quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Com a PF desatada, Senado avança sobre o Master, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

CPI reage ao avanço das investigações franqueado pela troca de relator do caso no STF

Foi uma aprovação de baciada a da CPI do crime organizado: 21 convocações, sete convites, sete quebras de sigilo e quatro pedidos de informação. O resultado foi um Fla x Flu entre governistas e bolsonaristas com um Centrão ausente.

A cereja foi o convite a dois ministros do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli Alexandre de Moraes, e à esposa deste, Viviane Barci de Moraes, todas da lavra do senador Eduardo Girão (Novo-CE), mas é nas convocações e quebras de sigilo, que são mandatórias, que está o recheio do bolo.

Lá estão todas as estrelas do Master: Vorcaro, Augusto Lima, Luiz Antonio Bull, Angelo Silva, João Carlos Mansur e Fabiano Zettel. Mas também Paulo Henrique Costa (BRB), os irmãos Toffoli, o advogado da JBS que comprou o Tayayá, os alvos da Carbono Oculto e até os operadores das compras fraudulentas de vacinas da covid-19, que voltaram a dar as caras no escândalo da hora.

A maioria governista convocou o ex-presidente do BC Roberto Campos Neto e o ex-ministro da Economia, Paulo Guedes. O ministro Rui Costa (Casa Civil) e Gabriel Galípolo, atual presidente do BC, foram apenas convidados. O presidente e o relator da CPI, Fabiano Contarato (PT-ES) e Alessandro Vieira (MDB-SE), foram os autores de todas as quebras de sigilo (Master, Reag, Fictor, BK e Maridt) e pedidos de informação (acesso aos gabinetes do Senado e ao embarque no aeroporto de Brasília, além do registro de transferência de aviões).

As candidaturas majoritárias dos capitães da CPI não são suficientes para explicar tamanha diligência. Esta foi a primeira votação de requerimentos da CPI depois da troca do relator do caso Master no Supremo Tribunal Federal. Enquanto o ministro Dias Toffoli esteve à frente do inquérito, as provas da investigação ficaram custodiadas no seu gabinete.

Ao assumir o caso, o ministro André Mendonça as devolveu para a Polícia Federal e proibiu que fossem compartilhadas hierarquia acima, leia-se Andrei Rodrigues, diretor-geral da PF. A ordem abriu as comportas da operação ditada, até então, pelo rabo preso. E o governo, que nunca teve controle sobre a investigação, acabou perdendo também acesso às informações sobre seu andamento.

Tudo isso acontece num momento em que as pesquisas de opinião e intenção de voto mostram que a preocupação do eleitor com a corrupção acabou caindo no colo de um governo que, até aqui, vinha investindo no discurso de caça aos “magnatas da corrupção” e mantendo a postura “toma que o escândalo é teu”.

Daí deriva um quadro eleitoral mais difícil para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva do que imaginavam os artífices das populares entregas de seu governo e do que sugerem as dificuldades políticas da oposição. A pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) se engalfinha em intermináveis dramas familiares e os bolsonaristas da terceira via de Gilberto Kassab são enredados na sua queda de braço com o governador Tarcísio de Freitas pelo quinhão paulista, mas nada disso afeta o voo oposicionista.

Lula, em parte, paga o preço de ter tomado o Supremo Tribunal Federal como sua verdadeira base política. As consequências da desmesura dos poderes da Corte atravessam a Praça dos Três Poderes e estilhaçam o gabinete presidencial. O clima no Supremo é de cobrança a Lula, mas foi também a inação dos ministros contra a falta de limites de Toffoli que colocou na relatoria do caso mais disruptivo deste mandato o togado menos alcançável pelo Palácio do Planalto. O ministro do Executivo de quem André Mendonça é mais próximo, Jorge Messias (AGU), depende mais dele - para chegar ao Supremo - do que o inverso.

O presidente tem a seu favor a composição de palanques em regiões em que o lulismo é forte para negociar com personagens-chave do Congresso, como o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e seu antecessor, o deputado Arthur Lira (PP-AL), mas também precisa do apoio deles para aprovar a bandeira da reeleição, a escala 6x1. É beneficiário, ainda, de operações da Polícia Federal, como esta autorizada pelo ministro Flávio Dino, que alvejou o ex-senador Fernando Bezerra Coelho e seus filhos por suposto desvio de emendas parlamentares. O PSB ameaçava abandonar o PT da Bahia e se bandear para o palanque do União Brasil, no Estado, em troca do apoio do partido em Pernambuco.

A expectativa, no Congresso, é que operações do gênero se sucedam ao longo do ano eleitoral. Nem o Master nem o receio de que a campanha seja marcada pelas vísceras do orçamento secreto inibem a turma. Tome-se, por exemplo, a retirada da taxação extra sobre as “bets” para financiar a segurança pública na aprovação do PL antifacção. O Centrão liderou o descumprimento do acordo para manter a maior parte dos avanços obtidos no Senado e derrubou a taxação que vai tirar R$ 30 bilhões da segurança pública certo de que é sobre o governo que sempre recaem as cobranças no tema.

Agiu para atender à mesma fração do setor de apostas do país que se beneficiou da trama de lavagem de dinheiro identificada pela Operação Carbono Oculto e operada pelos fundos do Master. A segurança com a qual quebrou o acordo e derrubou a taxação se guia pela aposta de que, aconteça o que acontecer no eixo Supremo-Senado Federal no caso Master, o crime há de compensar.

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