Folha de S. Paulo
Moraes faz gol contra Musk; estados
americanos processam empresa de vídeos curtos
O TikTok é
projetado para viciar crianças, o que prejudica a saúde mental delas, bidu. Por
isso, 13 governos
estaduais dos Estados Unidos e o Distrito de Columbia estão processando a
empresa de vídeos curtinhos.
A descrição do problema no processo e as
críticas ao algoritmo do TikTok fazem lembrar o funcionamento de muitas das
maiores redes sociais e de plataformas de mídia, embora na ação judicial se dê
ênfase à manipulação de emoções infantis. Mesmo assim, se o TikTok merece
processo, seus pares também deveriam entrar na dancinha.
Além do mais, é mais fácil bater no TikTok,
que vem da China,
país com o qual os americanos travam guerra fria, comercial, tecnológica e
cultural. Como se recorda, em abril o Congresso americano aprovou lei que determina o
banimento do TikTok em janeiro de 2025, caso a empresa continue
chinesa.
Ainda assim, a iniciativa dos estados americanos é mais um capítulo no combate de governos contra empresas gigantes de mídia social e similares. Por sua vez, a refrega jurídica é parte de um embate mais geral que envolve aquilo que se chama de "big techs", conflito que, por ora, dado o tamanho do problema e do poder dessas companhias, ainda não foi muito além de escaramuças, regulações incipientes e multas.
Alexandre de
Moraes obviamente não está só, como se pode notar. Em outro
exemplo, neste ano o Estado
francês prendeu o dono do Telegram, Pavel Durov,
que mantém sob liberdade vigiada.
Moraes marcou um gol logo no início do jogo
contra o X-Twitter de Elon Musk,
que por ora parece ter
aceito o cumprimento de leis brasileiras. Por outro lado, com a
liberação do acesso ao X-Twitter no país, Musk terá de volta meios para
continuar sua campanha.
Sim, trata-se de início do jogo. Além do
poder imenso de que dispõe para fazer estrago, Musk vai firmando sua posição de
combatente libertário na política digital do planeta. Seus negócios, sua mídia
digital, suas tretas e sua posição de influenciador planetário são também plataformas
para abalar instituições políticas nacionais, sem escrúpulos ou
hipocrisias democráticas ou humanitárias, como ainda é o comportamento de
tantos de seus pares.
Musk é um
líder das celebridades plutocráticas que chamam de
"libertária" a ideia de submeter Estados nacionais ao governo privado
de empresas transnacionais. Obviamente, essa tentativa não é nova —na verdade,
é recorrente em pelo menos meio milênio de capitalismo.
Desde que a democracia começou a se
disseminar pelo mundo, em meados do século passado, é difícil de lembrar ataque
tão descarado, no entanto.
Parece fácil perceber a novidade e a
profundidade do alcance de tal empreitada (global e envolve governos ricos) e
do caráter explícito de ações e propaganda contra instituições de governo e
Justiça. Nova também é a capacidade de persuadir massas, de criar exércitos de
fãs, que de certa forma já se comportam como súditos ou membros de um culto
personalista da riqueza e, em particular, culto do grande rico. Se isso faz
lembrar mentalidades e figuras importantes nas eleições brasileiras, não é por
acaso.
Por obra ou omissão do reacionário Congresso
brasileiro, a regulamentação de mídias sociais e "big techs" ainda
está pelo caminho. A vitória de Alexandre de Moraes foi importante, mas é
apenas um imenso esparadrapo em um problema que sangra muito.
Um comentário:
Excelente análise!
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