Folha de S. Paulo
Proporção de trabalhadores domésticos no
total cai ao menor nível de que se tem registro
Mercado de trabalho vai bem, mas esfria;
mulheres fogem de emprego na casa dos outros
Os empregados domésticos nunca foram tão
poucos em relação ao total dos trabalhadores, ao menos desde 2012, desde quando
há estatísticas comparáveis, e desconsiderados os números distorcidos da época
da epidemia. Em outubro deste ano, eram 5,4% do total. Em março de 2012, eram
6,8% (e sempre mais de 6,3% até a Covid-19). Sim, mais de 1 de cada 20 pessoas
ocupadas no país é doméstico. São 5,6 milhões, mas não atraem tanta atenção
quanto os trabalhadores por aplicativo, 1,7 milhão. Continuam quase invisíveis
no debate público —é secular.
São dados baseados na Pnad do IBGE. Dizem algo sobre mudanças no mundo do trabalho e até sobre a inflação e a taxa de juros do Banco Central.
Provavelmente por melhora das oportunidades
de emprego e da vida, as mulheres estão fugindo desse tipo de trabalho, como
costumam fazer quando podem, indicam estudos e a experiência da vida, pois o
emprego doméstico é opressivo, para dizer o mínimo.
Sim, mulheres. No final de 2024, 92% dos
empregados domésticos eram mulheres, 69% delas negras; 54,2% com 45 anos de
idade ou mais, 55,4% delas "chefas de família". Do total dos
domésticos, 74% faziam "serviços gerais", 21% eram cuidadores (como
de crianças). Havia ainda motoristas, jardineiros etc. Os dados são do Dieese,
com base na Pnad.
Atualmente, 25% dos empregados domésticos têm
contrato CLT (ante 32% na primeira metade da década passada). O salário médio é
de R$ 1.343 mensais, menos do que o mínimo e equivalente a 44% do valor do
salário médio dos trabalhadores do setor privado que não são domésticos (que é
de R$ 3.045). Cerca de 32% trabalham em mais de uma casa (tem havido mais
diaristas).
O número total de pessoas empregadas no país
aumentava em outubro ao ritmo de 0,91% ao ano. Decresce desde maio (quando o
ritmo era de 2,49%). É o mais lento desde novembro de 2023. A situação do
trabalho vai relativamente bem, sim, a melhor em três ou quatro décadas. Mas a
economia desacelera.
A desaceleração é quase geral nos grupos de
tipo de vínculo de emprego, "posição na ocupação", no jargão:
empregado nos setores público e privado, domésticos, empregadores e por conta
própria. Desacelerar: crescer mais devagar, não diminuir.
Redução relevante no número de empregados, em
termos anuais, ocorreu apenas entre os empregados domésticos, menos 360 mil
(para um total agora de 5,5 milhões), quase todos (357 mil) informais (sem
CLT). Depois de ficar um tempo para trás, o salário dos domésticos cresce desde
abril mais rápido do que o da média geral.
Na subdivisão "empregado do setor
privado" sem CLT, houve decerto redução de 550 mil no número de ocupados,
porém mais do que compensada pelo avanço do emprego formal dos empregados com
CLT (dessa conta são excluídos os domésticos). Pelos setores, houve ligeiras
perdas em "comércio" e "alojamento e alimentação", com
redução anual significativa apenas em "outros serviços" (-3,7%), que
empregam um pouco menos que "serviços domésticos" (-5,7%).
Quem por gosto ou com desgosto acompanha discussões sobre taxas de juros deve ter ouvido dizer que o BC anda também à espera de desaceleração no emprego, em especial em serviços. Parece que começou, de modo mais relevante, embora com essa peculiaridade dos domésticos. Enfim, a taxa de desemprego já teria aumentado não fosse o fato de que pessoas deixam o mercado de trabalho (provavelmente também porque a vida melhorou para as famílias).
.jpg)
Nenhum comentário:
Postar um comentário