Por Camila Zarur / Valor Econômico
Ex-consultor de petista, Marcello Faulhaber considera escolha de Flávio certa
O marqueteiro Marcello Faulhaber é enfático
nas previsões para as eleições deste ano. Para ele, o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva (PT) será reeleito. “Com a dificuldade de sempre, no segundo
turno e com pouca diferença, mas vai se reeleger”, diz, em entrevista ao Valor.
Coordenador das últimas campanhas do prefeito
do Rio, Eduardo Paes (PSD), e consultor na campanha de Lula em 2022, Faulhaber
acredita que o ex-presidente Jair Bolsonaro acertou ao indicar o filho, o
senador Flávio Bolsonaro (PL), em vez de apoiar o governador de São Paulo,
Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Olhando para os petistas, Faulhaber é crítico
nas movimentações do ministro da Fazenda, Fernando Haddad. O marqueteiro vê nas
ações do chefe da equipe econômica do Planalto uma tentativa de forçar sua
indicação para suceder a Lula - o que o transforma numa nova versão do
ex-ministro e ex-senador José Serra (PSDB).
Por fim, na corrida ao governo do Rio,
Faulhaber, que deve repetir a dobradinha com Paes, afirma que o único que pode
atrapalhar o prefeito é ele próprio. “Depende dele”.
A seguir os principais pontos da entrevista ao Valor:
Valor: Existe um sentimento antissistema nesta
eleição?
Marcello Faulhaber: Não acho que
haja esse sentimento, não como havia em 2018. O que vejo é uma disputa entre
democratas e autoritários, entre extrema-direita e democracia,
independentemente se de centro-esquerda ou centro-direita. E Lula vai se
reeleger. Com a dificuldade de sempre, no segundo turno e com pouca diferença,
mas vai se reeleger. Primeiro, a economia está melhorando: taxas de desemprego
mais baixas da história, aumento de renda das famílias mais pobres, justiça
fiscal, inflação caindo. Segundo, a direita vai estar completamente
fragmentada. Terceiro fator é Donald Trump [presidente dos EUA]. Porque só quem
gosta de ser capacho de americano é a elite brasileira. O povo odeia. As
pessoas têm um patriotismo verdadeiro. E o quarto fator é Lula, um líder
carismático e improvável.
Valor: Como avalia a estratégia de Gilberto Kassab de
unir os possíveis presidenciáveis em seu partido, o PSD?
Faulhaber: Falta o Romeu
Zema [governador de Minas Gerais], mas acho que Kassab talvez consiga trazê-lo.
A minha sensação é que o PSD e o Kassab querem ter, de fato, uma candidatura
presidencial de centro-direita democrática, não radical. Só que os votos
bolsonaristas são maioria. Por outro lado, embora não seja uma coisa
premeditada, Kassab também está aumentando o cacife dele. Seja para negociar
com o Lula, seja para negociar com o Flávio Bolsonaro, seja para negociar com
Tarcísio em São Paulo. Pode ter um candidato do PSD? Pode. E pode ser que não
aconteça. E aí Kassab tem um poder político muito mais forte para negociar.
Valor: Flávio Bolsonaro tem força para repetir os
feitos do pai? Bolsonaro acertou em indicá-lo?
Faulhaber: Claro! É melhor
ser o primeiro numa vila do que o segundo em Roma. Se Tarcísio se elegesse
presidente, ele poderia até anistiar Bolsonaro, mas tomaria o lugar de grande
líder da direita. A família Bolsonaro foi quem construiu a direita no Brasil.
Ninguém era de direita antigamente. Então, por que entregar isso de bandeja? A
estratégia é manter a família com o poder político que seria dizimado se
Tarcísio ganhasse. A família Bolsonaro perde muito mais com qualquer cara da
direita se elegendo, do que com o Lula se elegendo. Com a vitória do Lula,
Bolsonaro e os filhos vão continuar sendo a maior força de oposição brasileira.
Isso tem muito valor. O Valdemar Costa Neto [presidente do PL] não é
bolsonarista, mas se beneficia do bolsonarismo. É isso que faz com que o
partido dele tenha a maior bancada da Câmara e o maior fundo eleitoral.
A estratégia é manter a família Bolsonaro com
poder, o que seria dizimado se Tarcísio ganhasse”
Valor: Mas Tarcísio, se fosse candidato à Presidência,
teria chances?
Faulhaber: Não. Seria um
candidato mais difícil [para Lula] do que Flávio, mas Eduardo Bolsonaro também
seria, talvez até o Carlos Bolsonaro seria mais difícil por conta da história
do Flávio. O Tarcísio é um cara que tem grande potencial em 2030. Mas precisa
errar menos na política. Ele não era político e cometeu uma série de erros como
levantar a bandeira do Maga [mote trumpista de “América primeiro”]. A
maturidade dentro da vida pública vai fazer ele virar um candidato fortíssimo
em 2030, não agora.
Valor: Para isso ele precisa ser menos dependente de
Bolsonaro?
Faulhaber: Exatamente.
Hoje ainda não dá para chegar no segundo turno sem apoio de Bolsonaro, assim
como, pela esquerda, não dá pra chegar no segundo turno sem apoio de Lula. O
pós-Lula e o pós-Bolsonaro, que vai acontecer em 2030 ou no máximo em 2034, é outra
história.
Valor: Por causa da polarização?
Faulhaber: Não é
polarização, não são dois polos. No Brasil, a análise tem que ser feita de
forma bidimensional. A questão do comportamento moral e religioso é um eixo. O
outro é a visão do Estado, se quer um Estado de bem-estar social ou um Estado
mínimo. Quem é liberal no comportamento e quer Estado mínimo, que é um pouco a
elite brasileira, não tem mais do que 5% votos no Brasil. Mais de 60% dos
eleitores querem um Estado de bem-estar social - não porque são ideológicos,
mas porque precisam; precisam da saúde, de educação e do espaço público. E, ao
mesmo tempo, são conservadores. São pobres conservadores. Esse é o grande
eleitorado brasileiro, e ninguém os representa. O Lula pega parte, 20% a 25%, e
Bolsonaro também, 20% a 25%. E a direita liberal escolhe quem apoiar. Apostaram
em Bolsonaro em 2018, foram mais para Lula em 2022, e agora me parecem mais
assanhados para a Flávio, achando que ele vai ser um Javier Milei [presidente
da Argentina].
Valor: E a terceira via?
Faulhaber: A terceira via
que poderia ameaçar não tem uma liderança. Não existe um cara a favor de um
Estado de bem-estar social e conservador nos costumes. A sustentação eleitoral
do Bolsonaro não tem nada a ver com a visão do Estado mínimo. O que faz a
diferença do bolsonarismo é o conservadorismo.
Valor: Por que Haddad parece alguém que não empolga o
eleitor?
Faulhaber: O Haddad é o
Serra do PT. O Haddad gosta de discussões filosóficas. É um grande executivo do
setor público, mas é um intelectual. Não é um cara que tem carisma; quer
melhorar a vida das pessoas, mas não gosta de pessoas, gosta de teses. Pessoas
no entorno do Haddad queriam forçar uma barra para ele ser o sucessor do Lula,
botando [Geraldo] Alckmin para correr e virando o vice do Lula. Só que fizeram
de uma forma muito inabilidosa e alertaram as águias.
A questão do vice de Lula é uma coisa que não
deveria nem estar sendo discutida”
Valor: O movimento que o MDB tem tentado, não?
Faulhaber: Viram que podem
ter uma oportunidade de conseguir a vice. Não achei Geraldo Alckmin uma boa
escolha em 2022. Ele não trouxe um voto a mais para Lula. Mas agora tem que
mantê-lo. Não faz sentido colocar alguém de um partido forte do Congresso, com
risco de impeachment. A questão do vice de Lula é uma coisa que não deveria nem
estar sendo discutida. Vai dar o vice para o MDB achando que vai ter tudo? Não
vai ter nada. Agora, se for para o Kassab
Valor: Kassab seria um bom vice para Lula?
Faulhaber: Não que seria
um bom vice, mas Kassab é quem pode resolver os problemas de Lula.
Principalmente de não ter múltiplas candidaturas na direita. A questão é se
Kassab olhará mais para ele ou para o partido. Ele vai fazer um cálculo
político: é melhor ser vice de Lula ou ter um partido maior? Não sei qual é o
resultado dessa conta.
Valor: Em 2030, num cenário que Lula vença neste ano,
o bolsonarismo continuará forte?
Faulhaber: Vai depender
muito de como vai estar o mundo em 2030. O mundo, não só o Brasil. O
bolsonarismo pode ter muito menos força do que hoje. Teremos um cenário
absolutamente inverso ao atual, com a esquerda fragmentada e a direita,
provavelmente, em torno de Tarcísio. Com o bolsonarismo mais fraco, Tarcísio
realmente consegue ser candidato.
Valor: Paes consegue fugir da polarização no Rio?
Faulhaber: Digo o
seguinte: quem não estiver ao lado de Paes este ano vai lamentar. Seja durante
a eleição ou seja depois. Ele é favoritíssimo. Se ele não errar, não cometer
nenhum erro, ele está com a eleição ganha. Não depende muito dos outros,
depende mais dele.
Valor: É diferente de 2018?
Faulhaber: Em 2018 foi uma eleição antissistema. Paes estava ainda muito próximo de 2016, de Sérgio Cabral [ex-governador do Rio], de Odebrecht. Hoje todo mundo sabe que Paes não tem nada a ver com essa história. Deixamos isso muito claro em 2020. Cabral era uma coisa, e Paes era outra. E em 2018, Wilson Witzel [ex-governador do Rio] só se elegeu porque o Flávio Bolsonaro o abraçou. Se o Flávio não tivesse abraçado Witzel, não teria sido eleito.

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