segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Jornalismo investigativo. Por Miguel de Almeida

O Globo

A civilização ganha com a imprensa independente

Por meio de soldados arrependidos, o jornalista Seymour Hersh soube da chacina em My Lai. Na manhã de 16 de março de 1968, helicópteros da Companhia Charlie desceram no pequeno vilarejo vietnamita. A ordem: destruir a aldeia suspeita de abrigar combatentes vietcongues. Entre 7h30 e 11h, os soldados mataram cerca de 500 pessoas, entre crianças, mulheres e idosos. Estupraram mulheres e meninas. Bebês foram mortos a tiros ou na ponta das baionetas.

Nenhuma arma foi encontrada.

Com informações colhidas entre os militares, Seymour Hersh publicou a história em novembro de 1969, quase 20 meses depois do massacre. Inicialmente foi desmentido pelo Exército americano. Depois de novas reportagens de Hersh, com mais detalhes e depoimentos, o Exército mudou de versão. Falou de uma ação exitosa com a morte de 128 vietcongues. A mentira logo seria desmontada. As revelações de Hersh serviram para alimentar a reação da opinião pública contra o envolvimento dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã. As tropas americanas deixaram o país em 1973, depois dos Acordos de Paris. A guerra terminou em 1975, com a vitória vietnamita, depois de milhares de baixas de ambos os lados.

O padrão da hipocrisia voltou a ser repetido em 2004. Novamente pelas mãos de Seymour Hersh, soube-se das torturas praticadas na prisão de Abu Ghraib, no Iraque. Desta vez, os americanos estavam em guerra contra o regime de Saddam Hussein. No presídio controlado pelo Exército dos Estados Unidos, soldados praticavam sevícias e assassinatos contra os presos, usando cabos de vassoura, simulações de afogamento, choques elétricos e queimaduras com cigarros. Prisioneiros eram empilhados nus em pirâmides humanas enquanto soldados posavam para fotos, sorrindo. Encurralado pelas denúncias, o Exército tentou desmentir as notícias. Hersh então forneceu as fotos dos próprios militares ao lado dos prisioneiros torturados e mortos. As armas de destruição em massa, argumento oficial justificando a invasão do Iraque, jamais foram encontradas. Eram um engodo.

Hersh, ícone do jornalismo investigativo americano, é tema de “Cover-up”, documentário de Laura Poitras e Mark Obenhaus. Além dos dois casos acima, o filme mostra o envolvimento do repórter na revelação de outros episódios da política americana, como o Watergate, com Carl Bernstein e Bob Woodward, escândalo que levou o presidente Richard Nixon à renúncia. Ou ainda o relacionamento de John Kennedy e Marilyn Monroe, confirmado por seus seguranças ao repórter. Aos 87 anos, Hersh continua incomodando.

“Cover-up”, disponível na Netflix, deveria ser visto por quem ainda acredita que jornalismo pode ser um instrumento de combate à mentira oficial. E que não deve se acovardar diante de pressões nem proteger ideologicamente os lados envolvidos. De imediato, serve para as milícias digitais — algumas integradas por jornalistas — que atacam a colunista Malu Gaspar, do GLOBO, por suas revelações sobre o caso Master.

Parte de “Cover-up” dedica-se às fontes de Hersh. Poitras pergunta várias vezes suas identidades. O repórter se nega a revelar:

— Devo protegê-las — diz.

Não é apenas uma questão ética, de confiança, mas também garantia contra eventuais retaliações. Em alguns casos, já passaram décadas — nem por isso Hersh se dispõe a trazer a público seus informantes.

É uma lição.

Em certo momento, Hersh se irrita quando Poitras revela detalhes de suas investigações e chega perto de identificar fontes. Poitras investiga o investigador. Traz revelações. Os papéis se invertem, de repente Hersh luta para proteger seus informantes. É um dos momentos cruciais do documentário. As identidades não podem ser escancaradas porque as informações vieram sob condição de anonimato.

Com indicações e pistas, Hersh faz o básico do jornalismo investigativo: verifica os fatos. Procura descobrir se o que tem em mãos é seguro e verdadeiro. Sai atrás de novas fontes. Como tem credibilidade — ele é conhecido por cumprir acordos —, consegue cercar e comprovar as versões.

Por seu prestígio, atrai novos informantes. Outros descalabros são trazidos a público. Suas revelações ajudaram a encurtar uma guerra, a terminar cruéis sessões de tortura contra prisioneiros, a afastar um presidente corrupto. Vidas foram poupadas. A civilização ganha com o jornalismo independente quando pode se defender de quem a usurpa.

 

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