O Globo
Presidente não tem conseguido transformar as
conquistas da vida real em crescimento expressivo de popularidade
O ano eleitoral começou com o presidente Lula colhendo boas notícias da vida real: a inflação voltou à meta, a renda do trabalho aumentou, e o desemprego atinge mínimas históricas, assim como a desigualdade e a miséria. A pesquisa Quaest divulgada ontem trouxe outras percepções do cotidiano das famílias para animar sua militância: pelo segundo mês consecutivo, a percepção de que a violência é o maior problema do país vem perdendo força, e cresce a expectativa de que a economia vá melhorar nos próximos 12 meses.
Hoje, Lula lidera a corrida eleitoral em
todos os cenários. Como ele deseja, o senador Flávio Bolsonaro se consolidou
como seu principal adversário, herdando rapidamente o eleitorado do pai e
também boa parte de sua rejeição. E o governador de São Paulo, Tarcísio de
Freitas, parece a cada dia mais fora da disputa. Flávio chega a ter mais que o
dobro das intenções de voto dele no primeiro turno, e o desempenho dos dois num
eventual segundo turno contra Lula é estatisticamente idêntico.
A leitura exclusiva dos dados acima sugere
amplo favoritismo petista na corrida deste ano, mas o horizonte é mais turvo do
que parece. Exatamente quatro anos atrás, em janeiro de 2022, a Quaest divulgou
uma pesquisa como a de ontem. E seus dados mostram que a prudência é a melhor
conselheira.
Há quatro anos, 27% dos eleitores já diziam
espontaneamente a essa altura que Lula seria sua escolha para presidente,
enquanto hoje o percentual é de 19%. Num cenário de oito candidatos, o petista
era o escolhido por 45%. Hoje, Lula figura com 36% das intenções de voto numa
lista com o mesmo número de opções.
Para o segundo turno, a vantagem projetada
era ainda maior. Lula tinha de 50% a 57%, e no mínimo 20 pontos de vantagem
sobre cada adversário. Numa eleição claramente polarizada, a projeção em
janeiro era que derrotasse Bolsonaro por 54% a 30%.
Hoje, Lula tem entre 43% e 46% a depender do
cenário de segundo turno, derrotando Flávio Bolsonaro por 45% a 38%, Tarcísio
de Freitas por 44% a 39%, e Ratinho Junior por 43% a 36%. Enquanto, quatro anos
atrás, a rejeição ao petista era de 43%, hoje chega a 54%.
A história é pródiga em exemplos de que nunca
se deve subestimar o poder do candidato que disputa a reeleição. Da demora de
Fernando Henrique Cardoso na maxidesvalorização do real em 1998, passando pelas
pedaladas fiscais de Dilma Rousseff, os exemplos são inúmeros. Se FH e Dilma
sempre negaram ter tomado as decisões com objetivo eleitoral, Jair Bolsonaro
rasgou a fantasia em 2022.
A três meses das eleições, ele conseguiu
aprovar no Congresso uma proposta que lhe permitiu gastar R$ 41 bilhões fora
das regras fiscais. O arsenal foi vasto: o Auxílio Brasil saltou de R$ 400 para
R$ 600, caminhoneiros e taxistas passaram a receber R$ 1 mil mensais, impostos
sobre os combustíveis foram cortados, e o subsídio ao botijão de gás dobrou. O resultado
se viu nas urnas: nove meses depois da pesquisa que dava 24 pontos de vantagem
para Lula, os dois fizeram a eleição mais competitiva da História brasileira,
com o petista vencendo por 50,9% a 49,1%.
Ao contrário do que ocorreu em seus outros
mandatos, Lula não tem conseguido transformar as conquistas da vida real em
crescimento expressivo de popularidade. No entanto ele e Bolsonaro, os dois
maiores líderes populares do país, já mostram que, novamente, há pouco espaço
para surgir uma terceira via.
Lula sai à frente com o partido mais bem
estruturado do país, um discurso azeitado de defesa dos mais pobres, a promessa
de acabar com a jornada 6 por 1 e de buscar a tarifa zero no transporte, além
de todo o poder da caneta presidencial. Mas não custa lembrar: 56% acham hoje
que ele não merece seguir como presidente.
*Paulo Celso Pereira é editor executivo do GLOBO

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