Folha de S. Paulo
A escola de Niterói não perdeu por causa do
presidente, mas ele ficou com o gosto amargo da derrota
O equívoco do governo foi ter se associado a
uma festa que não deve satisfações aos deveres da política
A Acadêmicos de Niterói não foi rebaixada porque
homenageou o presidente Luiz Inácio da Silva (PT). Recebeu as menores
notas dos jurados do desfile das escolas de samba do Rio de
Janeiro porque apresentou desempenho inferior às concorrentes
do Grupo Especial.
É do jogo e não há desonra nisso. Acontece com a maioria das agremiações de menor porte. Sobem num ano, descem no seguinte; algumas ganham força e conseguem se firmar, como a campeã Unidos do Viradouro, ex-integrante do segundo escalão.
O gosto amargo de derrota política ficou na
conta do governo por falta de tirocínio político, ausência de senso de oportunidade
e excesso de confiança num apelo popular que Lula e
o PT já não atraem. Natural, também. Efeito da passagem do tempo, da
concorrência de oposição ativa e da existência de novas demandas na sociedade.
Os danos de um desfile mediano teriam ficado circunscritos à escola e não
ultrapassariam as fronteiras do Carnaval se
o presidente e o partido não tivessem cometido o equívoco de sentar praça num
campo minado.
Sim, o enredo foi
escolha da Niterói, e as verbas públicas distribuídas igualmente
entre todas. Mas a coisa não parou por aí. Poderia ter parado se o governo não
tivesse resolvido assumir como sua a causa da escola.
A mulher do
presidente ensaiou e por pouco não desfilou. Antes disso, partiu
dela o convite para o artista que representou o marido na Sapucaí. Ministros
foram com Lula ao sambódromo e, junto com dirigentes petistas, passaram dias
negando o inegável caráter panfletário do evento, com argumentos que
confirmavam a intenção eleitoral.
E tudo isso para nada, além de se associar a
zombarias naturais na folia, mas contraproducentes na atividade de quem precisa
agregar apoiadores ao seu projeto de poder.
A escola volta para Niterói, preparando-se
para o próximo Carnaval. Já o governo fica com o ônus ter-se indisposto com um
eleitorado com o qual o samba não tem compromisso, mas que a sagacidade
política do candidato deveria ter a perícia de preservar.

Nenhum comentário:
Postar um comentário