sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Oh, não, mais uma coluna sobre Bolsonaro! Por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Impossível esquecê-lo; não há dia em que não se queixe de alguma coisa

Ler e comentar livros para diminuir a pena, só se for oralmente, para que ninguém leia e comente por ele

Não, não é você que está dizendo. Sou eu mesmo. Sei muito bem que prometi nunca mais escrever sobre Bolsonaro depois que ele fosse preso. Mas, enquanto não se esgotarem as possibilidades de recursos e sua sentença não passar em julgado, Bolsonaro não estará tecnicamente preso. Neste momento, cumpre apenas prisão preventiva numa suíte de 12 metros quadrados na Polícia Federal de Brasília —poderia estar fazendo isso em casa se não tivesse tentado arrancar a tornozeleira e fugir para Buenos Aires, onde seu colega Milei garantiu-lhe asilo no armário de vassouras da Casa Rosada. Portanto, mesmo a contragosto, ainda estou sujeito a conspurcar esse espaço com seu nome.

Além disso, Bolsonaro é do tipo que Nelson Rodrigues definia como "aquele homem fatal" —o personagem que insiste em reaparecer mesmo depois que o autor o expulsou da trama, apagou suas falas e o substituiu por outro. No caso de Bolsonaro, quando se pensa que teremos o prazer de passar alguns dias cuidando de nossa vida, sem saber dele, somos informados de que está com soluços, sofrendo de azia, atropelando os móveis, queixando-se do ar-condicionado, insatisfeito com a manicure e, apesar de nada maricas e de seu histórico de atleta, chorando pelos cantos.

Bolsonaro agora está pedindo para abater sua pena de 27 anos e três meses de prisão com a leitura de livros. É de seu direito: cada livro lido pode resultar na remição de quatro dias da sentença, desde que ele produza um comentário escrito sobre a obra e este seja analisado por uma comissão. O limite é de 12 livros por ano, razoável para quem nunca leu nem isso na vida. O problema é o comentário escrito.

Sim —porque Bolsonaro tem quem leia os livros por ele e lhe repasse clandestinamente os textos. Donde sugiro que, além da apresentação destes, ele seja submetido a arguições —a um severo exame oral sobre cada livro, por uma bancada de scholars cascudos especialistas em Marx, Foucault, Bakhtin etc.

Só então Bolsonaro saberá o que é pagar por cada um de seus crimes.

 

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