O Globo
Master: mesmo com cinco anos de antecipação,
bancos ainda teriam de cobrir metade do rombo de R$ 60 bilhões
O Banco Central pode vir a concordar com os bancos que estão pedindo o uso dos depósitos compulsórios como parte do que eles têm que recolher ao Fundo Garantidor de Crédito para cobrir o rombo do Banco Master. Mas o buraco é maior e a solução mais complexa do que parece. Juntando o Master, Will Bank, Letsbank e mais as linhas de assistência de liquidez que o Master acessou no Fundo, o valor chega a R$ 60 bilhões. Mesmo que os bancos antecipem cinco anos de prestações ao FGC dá apenas metade do necessário.
O estrago foi grande e a solução está levando
quatro grandes entidades do mercado bancário a trabalhar na engenharia
financeira para recompor o FGC. Será pedido, como diz o estatuto do Fundo, que
os bancos antecipem o que pagariam em cinco anos. Como as 250 instituições
financeiras pagam no total R$ 6 bilhões por ano, não será o suficiente. Por
isso haverá também uma alíquota extraordinária cobrada dos bancos. E eles devem
antecipar mais prestações do que as de cinco anos, previstas no estatuto.
É para pagar essa alta conta que os bancos
estão pedindo a ajuda do Banco Central. Querem usar os compulsórios sobre
depósitos à vista e sobre depósitos a prazo para cobrir parte do que terão que
enviar ao FGC. O BC ainda não deu resposta, mas no passado foi usado esse
expediente. Pode ser aceito,segundo informações que apurei.
O compulsório é instrumento de estabilidade
financeira, e técnicos que analisaram o assunto para a coluna dizem que o
efeito é nulo. Se hoje existem bilhões parados no compulsório, passará a haver
bilhões parados no FGC. Do ponto de vista da política monetária, não teria
impacto, já que o dinheiro não vai ser usado para dar crédito, mas para fazer
um colchão.
A dificuldade está nos detalhes. O
compulsório sobre depósito à vista deve chegar a R$ 60 bilhões, mas quem
recolhe são os grandes bancos. Esse dinheiro não é remunerado e pode facilmente
ser usado como pagamento por essas instituições. Mas as fintechs e as
financeiras não têm conta corrente de cliente, portanto não captam depósitos à
vista. Apenas depósitos a prazo, ou seja, as aplicações financeiras.
Hoje os compulsórios sobre os depósitos a
prazo chegam a R$ 600 bilhões e são remunerados pelo BC, já que os bancos
precisam também pagar o rendimento das aplicações financeiras. Se for permitido
o uso do compulsório sobre depósitos a prazo, o FGC passaria a remunerar as
instituições financeiras? Esta é uma questão ainda não resolvida.
A proposta de que fosse usado esse caminho
foi feita por quatro instituições do mercado. Febraban, ABBC, Acrefi (das
financeiras) e Zetta (das fintechs). O Valor apurou que o FGC aprovou a
proposta. De fato, o Fundo se reuniu na semana passada para discutir este
assunto. Agora falta o Banco Central e o Conselho Monetário Nacional aprovarem.
Minha informação é de que deve ser aprovado, porém será preciso entender melhor
todos esses detalhes.
O FGC tem duas instâncias deliberativas, a
diretoria e o conselho, e uma característica importante de governança: não tem
representante de bancos em nenhum dos dois níveis de administração porque isso
geraria conflito de interesses. A governança do Fundo exige que sejam quadros
recrutados no mercado. Foram eles que discutiram e aprovaram a proposta para
resolver o rombo.
O presidente Lula disse recentemente que
agradece a Deus todos os dias por ter uma pessoa como Gabriel Galípolo no Banco
Central. Ontem, foi a vez de Galípolo dizer o mesmo numa reunião na ABBC.
— Hoje é a minha vez de dizer que eu agradeço
a Deus de estar passando por um processo como este tendo como presidente, o presidente
Lula. Não só pela forma como ele reforçou na fala dele a autonomia do Banco
Central e da Polícia Federal. Muita gente pode dizer, isso é garantia
constitucional. É mesmo. Mas ter essa certeza, essa tranquilidade que a gente
vai poder decidir com autonomia, sem que alguém nos pergunte o que está sendo
descoberto. E ter a garantia dessa proteção do presidente da República e com a
experiência que ele tem por ter passado por diversas crises. O que essa
experiência traz para que a gente possa desenvolver o nosso trabalho é muito
importante.
A solução de todos os problemas criados pelo
Master está longe do fim, mas pelo menos não há conflito entre o governo e o
Banco Central. A autonomia do BC para decidir, sem tentativa de interferência
do governo, é meio caminho andado.

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