O Estado de S. Paulo
O caso Master veio para ficar. Pautará os humores eleitorais em 2026, ministrado como capítulos de novela. Lula compreendeu a projeção de risco e decidiu botar o bloco discursivo na rua. Tenta se antecipar. Sabe que a forma como a crise é percebida tende a colar no governo de turno. Sabe que a crise pode mobilizar-animar o sentimento anticorrupção. Mais precisamente, o sentimento antissistema – que já decidiu eleição entre nós. O presidente é favorito à reeleição e aquele que tem mais a perder, sob quem se abriria o prejuízo de um chão de imprevisibilidade.
Vestindo envernizada cara de pau e
beneficiado pelo apagamento da história da corrupção recente no Brasil
promovido pelo anulador-geral da República e dublê de empresário Dias Toffoli,
beneficiado também pelo rabo-preso dos Bolsonaro, Lula acresceu a seu discurso
a figura do “magnata da corrupção”. É onipresente, com a pretensão de lhe
servir por antídoto; porque recebeu Vorcaro quando impossível desconhecer o
esquema de pirâmide que erguera; porque o Master não teria chegado para fumar
charuto em Brasília sem ter firmado base a partir da Bahia petista; porque há o
ônus da corrente sociedade entre governo e sua bancada no Supremo – percebido o
STF como gestor de uma operação abafa.
“Nós vamos a fundo nesse negócio” – tem
repetido. Nós: o governo, incluída – sob sua ordem – a Polícia Federal
autônoma. Se depender da diretriz do Planalto, vai-se “a fundo” em terreno
delimitado. “Nós queremos saber por que o governo do Rio de Janeiro e o Estado
do Amapá colocaram dinheiro de fundo dos trabalhadores nesse banco. Qual é a
falcatrua que existe entre o Master e o BRB?” No dia seguinte, a PF avançaria
sobre o regime previdenciário de Davi Alcolumbre no Amapá, avançadíssimas já as
investigações relativas ao RioPrevidência e ao BRB – dos bolsonaristas Claudio
Castro e Ibaneis Rocha, respectivamente.
O jogo é jogado; e o poder tenta exercer
algum controle sobre o que pende ao incontrolável. “Vocês estão vendo a nossa
briga com o tal do Banco Master.” Atenção: “a nossa briga”, a PF incorporada ao
ministério. “Não é prender o cara que está na favela ou prender ele, não. É
prender aquele que está de terno e gravata roubando e mora em apartamento de
cobertura ou em Miami.” Trata-se de formulação antissistema pelo presidente da
República, a própria expressão do sistema e, particularmente, por um, cujos
governo e partido são associados à corrupção.
“É a primeira vez na história do Brasil que
nós estamos perseguindo os magnatas da corrupção.” . Lula disse isso. Sem
refutação. Inexistentes de súbito os empreiteiros amigos e a pilhagem à
Petrobras. O empreendimento é explícito e ousado. O silêncio de Flávio
Bolsonaro o ajuda. O silêncio eleitoralmente inexplicável – porque pegar essa
bandeira representaria a chance competitiva à oposição. O silêncio
rachadinhamente explicável – porque o Master estava (está) em todo lugar, idem
os apagamentos de Toffoli. •

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