terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Reconstruir seguranças laborais, tarefa contra o vale-tudo. Por Pedro Cafardo

Valor Econômico

Há enorme controvérsia sobre a regulamentação do trabalho por aplicativos

Amélia, de 65 anos, saiu de casa para ir ao supermercado caminhando em uma rua de Pinheiros, em São Paulo, por volta das 18 horas. Era uma quinta-feira de verão, e o sol ainda iluminava a cidade. Vários motociclistas passavam em alta velocidade até que um deles, com um colega na garupa, parou ao lado da mulher:

“Passa o celular aí, vovó!”, ordenou, sem descer da moto.

“Não tenho celular, pode ver”, respondeu a trêmula senhora, mostrando a bolsa para o carona que parecia ter uma arma na mão.

“Então passa aí o cartão, e na próxima vez não esqueça o celular”, disse o motoqueiro ao empurrar a mulher e partir com o cartão no bolso.

Essa é uma cena comum em São Paulo e em muitas cidades brasileiras. Sumiram os trombadinhas mãos-leves, batedores de carteira. Agora ladrões usam velozes motocicletas para fazer assaltos, disfarçados de entregadores. No Brasil todo, houve estimados 900 mil roubos e furtos de celulares em 2025, sendo 390 mil no Estado de São Paulo e 154 mil na cidade de São Paulo.

Estimativas do Dieese indicam que há cerca de 1 milhão de motoboys no país, metade deles registrada em plataformas digitais e outra metade de entregadores totalmente informais.

A imagem desses profissionais, que prestam enorme serviço, é manchada por uma minoria de larápios. Hoje, quando um motoboy para no meio-fio, as pessoas ao lado saem de fininho.

No país, o total de trabalhadores registrados em aplicativos, incluindo motoboys e taxistas, atinge 2,2 milhões. Eles são a face mais visível da informalidade no trabalho, mas representam parcela pequena de empregados não protegidos pela CLT, que somam 40 milhões. São adultos jovens, principalmente, não sensibilizados para a fragilidade de suas relações de trabalho e para as dificuldades que poderão ter no futuro, quando atingirem idade de aposentadoria. A maioria não conta com benefícios das leis trabalhistas, como previdência, seguro-desemprego, licença médica, licença maternidade, fundo de garantia, aviso prévio, férias, décimo-terceiro etc.

Além de ser um fator perpetuador de desigualdades, essa alta informalidade corrói a base de arrecadação do Estado. Quanto maior ela for, menor será a capacidade pública de oferecer proteção social a essas pessoas.

A aproximação das eleições abre espaço para a discussão desse problema. Em editorial em seu site, o Conselho Regional de Economia de São Paulo (Corecon-SP) definiu como “urgente” a necessidade de regulamentar e conceder benefícios a esses profissionais para evitar que a modernização digital aprofunde a desigualdade e a precarização. Segundo a entidade, reconstruir as seguranças laborais, em parte destruídas pela reforma trabalhista de 2017, é um “desafio central” na atual estratégia de desenvolvimento.

Projeto de regulamentação do trabalho com aplicativos já tramita no Congresso, mas não parece haver muita disposição dos partidos políticos, nem mesmo dos mais à esquerda, para colocar a discussão da qualidade do trabalho e da educação profissional em suas principais propostas de governo.

É previsível que as campanhas, sobretudo as da direita, concentrem o foco (além do carro-chefe da segurança, “motorroubos” incluídos) em velhas propostas neoliberais, como empreendedorismo, austeridade fiscal e privatizações para reduzir o papel do Estado na economia. Em síntese, propostas orientadas pela crença de que o setor privado e o livre mercado são mais eficientes do que o poder público para resolver problemas sociais e promover desenvolvimento.

Há enorme controvérsia sobre a regulamentação do trabalho por aplicativos. A Amobitec, associação que reúne as maiores plataformas em operação no país, defende uma regulamentação moderada, que promova a inclusão dos trabalhadores no sistema de previdência, mas mantenha as características dos modelos de negócios das plataformas de tecnologia.

Os partidos políticos não terão como evitar esse tema na campanha eleitoral e podem se inspirar em modelos de fora. Nos EUA, onde a situação varia de Estado para Estado, os motoristas de aplicativos são prestadores de serviços autônomos, sem direitos trabalhistas. Não há remuneração mínima nem benefícios como seguro-desemprego, mas é grande a flexibilidade de horário e baixo o controle das plataformas, com inúmeras disputas judiciais.

Na França, o sistema é mais protetivo, e a informalidade, a norma. Os motoristas assinam contrato comercial com a plataforma, porém a Justiça pode reclassificá-los como empregados, caso haja controle excessivo, punições e dependência econômica. Existe remuneração mínima por corrida e exige-se transparência sobre como o algoritmo define preços e corridas. São obrigatórias contribuições para aposentadoria, seguridade social e seguro-doença. A plataforma paga o seguro de acidente de trabalho e não há férias remuneradas, salário fixo e seguro-desemprego.

O trabalho informal sem proteção, como já foi dito, não se resume aos aplicativos, porque está em todos os setores. Mais cedo ou mais tarde, o problema terá que ser encarado pelo Legislativo. Não para impor a velha CLT, mas para criar alguma regulamentação que impeça a instalação do “vale-tudo” nas relações trabalhistas.

E a dona Amélia?

Sim, dona Amélia resolveu o problema dela sem nenhum apoio policial. Na quinta-feira em que foi roubada, ela voltou para casa e cancelou o cartão antes que fosse usado pelo larápio. Não fez boletim de ocorrência e adotou um hábito bastante difundido em São Paulo: ao sair de casa, leva o “celular do ladrão”, um aparelho antigo, sem acesso à internet e ao banco. No sábado, vai ver bloquinhos de carnaval com ele na bolsa.

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