O Globo
A civilização ganha com a imprensa
independente
Por meio de soldados arrependidos, o
jornalista Seymour Hersh soube da chacina em My Lai. Na manhã de 16 de março de
1968, helicópteros da Companhia Charlie desceram no pequeno vilarejo
vietnamita. A ordem: destruir a aldeia suspeita de abrigar combatentes
vietcongues. Entre 7h30 e 11h, os soldados mataram cerca de 500 pessoas, entre
crianças, mulheres e idosos. Estupraram mulheres e meninas. Bebês foram mortos
a tiros ou na ponta das baionetas.
Nenhuma arma foi encontrada.
Com informações colhidas entre os militares,
Seymour Hersh publicou a história em novembro de 1969, quase 20 meses depois do
massacre. Inicialmente foi desmentido pelo Exército americano. Depois de novas
reportagens de Hersh, com mais detalhes e depoimentos, o Exército mudou de
versão. Falou de uma ação exitosa com a morte de 128 vietcongues. A mentira
logo seria desmontada. As revelações de Hersh serviram para alimentar a reação
da opinião pública contra o envolvimento dos Estados Unidos na Guerra do
Vietnã. As tropas americanas deixaram o país em 1973, depois dos Acordos de
Paris. A guerra terminou em 1975, com a vitória vietnamita, depois de milhares
de baixas de ambos os lados.
O padrão da hipocrisia voltou a ser repetido
em 2004. Novamente pelas mãos de Seymour Hersh, soube-se das torturas
praticadas na prisão de Abu Ghraib, no Iraque. Desta vez, os americanos estavam
em guerra contra o regime de Saddam Hussein. No presídio controlado pelo
Exército dos Estados Unidos, soldados praticavam sevícias e assassinatos contra
os presos, usando cabos de vassoura, simulações de afogamento, choques
elétricos e queimaduras com cigarros. Prisioneiros eram empilhados nus em
pirâmides humanas enquanto soldados posavam para fotos, sorrindo. Encurralado
pelas denúncias, o Exército tentou desmentir as notícias. Hersh então forneceu
as fotos dos próprios militares ao lado dos prisioneiros torturados e mortos.
As armas de destruição em massa, argumento oficial justificando a invasão do
Iraque, jamais foram encontradas. Eram um engodo.
Hersh, ícone do jornalismo investigativo
americano, é tema de “Cover-up”, documentário de Laura Poitras e Mark Obenhaus.
Além dos dois casos acima, o filme mostra o envolvimento do repórter na
revelação de outros episódios da política americana, como o Watergate, com Carl
Bernstein e Bob Woodward, escândalo que levou o presidente Richard Nixon à
renúncia. Ou ainda o relacionamento de John Kennedy e Marilyn Monroe,
confirmado por seus seguranças ao repórter. Aos 87 anos, Hersh continua
incomodando.
“Cover-up”, disponível na Netflix, deveria
ser visto por quem ainda acredita que jornalismo pode ser um instrumento de
combate à mentira oficial. E que não deve se acovardar diante de pressões nem
proteger ideologicamente os lados envolvidos. De imediato, serve para as
milícias digitais — algumas integradas por jornalistas — que atacam a colunista
Malu Gaspar, do GLOBO, por suas revelações sobre o caso Master.
Parte de “Cover-up” dedica-se às fontes de
Hersh. Poitras pergunta várias vezes suas identidades. O repórter se nega a
revelar:
— Devo protegê-las — diz.
Não é apenas uma questão ética, de confiança,
mas também garantia contra eventuais retaliações. Em alguns casos, já passaram
décadas — nem por isso Hersh se dispõe a trazer a público seus informantes.
É uma lição.
Em certo momento, Hersh se irrita quando
Poitras revela detalhes de suas investigações e chega perto de identificar
fontes. Poitras investiga o investigador. Traz revelações. Os papéis se
invertem, de repente Hersh luta para proteger seus informantes. É um dos
momentos cruciais do documentário. As identidades não podem ser escancaradas
porque as informações vieram sob condição de anonimato.
Com indicações e pistas, Hersh faz o básico
do jornalismo investigativo: verifica os fatos. Procura descobrir se o que tem
em mãos é seguro e verdadeiro. Sai atrás de novas fontes. Como tem
credibilidade — ele é conhecido por cumprir acordos —, consegue cercar e
comprovar as versões.
Por seu prestígio, atrai novos informantes.
Outros descalabros são trazidos a público. Suas revelações ajudaram a encurtar
uma guerra, a terminar cruéis sessões de tortura contra prisioneiros, a afastar
um presidente corrupto. Vidas foram poupadas. A civilização ganha com o
jornalismo independente quando pode se defender de quem a usurpa.

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