segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

A Europa e a aliança China-Rússia-EUA, por Oliver Stuenkel

O Estado de S. Paulo

O apoio americano a Orbán, cortejado ainda por Moscou e Pequim, expõe uma convergência anti-UE

A recente viagem de Marco Rubio a Budapeste, após sua participação na Conferência de Segurança de Munique, revela mais sobre política global do que parece à primeira vista. Com a Hungria em plena campanha para as eleições de abril, o secretário de Estado decidiu reforçar o apoio de Washington a Viktor Orbán, um líder que se orgulha de ter construído um “Estado iliberal” e, há anos, corrói a democracia húngara.

Ao lado de Orbán, Rubio afirmou que o presidente Trump está “profundamente comprometido” com o êxito do primeiroministro – e foi além, disse que “o sucesso dele é o nosso sucesso”. É uma guinada radical: em maio de 2019, Rubio, então senador, assinou uma carta bipartidária ao presidente Trump, alertando-o para o enfraquecimento da democracia na Hungria. Nela, os senadores afirmaram que, “nos últimos anos, a democracia na Hungria se deteriorou significativamente” e, sob Orbán, “o processo eleitoral tornou-se menos competitivo”, e o Judiciário está “cada vez mais controlado pelo Estado”.

A mensagem atual, porém, é outra: Washington não apenas deixou de se preocupar com a escalada autoritária, mas está tentando ajudar Orbán contra o oposicionista pró-União Europeia Péter Magyar e o partido Tisza, que aparece à frente na maioria das pesquisas sérias.

Mas o “modelo húngaro”, celebrado por parte da direita americana, surte também consequências internas profundas. Como observa Anne Applebaum na revista The Atlantic, sob o comando de Orbán a Hungria tornou-se um dos países mais pobres da UE, com a produtividade entre as mais baixas da região e crescimento decepcionante. O país aparece há anos entre os mais corruptos do bloco europeu em índices internacionais. Applebaum descreve um sistema em que empresários próximos ao poder obtêm contratos públicos e fundos europeus, criando uma economia baseada na lealdade política. Os serviços do governo à população refletem esse desgaste: dois terços dos húngaros classificam o sistema educacional como ruim, hospitais enfrentam falta de médicos, pois muitos emigraram, e unidades hospitalares inteiras foram fechadas.

Em 2023, a Comissão Europeia decidiu reter bilhões de euros destinados à Hungria por preocupações com corrupção, retrocesso democrático e enfraquecimento do estado de direito – medida ainda em disputas judiciais no âmbito da UE. Em Budapeste, Rubio sinalizou que, enquanto Orbán permanecer, a Casa Branca oferecerá apoio caso o país enfrente dificuldades financeiras – uma mensagem que contrapõe Bruxelas.

INTERESSES. Ainda mais revelador que o apoio americano é Orbán também ser o preferido de Moscou e Pequim. O Kremlin vê nele seu aliado mais confiável dentro da UE, um líder disposto a evitar consensos sobre a Ucrânia e preservar influência. Orbán defende que a real ameaça aos europeus não vem da Rússia, mas de Bruxelas. Já a China trata a Hungria como um instrumento de influência na UE, oferecendo investimentos e usando Budapeste para atrasar ou vetar iniciativas mais duras contra Pequim.

O que une Washington, Moscou e Pequim é o fato de os três enxergarem a UE como obstáculo – seja por sua capacidade regulatória contra empresas de tecnologia, sua ambição de autonomia estratégica, sua política de sanções contra a Rússia, ou por apostar no modelo de democracia liberal. Orbán, por sua vez, defende uma UE mais fraca e menos capaz.

Por décadas, a estratégia europeia repousava sobre três pilares: proteção dos EUA, energia barata da Rússia e integração econômica com a China. Agora os três estão em xeque. Os EUA ameaçam a soberania de um país europeu e mantêm-se ambíguos sobre o compromisso de defender membros da Otan; a Rússia invadiu um Estado europeu; e a relação comercial “ganha-ganha” com a China deixou de ser uma realidade consensual. Adaptar-se a esse novo cenário é como serrar três pernas de uma cadeira. Não surpreende que a Europa se apresse para fortalecer seu mercado interno, ampliar sua capacidade de defesa e buscar novas parcerias estratégicas – da Índia ao Mercosul.

A convergência anti-UE entre Washington, Moscou e Pequim em torno de um líder que concentra poder, enfraquece instituições e tolera corrupção estrutural diz muito sobre o momento atual do sistema internacional, ameaças à democracia e a dimensão do desafio europeu nos próximos anos. •

 

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