Folha de S. Paulo
Afago no ego não compensa o prejuízo que Lula
terá ao despertar atenção para o uso do cargo na campanha
Até o desfile-exaltação na Sapucaí, o
presidente contava com o benefício de um ambiente de cegueira deliberada
Mais do que nunca é válido o conselho
de Chico Buarque para
que o governo do PT criasse
o ministério do vai dar errado —o nome exato da pasta vocês sabem qual é— a fim
de não escorregar em cascas de banana visíveis.
Gênio da música e da poesia, eleitor de admirador de Luiz Inácio da Silva, Chico fez o alerta há mais de vinte anos. Às vésperas do Carnaval, João Santana, marqueteiro dos tempos de glória, deu de graça uma lição: folia e política não se bicam.
Isso ficou evidente na comparação entre as
apresentações da Acadêmicos de Niterói e da Imperatriz Leopoldinense, que entrou em seguida na Sapucaí,
mostrando a diferença entre homenagem e bajulação.
Ney
Matogrosso fez a verde-branco brilhar, solta e poderosa. Lula engessou
a niteroiense numa série de restrições. Não houve a temida vaia, o sambódromo
respeitou a escola, mas não lhe deu a recompensa da empolgação reservada aos
desfiles que falam à alma da arquibancada.
Estivesse ativo o ministério do vai dar
errado, o presidente talvez tivesse sido alertado de que o afago no ego não
valeria o prejuízo à espreita na esquina. Lula vinha tocando sua
campanha há meses sem maiores preocupações.
Chegou a anunciar candidatura em visita oficial à Indonésia, em
outubro último. Usou da condição de presidente num palco internacional e
internamente seguiu valendo-se de um ambiente de cegueira deliberada à
transmutação de ações de governo em atos abertamente eleitorais.
O sentido de impunidade levou ao campo minado
do exagero e fez cair o véu da indiferença geral. A oposição se mexeu e a
Justiça viu-se obrigada a dizer que estava viva. O próprio governo deu-se conta
do risco ao recorrer a restrições de última hora.
Providências tardias ante a flagrante
infração ao preceito constitucional da igualdade de condições entre adversários em disputas eleitorais. O cenário da desigualdade
vinha sendo desenhado, mas ao ser ilustrado com a tinta forte da ousadia expôs
Lula a cobranças até então inexistentes.

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