O Estado de S. Paulo
No caso do Brasil, a nova política externa dos EUA não colocou em questão as políticas do governo brasileiro em relação a Pequim
Em novembro passado, poucos dias depois da
divulgação da Estratégia de Segurança Nacional dos EUA – na qual a América
Latina aparece como a principal prioridade de Washington –, o governo chinês
anunciou uma nova política para a região.
O documento apresenta três aspectos: 1) a América Latina como uma terra cheia de vigor e esperança; 2) as relações da China com a América Latina em desenvolvimento vigoroso; e3) o trabalho conjunto para implementar os “programas para a formação de uma comunidade com futuro compartilhado”.
Os programas mencionados visam à ampliação da
cooperação, tendo como objetivo o “desenvolvimento, a implementação de
civilização, da paz e da conectividade entre povos”.
O programa de desenvolvimento busca a
implementação da Iniciativa para o Desenvolvimento Global, que inclui ações
conjuntas em áreas como o Cinturão e Rota e cooperação nas áreas de comércio e
investimento, financeira, campo de energia e de recursos, na infraestrutura, na
indústria de manufatura, na indústria agrícola, em inovação e tecnologia,
espacial, marítima, inspeção e quarentena aduaneiras, entre agências de
promoção de comércio e investimento, associações empresariais na proteção
ambiental, mudanças climáticas e redução de desastres naturais, fiscal e
regulamentação de mercado.
O programa de civilização proposto pelo
governo chinês visa à implementação da Iniciativa para a Civilização Global,
que significa o aprofundamento do intercâmbio e aprendizagem mútua entre
civilizações da China e da América Latina e do Caribe, educação e formação de
recursos humanos, esporte, intercâmbio e cooperação nas áreas de imprensa,
publicação, rádio, filme e televisão, intercâmbio acadêmico e de think tanks. O
programa de paz busca levar adiante a Iniciativa para a Segurança Global,
intercâmbio e cooperação militares, cooperação judiciária e policial, ações
contra a corrupção e de repatriação de fugitivos, recuperação de ativos,
segurança cibernética, não proliferação e controle de exportação. O programa de
conectividade entre os povos prevê ações para fortalecer a governança e o
desenvolvimento sociais, cooperação na redução da pobreza, saúde, consular,
turística, intercâmbios entre entidades subnacionais e entre os povos.
Enquanto a China oferece uma proposta visando
a uma diplomacia independente de paz e cooperação, sugere a prática de valores
comuns da humanidade e apresenta uma ampla plataforma inclusiva de aproximação
em praticamente todas as áreas com a América Latina, buscando a melhoria de
suas condições de vida e a presença da região no mundo, na Estratégia de
Segurança Nacional, Washington coloca os EUA em primeiro lugar. E, para a defesa
de seus interesses, dá prioridade às relações com a América Latina sobre todas
as outras regiões. A preocupação com a China na região está presente quando o
documento acentua que qualquer tipo de ajuda dos EUA aos países da região deve
estar condicionado à redução gradual da influência externa adversária,
mencionando especificamente instalações militares, portos, infraestrutura e
mesmo a aquisição de ativos estratégicos, entre outros, e com ameaça velada aos
países do hemisfério ao afirmar que “a escolha que todos os países devem
enfrentar é se querem viver num mundo liderado pelos EUA, com países soberanos
e economias livres, ou num mundo paralelo no qual são influenciados por países
do outro lado do mundo”.
Considerando a América Latina como seu
“quintal”, a Estratégia de Segurança Nacional dos EUA afirma, de acordo com a
teoria do realismo flexível, “queremos garantir que o Hemisfério Ocidental
permaneça razoavelmente estável e bem governado o suficiente para prevenir e
desencorajar a migração em massa para os EUA; queremos um hemisfério cujos
governos cooperem conosco contra narcoterroristas, cartéis e outras
organizações criminosas transnacionais; queremos um hemisfério que permaneça
livre de incursões estrangeiras hostis ou da apropriação de ativos-chave, e que
apoie cadeias de suprimentos críticas; e queremos garantir nosso acesso
contínuo a locais estratégicos importantes. Em outras palavras, vamos afirmar e
fazer cumprir um ‘Corolário Trump’ à Doutrina Monroe”. Para as Américas,
trata-se da volta da Doutrina Monroe (1823 – América para os Americanos), com a
clara intenção de exercer seu poder em uma área que consideram sua zona de
influência.
No caso do Brasil, levando em conta sua
dependência comercial e econômica da China e o viés antiamericano do PT ao
longo dos 20 anos em que o partido exerceu o poder, a nova política externa dos
EUA, que começou a ser desenvolvida na Venezuela, em Cuba e no Panamá para
afastar a influência da China, até aqui, não colocou em questão as políticas do
governo brasileiro em relação a Pequim. Os entendimentos sobre terras raras com
o Brasil colocam desafios concretos à política externa. Em março próximo,
depois de visitar a Ásia, o presidente Lula deverá visitar oficialmente os EUA
e manter entendimentos com Trump. A preocupação do governo do PT é manter o
melhor diálogo com Trump e evitar possível interferência do governo
norte-americano nas eleições presidenciais de novembro. •

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