terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Pode o amor de Bad Bunny vencer Trump? Por Joel Pinheiro da Fonseca

Folha de S. Paulo

A mensagem do cantor se encaixa perfeitamente no tom dos protestos pacíficos em Minneapolis

Maior erro estratégico para os defensores dos imigrantes latinos seria partir pra violência ou chamar o povo para a guerra

Quem esperava um gesto revolucionário de Bad Bunny em pleno Super Bowl se decepcionou. Contra a divisão, a truculência da polícia imigratória e o preconceito antilatino do governo Trump (jamais mencionados), o cantor não conclamou para a guerra, não pediu a queda do governo e nem mesmo o fim do ICE.

Sua mensagem, escrita num outdoor caso não ficasse óbvia o suficiente em meio à celebração da sensualidade latina: "A única coisa mais poderosa que o ódio é o amor". Entoou até mesmo um "God bless America" ao fim do show, mas de uma América inclusiva, grande: o continente americano com todos os seus países, e não apenas os Estados Unidos. Todos juntos, unidos em harmonia e respeito.

E não me venham com o clichê de que o amor é revolucionário. Não é! O amor universal é conservador. Ele atenua os conflitos no abraço quentinho dos bons sentimentos. Ele diz que o conflito —seja de raça, gênero, classe ou nação— não é a realidade última. Num nível mais profundo, os conflitos poderiam ser resolvidos se todos redescobrissem sua humanidade comum e passassem a cooperar.

A mensagem de Bad Bunny se encaixa perfeitamente, aliás, no tom dos protestos pacíficos que tomam Minneapolis. Armados com nada além de smartphones para documentar a violência policial, os manifestantes entoam cânticos de paz e dizem aos próprios agentes da ICE: "Está tudo bem em mudar de ideia; junte-se a nós".

Estamos a um universo de distância dos protestos do Black Lives Matter de 2020, que exigiam o fim das forças policiais e, em algumas cidades, promoveram violência e vandalismo.

Esse apelo a nossos melhores sentimentos frente à opressão violenta é também boa estratégia política. Ela faz com que pessoas não engajadas simpatizem com a causa e passem a repudiar a violência do governo. Já atos de ruptura violenta e chamados à guerra geram medo e má vontade na maioria que estava em cima do muro. É o que mostram Erica Chenoweth e Maria Stephan em "Why Civil Resistance Works", clássico de 2011.

A estratégia de persuasão pacífica vale enquanto algumas condições básicas vigorarem, como a democracia e alguns limites ao poder. Se Trump conseguir desmontar o sistema eleitoral ou aprovar leis que dificultem o voto da oposição, a arena da opinião pública deixa de ser tão relevante.

A estratégia do amor depende também de que o poder contra o qual os protestos se ergam tenha algum limite ético e/ou alguma restrição externa. Se o governo se sentir empoderado para abrir fogo contra manifestantes sem represália —como fez o governo do Irã e como fazia o governo Maduro—, as belas mensagens de paz e amor perdem seu efeito.

Eu não confiaria nos limites éticos do governo Trump, mas por enquanto tanto a democracia quanto os limites externos ao governo —Judiciário, imprensa— ainda vigoram. O maior erro estratégico para a oposição e para os defensores dos imigrantes latinos seria partir pra violência ou chamar o povo para a guerra. Um Bad Bunny mais ácido, mais revolucionário, seria talvez catártico durante o Super Bowl, mas seria um prato cheio para o discurso pró-Trump, que pinta a oposição como extremistas e terroristas em potencial. O amor nem sempre vence o ódio, mas ainda é a melhor estratégia.

 

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