O Globo
Evangélicos de menor renda foram os que menos
apoiaram Bolsonaro, os de renda maior foram os que mais apoiaram
A pesquisa Quaest divulgada ontem mostra que o governo Lula não melhorou a aprovação entre os evangélicos, mesmo depois de sinalizações como a edição do decreto reconhecendo a cultura gospel como manifestação cultural e a indicação de Jorge Messias, integrante da Igreja Batista Cristã, para o STF. De acordo com a pesquisa, 64% desaprovam o governo, ante 31% que o aprovam. Em setembro, os números eram um pouco melhores para Lula: 61% contra 35%.
Como aprovação de governo e reeleição andam
de mãos dadas, o resultado da pesquisa reedita o debate sobre o “voto do
evangélico”, como se toda essa população de 47,4 milhões de brasileiros usasse
o mesmo parâmetro nas urnas. Especialistas no assunto, como Juliano Spyer e
Carô Evangelista, costumam chamar atenção para o perfil multifacetado do voto
do evangélico. A decisão de apertar 13, 22 ou qualquer outro número se deu — e
se dará neste ano — por uma série de questões que vão além da religião. Em
muitos casos, religião e questões de costumes nem são o fator principal levado
em conta pelo eleitor evangélico.
O estudo “Evangelismo não bolsonarista:
análise do perfil socioeconômico dos eleitores evangélicos que rejeitaram
Bolsonaro em 2022” — feito por Emerson Urizzi Cervi e Naiara Sandi de Almeida
Alcantara, dos departamentos de ciência política das universidades federais do
Paraná e do Pará, respectivamente — explora o fator renda como uma das
variáveis mais relevantes.
Os dados, com base em pesquisa Datafolha que
ouviu 12 mil pessoas, mostram que evangélicos de menor renda foram os que menos
apoiaram Bolsonaro, enquanto os protestantes tradicionais e pentecostais,
geralmente de renda maior, foram os que mais apoiaram. A conclusão é que a
condição econômica pesou contra a reeleição de Bolsonaro, mesmo no segmento em
que ele foi vitorioso.
— Uma parcela do eleitorado decide o voto com
base nas políticas públicas. É a parcela que depende delas. Esse eleitor tende
a punir ou recompensar o candidato, a depender da situação dessas políticas
públicas — disse Cervi.
Concluindo: se o bolso vai bem, é ele que
tende a decidir o voto em setores do eleitorado, apesar da religião.
Em 2018, Bolsonaro usou a seu favor o
ressentimento dos que se sentiam marginalizados pelas políticas públicas
voltadas a minorias.
— O discurso religioso serviu como
mobilizador privilegiado de afetos que se traduziram em apoio eleitoral — diz o
estudo.
Em 2022, a história mudou:
— Eleitores de baixa renda foram os mais
atingidos pela desestruturação de políticas públicas.
Isso, como se viu, não significou apoio
majoritário dos evangélicos a Lula, mas representou a reconquista de parte
desse eleitorado, principalmente de renda mais baixa.
E agora em 2026? O governo continuará sem a
maioria do segmento, mas aposta nos efeitos de programas como a isenção do
Imposto de Renda para atingir o eleitor de renda mais baixa — e aí, os
evangélicos. Como o estudo destacou, “embora se diga que o eleitor evangélico é
a base do bolsonarismo, isso não é o mesmo que dizer que todo evangelismo se
limita a apoiar Bolsonaro”.

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