Folha de S. Paulo
A mensagem do cantor se encaixa perfeitamente no tom dos protestos pacíficos em Minneapolis
Maior erro estratégico para os defensores dos
imigrantes latinos seria partir pra violência ou chamar o povo para a guerra
Quem esperava um gesto revolucionário
de Bad Bunny em
pleno Super Bowl se
decepcionou. Contra a divisão, a truculência da polícia imigratória e o
preconceito antilatino do governo Trump (jamais
mencionados), o cantor não conclamou para a guerra, não pediu a queda do governo
e nem mesmo o fim do ICE.
Sua mensagem, escrita num outdoor caso não ficasse óbvia o suficiente em meio à celebração da sensualidade latina: "A única coisa mais poderosa que o ódio é o amor". Entoou até mesmo um "God bless America" ao fim do show, mas de uma América inclusiva, grande: o continente americano com todos os seus países, e não apenas os Estados Unidos. Todos juntos, unidos em harmonia e respeito.
E não me venham com o clichê de que o amor é
revolucionário. Não é! O amor universal é conservador. Ele atenua os conflitos
no abraço quentinho dos bons sentimentos. Ele diz que o conflito —seja de raça,
gênero, classe ou nação— não é a realidade última. Num nível mais profundo, os
conflitos poderiam ser resolvidos se todos redescobrissem sua humanidade comum
e passassem a cooperar.
A mensagem de Bad Bunny se encaixa
perfeitamente, aliás, no tom dos protestos pacíficos que tomam Minneapolis.
Armados com nada além de smartphones
para documentar a violência policial, os manifestantes entoam
cânticos de paz e dizem aos próprios agentes da ICE: "Está tudo bem em
mudar de ideia; junte-se a nós".
Estamos a um universo de distância dos protestos do
Black Lives Matter de 2020, que exigiam o fim das forças policiais
e, em algumas cidades, promoveram violência e vandalismo.
Esse apelo a nossos melhores sentimentos
frente à opressão violenta é também boa estratégia política. Ela faz com que
pessoas não engajadas simpatizem com a causa e passem a repudiar a violência do
governo. Já atos de ruptura violenta e chamados à guerra geram medo e má
vontade na maioria que estava em cima do muro. É o que mostram Erica Chenoweth
e Maria Stephan em "Why Civil Resistance Works", clássico de 2011.
A estratégia de persuasão pacífica vale
enquanto algumas condições básicas vigorarem, como a democracia e alguns
limites ao poder. Se Trump conseguir desmontar o sistema eleitoral ou aprovar
leis que dificultem o voto da oposição, a arena da opinião pública deixa de ser
tão relevante.
A estratégia do amor depende também de que o
poder contra o qual os protestos se ergam tenha algum limite ético e/ou alguma
restrição externa. Se o governo se sentir empoderado para abrir fogo contra
manifestantes sem represália —como fez o governo do Irã e como fazia o governo
Maduro—, as belas mensagens de paz e amor perdem seu efeito.
Eu não confiaria nos limites éticos do
governo Trump, mas por enquanto tanto a democracia quanto os limites externos
ao governo —Judiciário, imprensa— ainda vigoram. O maior erro estratégico para
a oposição e para os defensores dos imigrantes latinos seria partir pra
violência ou chamar o povo para a guerra. Um Bad Bunny mais ácido, mais
revolucionário, seria talvez catártico durante o Super Bowl, mas seria um prato
cheio para o discurso pró-Trump, que pinta a oposição como extremistas e
terroristas em potencial. O amor nem sempre vence o ódio, mas ainda é a melhor
estratégia.

Nenhum comentário:
Postar um comentário