sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

2026: a saideira do Lula x Bolsonaro. Por Vera Magalhães

O Globo

Ao mesmo tempo que fica claro o desgaste da polarização entre lulismo e bolsonarismo, nada surgiu para ameaçá-la

De todos os ângulos que se observe a eleição de 2026, ela será a última ditada pelo antagonismo entre lulismo e bolsonarismo. Lula vai para sua derradeira disputa sem ter começado a preparar efetivamente sucessor para o ciclo seguinte. Jair Bolsonaro saiu de cena depois de condenado e preso, e sua capacidade de influenciar o pleito não está dada.

Todas as pesquisas apontam para vários dados paradoxais. Ao mesmo tempo que fica claro o desgaste dessa polarização entre lulismo e bolsonarismo, nada surgiu no horizonte para ameaçá-la, nem o eleitor parece ter certeza de que tipo de candidato gostaria de pôr no lugar daquilo que diz não lhe servir mais. Diante desse chove e não molha, não é estranho que o nome de Flávio Bolsonaro tenha largado bem, porque ele traz o pedigree e aglutina aquela franja do eleitor que não enxerga uma direita desvinculada do ex-presidente.

A dúvida é o fôlego do senador fluminense para resistir a uma campanha que tende a ser das mais renhidas dos últimos anos, diante dos telhados de vidro próprios — como o caso das rachadinhas e de sua espantosa evolução patrimonial —, do clã como um todo e da fragilidade emocional e discursiva demonstrada por ele em disputas eleitorais anteriores.

Caso o impulso da largada arrefeça, e a resistência demonstrada até aqui por partidos do Centrão ou até mesmo por setores da economia mais fiéis ao bolsonarismo a um representante da família na cédula eleitoral se mantenha, não está fora de cogitação a possibilidade de Bolsonaro simplesmente mudar de ideia e anunciar outro nome, mais palatável, como seu “sucessor”.

Nesse caso, mesmo tendo perdido força, o nome que desponta nas conversas com agentes políticos e econômicos continua sendo Tarcísio de Freitas. Mas a margem para o governador de São Paulo, que teria de tomar a decisão radical de renunciar ao mandato em abril, se reduziu drasticamente diante da maneira como a família Bolsonaro conduziu a substituição do líder preso — emocional, centralizada e sem abrir discussões aos aliados.

Esse quadro mostra a direita com o time bem mais desorganizado que a esquerda neste raiar de 2026, ainda que o governo tenha uma série de obstáculos no caminho do último ano deste terceiro mandato de Lula. A economia real vai bem, de acordo com uma série de indicadores, mas isso, como analisei no meu artigo mais recente, joga contra o início imediato da queda da taxa de juros, frustrando a expectativa do governo de contar com estímulos para mais crescimento e mais crédito no ano eleitoral.

Da mesma maneira, a principal fonte de desconfiança do mercado com o governo petista, a questão fiscal, permanece como ponto de atenção, com o arcabouço fazendo goteiras por toda parte e o gasto público a caminho de explodir caso mudanças não sejam feitas, ou ao menos desenhadas, para o período a partir de 2027.

Esse cenário em que os dois lados chegam com um eleitorado ainda fiel, mas cansado, desconfiado e sem grande entusiasmo, anuncia uma campanha em que o recurso às narrativas, muitas vezes descoladas da realidade, será total.

A direita pinta um Brasil caótico que não condiz com os dados de melhora da situação econômica e social. Tentará jogar na conta de Lula um dos problemas reais mais graves que assolam o país, a crise da segurança pública, que não é responsabilidade precípua da União e requer uma abordagem menos simplista e muito mais sofisticada, com a disposição real de atuação em conjunto entre Poderes e entes federativos.

Lula, do outro lado, apostará como nunca na retórica do pai dos pobres, com programas e conquistas sólidos para exibir no palanque e na comunicação. O destaque será a defesa da soberania nacional e da postura altiva do Brasil no cenário global — para o que ele contou com a ajuda decisiva do desesperado clã Bolsonaro, aliás.

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