogo do bicho no Rio de Janeiro eram tratados como celebridades, financiadores de campanhas eleitorais em cena aberta.
Foi preciso a ação de uma jovem juíza
substituta, Denise Frossard, para que 14 deles —dentro os quais Castor de
Andrade, o mais celebrado— fossem presos. Até hoje seus herdeiros estão por aí
envolvidos em crimes, mas não são vistos com a complacência de antes. Data da
mesma época o impeachment
de Fernando Collor.
A partir da virada do século, veríamos uma
série de escândalos que resultaram em prisões de cúpulas partidárias e de três
ex-presidentes, desmonte de esquemas de corrupção, outro impeachment por
irresponsabilidade administrativa. Até agora, a condenação de militares
estrelados e Jair
Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado.
Essa quantidade expressiva de ocorrências
ilícitas a descoberto, num espaço curto de tempo, poderia colocar o Brasil no
lugar de paraíso de ilegalidades. Os cancelamentos de punições também
autorizariam a conclusão de que é isso mesmo, o país não tem jeito. Seria,
contudo, uma leitura apressada.
Defeitos arraigados em décadas —séculos,
talvez— de desmandos, maus hábitos e cultura de reverência a quem manda não se
corrigem de uma hora para outra. Leva tempo e envolve recuos desanimadores.
A boa notícia é que a explosão de
malfeitorias, e a implosão de algumas delas, coincide com a retomada do regime
democrático. A vigência da legalidade plena exige que a autonomia dos autores
de ações criminosas, de qualquer natureza, seja interditada em nome da
preservação da liberdade de toda a nação.

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