domingo, 1 de março de 2026

o que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Passou da hora de encerrar inquérito das fake News

Por O Globo

Instrumento criado para defender ordem democrática se transformou em risco para a própria democracia

É incontestável o papel crucial que o Supremo Tribunal Federal (STF) desempenhou na preservação da democracia brasileira, quando submetida a abalos e ameaças. Sem a ação do Supremo, é provável que o desfecho da intentona golpista tivesse sido outro. Esse é um fato que a História reconhecerá para sempre. É justamente para honrar essa trajetória que o STF deve finalmente pôr fim a um instrumento jurídico heterodoxo que, desde 2019, tem dado à Corte poderes excepcionais que não cabem numa democracia: o inquérito 4.781, apelidado “inquérito das fake news”.

A perturbação com a extensão desse inquérito e suas inúmeras aplicações chegou ao ápice durante o carnaval, quando a Polícia Federal bateu à porta de servidores da Receita Federal e do Serpro por ordem do ministro Alexandre de Moraes. Em janeiro, ele abrira procedimento para apurar o vazamento de dados sigilosos de ministros do STF e seus familiares. A decisão foi reflexo da notícia divulgada pelo GLOBO em dezembro, revelando contrato multimilionário do escritório da mulher e dos filhos de Moraes com o Banco Master. Até ministros do STF se disseram surpresos com a averiguação envolvendo mais de cem pessoas. Além disso, depois de uma entrevista em que, numa crítica legítima, afirmou ser “menos arriscado fiscalizar membros do PCC que altas autoridades”, o presidente da Unafisco Nacional, Kleber Cabral, foi intimado a depor como investigado. O excesso dessas medidas é evidente. Elas só se tornaram possíveis em razão da existência desse inquérito sem objeto definido e sem prazo para acabar.

Desde o início, a heterodoxia do inquérito das fake news despertou contestação no meio jurídico. Numa medida inédita, o inquérito foi aberto “de ofício” pelo então presidente do STF, ministro Dias Toffoli, sem demanda do Ministério Público ou das partes afetadas. A própria procuradora-geral da República à época, Raquel Dodge, enviou ofício pedindo para arquivá-lo, por não ter delimitado o alvo da investigação. Nas duas vezes em que tentou, o pedido foi indeferido. De saída, criou-se confusão entre os papéis de vítima, investigador e julgador. Como tudo estava nas mãos do STF, era latente o conflito das atribuições. Moraes foi designado relator pelo próprio Toffoli, em vez de escolhido por sorteio ou “prevenção” (termo jurídico que designa vínculo com processos anteriores). Por fim, não havia data de expiração nem objetivo limitado, permitindo investigar qualquer um que pudesse representar ameaça no entender do relator, mesmo que não tivesse prerrogativa de foro no Supremo.

Na mesma época, a Rede Sustentabilidade entrou com uma Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental contra o inquérito. No documento, alegou ameaça ao preceito da liberdade pessoal, uso indevido do regimento interno do STF para justificá-lo, ofensa ao preceito de separação de Poderes, ausência de “fatos concretos ou delimitação mínima de objeto”, ataque ao direito de defesa devido à imposição de sigilo e suspeita de “tribunal de exceção”. Mais tarde, em julgamento no plenário, a maioria da Corte decidiu, por 10 votos a 1, pela legalidade e pela constitucionalidade do inquérito. Na época o então decano da Corte, ministro Celso de Mello, observou que o STF tinha a função extraordinária e atípica de apurar qualquer lesão real ou potencial a sua independência. Tal decisão e o envolvimento da Procuradoria-Geral da República nas investigações posteriores deram um verniz de legalidade ao inquérito, mas está claro para qualquer um que ele só foi possível pela excepcionalidade do momento.

O inquérito das fake news e seus diversos desdobramentos foram usados para prender blogueiros, parlamentares e dirigentes partidários. Também serviu para tentar impedir a publicação de uma reportagem contra Toffoli na imprensa. Em seus despachos, Moraes determinou inúmeros bloqueios de contas em redes sociais, e não apenas a supressão de manifestações ilegais — configurando na prática censura prévia (como o inquérito tramita em sigilo, não se conhece sequer o número de contas censuradas). Até Elon Musk entrou na mira depois de ameaçar descumprir decisões judiciais. Ao fim de 2024, o inquérito foi mais uma vez prorrogado.

A Corte sempre justificou as medidas extraordinárias com base nas ameaças institucionais. Se um dia elas existiram — e existiram —, é evidente que hoje, quando o inquérito está prestes a completar sete anos, não existem mais. Passou da hora de a Corte acabar com o instrumental jurídico excepcional.

O Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) enviou na última semana ao presidente do STF, ministro Edson Fachin, ofício manifestando “extrema preocupação institucional com a permanência e conformação jurídica de investigações de longa duração”. Fachin e os demais ministros precisam dar a devida atenção à petição da OAB e encerrar esse capítulo da História do Brasil. O Supremo deve agir para que o país recobre um clima de normalidade, e não transformar-se, ele próprio, em foco de tensão. Será um paradoxo insólito se o inquérito das fake news vier a permitir que a Corte, fundamental na preservação da democracia, seja acusada de ser fonte de risco à própria democracia.

Sem edição, não há jornalismo

Por Folha de S. Paulo

Na era da informação com IA, o importante deve valer mais do que a última notícia; a tecnologia serve à clareza, mas não vai substituir o juízo humano

O leitor que assina um jornal não busca apenas acesso; procura mediação e a confiança de quem examinou e descartou o excesso e selecionou o que merece atenção

A organização do tempo precede o jornalismo. A semana de sete dias remonta à antiga Babilônia, fruto da observação do ciclo lunar de 29,5 dias, dividido em quatro fases da Lua, de cerca de sete dias cada uma. Os babilônios também atribuíam importância aos sete astros visíveis a olho nu (Sol, Lua, Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno).

Cada um deles deu origem ao nome dos dias da semana. Já o dia sempre se impôs pela alternância inexorável entre a luz e a escuridão. Antes de serem convenções, esses intervalos de tempo forjaram tentativas humanas de compreender a existência e dar forma ao fluxo contínuo da experiência.

O jornalismo apropriou-se desses períodos de tempo "naturais" para cumprir sua tarefa essencial: selecionar e sintetizar.

A edição semanal consolidou-se no início do século 17, quando os primeiros periódicos impressos passaram a reunir acontecimentos dispersos sob um mesmo critério temporal. A edição diária ganhou centralidade no século 19 na Inglaterra, impulsionada pela industrialização e pela aceleração da circulação de notícias.

Desde então, o fechamento diário tornou-se um ritual profissional: condensar, a cada 24 horas, o que realmente importa.

Editar é hierarquizar. É distinguir o essencial do acessório, o estrutural do episódico, o duradouro do efêmero. É assumir que nem tudo tem o mesmo peso nem merece o mesmo destaque.

Mais que um formato, a edição diária é, portanto, um método de organização da realidade que pode ser adquirido através de uma assinatura do jornalismo profissional. É essa capacidade de distinguir o que interessa que destaca o periódico de cada país e leva assinantes a pagar pelo serviço.

internet parecia destinada a fortalecer essa lógica. Diante da explosão de informações em tempo real, a necessidade de filtrar e contextualizar deveria ter se tornado ainda mais evidente. Quanto maior a avalanche de dados, maior a exigência de critério. A democratização da publicação —avanço inegável— ampliou vozes e perspectivas. Mas aumentou também o ruído.

Na corrida para publicar primeiro, muitos passaram a privilegiar o mais recente em detrimento do mais relevante. A lógica do "agora" sobrepôs-se à do "importante". A última atualização substituiu a síntese. A ideia de edição foi, em parte, esvaziada.

É justamente nesse cenário que esta Folha reafirma a importância da edição pelo jornalismo profissional.

O leitor que assina um jornal não busca apenas acesso; procura mediação. A confiança de quem examinou e descartou o excesso e selecionou o que merece atenção. Quer um recorte relevante e resumido do dia que passou. Neste jornal, o leitor encontra a Edição Folha digital (réplica online do impresso) a partir das 23h da véspera.

Em um ambiente de difusão quase instantânea e em escala inédita, o trabalho de selecionar, contextualizar e explicar torna-se ainda mais indispensável.

Nessa tempestade informativa, a inteligência artificial (IA) deve ser percebida como instrumento a serviço da clareza e da eficiência. A profissão do jornalista é premida pelo tempo, pois precisa continuar a oferecer, no intervalo mais humano e natural —o de 24 horas—, a melhor síntese possível dos acontecimentos.

A IA pode auxiliar na revisão do texto, na correção gramatical, na padronização de dados, na organização preliminar de informações. Pode garantir um português sem erros, maior precisão formal e clareza no texto.

Ao automatizar tarefas repetitivas e técnicas, a IA libera tempo para o que é propriamente humano: investigar, interpretar, julgar relevâncias, assumir responsabilidades públicas.

Continuará a importar para o leitor que tudo siga girando em torno daquilo que seja o mais importante, segundo um juízo exclusivamente humano.

Sem edição, a informação se fragmenta. Sem hierarquia, tudo parece urgente e nada é essencial. Na era da internet com IA, defender a edição é resgatar o próprio sentido do jornalismo. E utilizar a inteligência artificial para torná-lo mais claro, preciso e eficiente tornou-se obrigatório.

Descaso histórico com a educação infantil

Por Folha de S. Paulo

Fila de espera para vagas em creches sobe 30,6% de 2024 a 2025; meta do PNE não é cumprida

Entre 2024 e 2025, houve aumento de 29.077 matrículas na rede pública, o que atende apenas 3,5% da demanda

Segundo o Censo Escolar 2025, houve recuo de 0,13% nas matriculadas em creches no país, com redução puxada pelas escolas particulares (2,47%) —a rede pública apresentou alta de 1,5%.

O ministro da EducaçãoCamilo Santana, disse que a diminuição se deve a uma questão cultural, já que a matrícula nessa etapa do ensino não é obrigatória: "Tem muitos pais que não querem colocar seus filhos na creche".

Contudo pesquisa do Gabinete de Articulação para a Efetividade da Educação e da própria pasta mostra que há, sim, demanda e que ela não está sendo suprida.

Em 2025, a fila por uma vaga em creches contava com 826,3 mil crianças, alta de 30,6% em relação a 2024 (632,7 mil). Do total no ano passado, 238 mil têm menos de 1 ano de idade. Entre 2024 e 2025, houve aumento de 29.077 matrículas na rede pública, o que atende apenas 3,5% da demanda.

É consenso entre especialistas que a educação infantil é alicerce fundamental na formação escolar dos alunos. Além disso, o acesso a creches é um dos fatores que contribui para diminuir a disparidade de gênero no mercado de trabalho, já que facilita a formação acadêmica das mães e sua dedicação à profissão.

Trata-se, portanto, de serviço importante na diminuição de desigualdades que há mais de uma década não recebe a devida atenção do poder público, notadamente das prefeituras, responsáveis pela gestão dessa etapa.

De acordo com o Plano Nacional de Educação de 2014, 50% das crianças de até 3 anos deveriam estar matriculadas em creches até 2024. Mas, em 2025, a taxa foi de 41,8% —alta pífia de 2 pontos percentuais ante o ano anterior.

Ninguém vai chorar pelo Irã

Por O Estado de S. Paulo

O Irã é um Estado pária, que massacra seu povo, quer a bomba para destruir Israel e financia o terror contra o Ocidente. Se o ataque derrubar esse regime criminoso, o mundo agradecerá

Ao anunciar sua operação militar contra o Irã, EUA e Israel declararam como objetivo neutralizar ameaças iminentes, enfraquecer a infraestrutura militar do regime e impedir que Teerã obtenha uma arma nuclear. “A hora de sua liberdade está ao seu alcance”, disse Donald Trump, dirigindo-se ao “honrado povo iraniano”. “Quando terminarmos, assumam o seu governo. Só depende de vocês tomá-lo.”

Há quatro décadas a República Islâmica acumula um histórico de repressão interna, apoio a milícias terroristas e hostilidade aberta contra os EUA, Israel e países árabes, razão pela qual ninguém, no mundo civilizado, vai chorar pelo Irã.

Dito isso, não há certeza de que a guerra produzirá o resultado desejado. O fato de o regime iraniano ser autoritário e desestabilizador não o torna automaticamente frágil. Tampouco garante que bombardeios aéreos, por si sós, precipitem mudança política.

O que sabemos até aqui é limitado. Os danos reais às instalações nucleares e à cadeia de comando ainda não estão de todo claros. O Irã respondeu com salvas de mísseis contra Israel e bases americanas em aliados árabes como Catar, Kuwait e Emirados Árabes Unidos, ampliando o risco de conflagração regional. Os mercados de energia estão apreensivos ante os riscos de um bloqueio prolongado no Estreito de Ormuz.

O que não sabemos é mais relevante do que o que já se anunciou. A campanha será limitada, buscando degradar capacidades específicas e restaurar a dissuasão? Ou caminhará para uma escalada regional mais ampla, envolvendo milícias aliadas de Teerã e Estados vizinhos? Há fissuras reais na elite iraniana capazes de transformar pressão externa em ruptura interna? Ou a agressão externa reforçará o núcleo duro do regime, como tantas vezes ocorreu em sistemas revolucionários sitiados?

Três cenários se desenham, todos plausíveis neste estágio inicial. O primeiro é o de um conflito calibrado: ataques intensos, mas circunscritos, seguidos de nova rodada de negociação sob pressão. O segundo é o de uma escalada regional controlada, com ciclos de retaliação que elevem custos sem produzir colapso imediato. O terceiro, mais ambicioso e incerto, seria uma tentativa prolongada de enfraquecer o regime a ponto de efetivamente precipitar sua transformação. Esse último depende de variáveis – coesão interna iraniana, disposição de aliados regionais, tolerância política doméstica nos EUA – que ainda não se deixaram medir.

Há também o fator tempo. Guerras raramente seguem o roteiro inicial de seus arquitetos. Decisões tomadas nos próximos dias – sobre limites, objetivos e critérios de sucesso – serão mais determinantes do que a retórica das primeiras horas. A história recente do Oriente Médio aconselha prudência: intervenções moralmente compreensíveis podem gerar consequências estratégicas inesperadas.

Nada disso implica indiferença quanto à natureza nefasta do regime iraniano. Trata-se de reconhecer que a eficácia de uma ação militar não se deduz da justeza de sua motivação. Conter um adversário é uma coisa; redesenhar sua ordem política é outra. Entre uma e outra, há riscos, custos e incertezas que não se dissipam com declarações firmes.

O teste agora não é apenas de poder militar, mas de clareza estratégica. Se o objetivo é impedir o Irã de ameaçar a região e obter a bomba, será preciso definir com precisão o que constitui sucesso – e, sobretudo, quais limites não se pretende ultrapassar. Se é derrubar o regime, é preciso definir qual preço se está disposto a pagar.

O realismo estratégico impõe reconhecer que a força pode abrir caminhos, mas não elimina a complexidade do terreno que se atravessa. A clareza moral impõe reconhecer que o Irã é um Estado pária e não pode ter uma bomba nuclear em hipótese alguma. Israel tem pleno direito de se defender de uma ameaça existencial inequívoca. “Chegou a hora de todas as partes do povo iraniano livrarem-se do jugo da tirania e promoverem um Irã livre e comprometido com a paz”, disse o premiê israelense, Benjamin Netanyahu. Sejam lá quais as motivações por trás da guerra, se esse for o seu resultado, será bom para o mundo inteiro.

A farsa da ‘herança maldita’

Por O Estado de S. Paulo

Haddad culpa Bolsonaro pelos sucessivos déficits do governo Lula, mas um estudo desmente esse mantra lulopetista de que o mau resultado fiscal de seus governos é obra de gestões passadas

O hábito dos governos petistas de atribuir a uma “herança maldita” a culpa por seus maus resultados é conhecido – vem desde o primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, há mais de duas décadas. O exemplo mais recente veio do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que, caprichando na metáfora, afirmou que a gestão de Jair Bolsonaro promoveu “uma espécie de estupro das contas públicas”, o que para ele explica os sucessivos déficits fiscais do terceiro mandato de Lula.

Em artigo sobre política fiscal publicado pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), o economista Alexandre Manoel mostra o quão enganoso é esse argumento. Ressaltando que não está defendendo nenhum governo, Alexandre Manoel apresenta os dados que servem para avaliar, de forma correta, o quanto dos saldos fiscais negativos se devem a decisões tomadas antes e depois da posse de Lula.

Para começar, resgata o resultado de um estudo desenvolvido por ele em coautoria com os também economistas Marcos Lisboa, Marcos Mendes e Samuel Pessôa, publicado pelo FGV Ibre em outubro de 2024, no qual eles estimam a herança fiscal estrutural deixada desde o governo Dilma Rousseff. Ou seja, a conta que o mandatário anterior deixou para seu sucessor pagar. O resultado não deixa dúvidas de que Lula recebeu uma conta bem menos salgada.

Dilma deixou para Michel Temer a necessidade de ajustar o saldo fiscal em 3,5% do Produto Interno Bruto (PIB), uma verdadeira bomba. Temer, por sua vez, entregou a Jair Bolsonaro uma conta mais palatável, de 1,2% do PIB. Bolsonaro, por fim, deixou para Lula a necessidade de ajuste de 0,7% do PIB. Como quaisquer dados estatísticos, esses podem dar origem a uma série de interpretações, mas uma, como destacou o economista, é impossível: a de que tenha ocorrido deterioração crescente até 2022. Ocorreu o contrário.

O levantamento não questiona a condição inicial adversa do governo Lula, apenas mostra que foi menor do que a de 2019, no início da gestão Bolsonaro, e muito inferior à de 2016, quando Temer assumiu após o impeachment de Dilma. Como destacou Samuel Pessôa em artigo recente, as trajetórias fiscais são definidas sobretudo pelas decisões tomadas após a posse. Ele calcula, por exemplo, que o gasto público em 2026 poderia ser R$ 210 bilhões menor se, a partir de 2023, o salário mínimo fosse reajustado no limite da inflação e os gastos com saúde e educação crescessem apenas de acordo com a população.

O lulopetismo ampliou gastos públicos, com benefícios atrelados ao reajuste real do salário mínimo (acima da inflação), elevação da concessão de renúncias fiscais, manutenção de estatais deficitárias, incentivo ao crédito e aumento de subvenções. Tudo sob a conhecida tese de Lula de que o Estado deve ser o motor do crescimento. Decerto o ministro Haddad quis criar uma imagem forte para a campanha eleitoral ao se referir ao “estupro” das contas públicas no governo Bolsonaro – cujo desempenho, ressalte-se, foi sofrível. Mas a raiz do rombo orçamentário atual está nas decisões do próprio governo Lula.

Bolsonaro também elevou, e muito, os gastos públicos, com crescimento acumulado de 5,6% entre 2019 e 2022, como mostra o levantamento da FGV, e é inquestionável o legado negativo de sua gestão, com destaque para a péssima condução do País durante a pandemia. Mas até 2025 o crescimento real acumulado da despesa sob Lula foi bem maior: 15,4%.

Os efeitos nefastos da polarização na conjuntura política podem ser ainda piores quando estendidos à economia. “O País não precisa de um Fla-Flu fiscal, e sim entender sua trajetória”, avalia Alexandre Manoel. Especialmente em ano eleitoral, o debate deve girar em torno de que medidas podem mudar a trajetória das despesas nos próximos anos. Esse é o debate realista para a economia nacional. Reconhecer honestamente que as despesas aumentaram e a execução orçamentária se deteriorou a partir de 2023 será apenas o primeiro passo para um debate sério.

Telecatch na CPI do INSS

Por O Estado de S. Paulo

Quebra de sigilo de Lulinha no tapetão cria fato político sem qualquer serventia para elucidar o escândalo

Os leitores mais jovens talvez não tenham conhecido o Telecatch, uma espécie de luta livre coreografada muito popular entre as décadas de 1960 e 1980. Nela, ninguém efetivamente se machucava, pois o objetivo dos participantes era divertir o público. Se alguém sentir saudade ou curiosidade sobre os combates, basta conferir a sessão mais recente da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) sobre o esquema de fraudes no INSS.

A exemplo da modalidade, a reunião terminou com uma encenação de troca de sopapos, com a diferença de que o espetáculo protagonizado por deputados e senadores não fez ninguém rir. Foi só mais um capítulo de uma comissão que prometia muito, não entregou nada e que felizmente se encerra no fim de março – a não ser que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), perca o juízo e aceite prorrogar seus trabalhos.

Não há razão para ter boa vontade com essa comissão. Instalada em agosto, a CPMI prometia investigar a fundo o esquema de descontos ilegais em benefícios do INSS que abastecia os cofres de sindicatos e associações sem autorização dos aposentados e pensionistas.

Meses depois, deputados e senadores da base aliada, da oposição e do Centrão pisam em ovos para poupar aliados e a si mesmos. A longevidade de um esquema que atravessou governos desde 2016 indica, no mínimo, uma conivência suprapartidária do Congresso que permitiu que os débitos irregulares atingissem milhões de pessoas.

Não chegar a lugar algum já seria ruim para uma CPMI, mas transformar o plenário em um ringue e aprovar no tapetão um pedido de quebra de sigilo bancário e fiscal de Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente Lula, é um epílogo verdadeiramente indigno para qualquer comissão.

Goste-se ou não, a base aliada estava presente em peso, o suficiente para impedir a aprovação do requerimento do relator, Alfredo Gaspar (União-AL). Diante da confusão, era obrigação do presidente da CPMI, Carlos Viana (Podemos-MG), fazer a recontagem dos votos. Se o Regimento Interno do Congresso ainda tem algum valor, anular a votação é um dever de Alcolumbre.

Tudo isso só serviu para colocar os holofotes sobre uma CPMI que anda de lado desde sua criação e conferir alguma notoriedade para o presidente e o relator, que disputarão, respectivamente, o Senado por Minas Gerais e o governo de Alagoas em oposição a candidatos apoiados pelo governo Lula.

Não por acaso, Viana e Gaspar foram mencionados no documento fotografado por toda a imprensa no qual o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) registrou sua estratégia para formar palanques nos Estados para sua candidatura à Presidência.

A questão é que o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), já havia autorizado a quebra do sigilo de Lulinha a pedido da Polícia Federal (PF) em janeiro, por suspeita de que ele seja sócio oculto de Antônio Camilo Antunes, o “Careca do INSS”.

Se Lulinha vai se dar mal, não será pelas mãos de uma CPMI natimorta, que apela a manobras para chamar a atenção e que nunca esteve disposta a colocar o dedo na ferida para esclarecer as fraudes que deveria investigar.


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