Folha de S. Paulo
Especialistas vaticinaram um período de
grande volatilidade nas relações entre países
Existem estados intermediários, como o
Brasil, com aspirações internacionais próprias
Não há como exagerar a capacidade de Donald Trump para
espalhar a destruição dentro e fora das fronteiras dos EUA. Tampouco cabe
subestimar a disposição e os recursos com os quais conta para investir contra a
democracia em seu país e contra as regras que tratam de conter o uso da força
bruta nas relações internacionais.
Onde tudo isso vai dar ninguém sabe ao certo e a experiência passada não ajuda lá essas coisas. O mundo de hoje é mais conectado pelo comércio, investimentos, finanças, as comunicações e o movimento de pessoas.
Entre as nações muito poderosas e aquelas
para as quais a soberania é pouco mais do que ficção, existem países
intermediários com aspirações internacionais próprias e alguns trunfos para
persegui-las. Em suma, o mundo de hoje tem pouco a ver com aquele que assistiu
à expansão imperialista entre os séculos 19 e 20 ou, mesmo, com a divisão de
áreas de influência de grandes potências, definidas pelos confrontos da Guerra Fria.
Recentemente, o New York Times perguntou a
cinco especialistas em assuntos internacionais para onde acreditavam que o
mundo caminhava. As respostas foram publicadas em uma seção de opinião especial
sob o título "O mundo está em caos. O que vem a seguir?".
Com argumentos diversos, os cinco
entrevistados vaticinaram um período de grande volatilidade nas relações entre
países; de falta de um mínimo de previsibilidade; e, em consequência, de riscos
de conflitos que fujam ao controle das nações que os iniciem.
Aqui destaco três autores e ideias
especialmente relevantes para as decisões de política externa do Brasil. Adam
Tooze, historiador da Universidade Columbia, enfatiza que a competição entre
países será balizada pelo modo como sejam capazes de construir poder a partir
do domínio da tecnologia e das formas variadas de produção de energia.
Matias Spektor, da Fundação Getúlio Vargas,
não crê possível um concerto estável entre nações nem divisão nítida de esferas
de influência. Profetiza, antes, um embate duro e constante nos quais
hierarquias e limites que as grandes potências tentarão impor estarão sempre
sujeitos a contestação.
Finalmente, a veterana historiadora Margaret
MacMillan, da Universidade de Oxford, chama a atenção para a discrepância entre
a complexidade dos desafios e a qualidade —baixíssima— da atual fornada de
líderes mundiais.
Se esses autores têm razão, mais do que nunca
a solidez da política externa brasileira dependerá de decisões de política
doméstica sobre exploração de recursos minerais; sobre a nossa já diversificada
matriz energética e sobre qual a política tecnológica possível, dados os
recursos disponíveis. De mais a mais, necessitará de sintonia fina e
inteligência diplomática para, em cada momento, decidir de que lado estão
nossos melhores interesses; com quem negociar; com quem se aliar; e em torno de
quais objetivos.
Para tanto, não podem faltar às lideranças
políticas um mínimo de noção do que o Brasil quer neste conturbado mundo; de
pragmatismo para fugir das armadilhas da polarização política interna; e de
disposição para aprender com nossa diplomacia profissional. Nenhuma dessas
qualidades parece disponível entre os líderes da direita bolsonarista.

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