terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

À espreita. Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Cordão sanitário funcionou e portugueses rejeitaram ultradireita na Presidência

Radicais têm ascensão meteórica quando eleitores descobrem que não estão sós

Por dois terços dos votos, os portugueses elegeram o socialista moderado António José Seguro para a Presidência do país, dando um sonoro "não" ao ultradireitista André Ventura, do Chega. Funcionou aqui o cordão sanitário. As principais forças políticas do país, tanto à esquerda como à direita, se uniram no segundo turno para impedir que um candidato da direita radical vencesse a disputa. Em Portugal, quem governa é o premiê, mas o presidente tem poderes relevantes, como o de dissolver o Parlamento e vetar leis.

Meu coração exulta sempre que o cordão sanitário evita que radicais conquistem o poder. A democracia é boa não por favorecer a eleição de líderes sábios, mas por automatizar o afastamento de governantes que perdem eleições ou nem deixar que figuras mais problemáticas se aproximem do poder. O otimismo, porém, só vai até certo ponto. O Chega passou de um deputado no pleito de 2019 a segunda força política de Portugal, com 23% dos votos nas legislativas de 2025.

E não é só em Portugal. Com variações, o cenário se repete na França, na Alemanha, na Espanha. Na Itália, um partido de raízes fascistas fez a premiê. A melhor explicação que já encontrei para o fenômeno é a dada pelo cientista político português Vicente Valentim. Num resumo grosseiro, eleitores sempre tiveram ideias de direita, às vezes bem pesadas, mas, por sentir que existia reprovação social a essa ideologia, evitavam expressá-las em público ou nas urnas. Os diques, porém, só funcionam até certo ponto.

Especialmente depois do advento da internet, que permite até à diminuta minoria dos terraplanistas encontrar-se, esses eleitores ultradireitistas descobrem que não estão sós e deixam de falsificar suas reais preferências. Daí as ascensões explosivas das siglas radicais, que, no espaço de dois ou três pleitos, vão da insignificância a porção significativa dos Parlamentos nacionais. Esses partidos agora pautam o debate e ficam à espreita. Se circunstâncias adversas se materializarem, poderão eventualmente governar.

 

 

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