sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Equívoco amador, por Pablo Ortellado

O Globo

PT alega que o desfile da Acadêmicos de Niterói foi uma iniciativa independente da escola

O PT alega que o desfile da Acadêmicos de Niterói foi uma iniciativa independente da escola e que o governo não deveria ser responsabilizado por ela. Pode ser que o argumento funcione juridicamente, mas, com certeza, não funciona politicamente. Politicamente, o desfile foi um equívoco tão grande que põe em dúvida o profissionalismo da campanha do presidente Lula à reeleição.

Montar um enredo contando a trajetória de Lula não é errado em si. A biografia do presidente é épica e propícia para um enredo de escola de samba. O problema é que o desfile se deu em ano eleitoral, e a Acadêmicos de Niterói recebeu recursos públicos.

Quando a escola decidiu usar a trajetória de Lula como enredo, é difícil imaginar que o presidente não tenha sido consultado. Ao concordar com o desfile, Lula se tornou corresponsável por ele, politicamente falando. O PT disse em nota que “a concepção, desenvolvimento e execução do desfile ocorreram de forma autônoma pela agremiação carnavalesca, sem participação, financiamento, coordenação ou qualquer ingerência do Partido dos Trabalhadores ou do presidente Lula” —, mas esqueceu que isso não tem valor político.

A atitude profissional teria sido a coordenação da campanha supervisionar a construção do desfile e atuar sobre os temas sensíveis. Se isso não fosse possível, por respeito à autonomia artística da escola, a saída então teria sido convencê-la a mudar de tema.

A Acadêmicos de Niterói soltou nota dizendo que houve tentativa de interferência, com pedidos de mudança de enredo e questionamentos sobre a letra do samba por parte de “gestores do carnaval carioca”. Se a interferência por parte da Liga Independente das Escolas de Samba foi indevida, uma interferência da campanha de Lula teria sido devida — e necessária. Não se trata de cercear a liberdade artística, mas de reconhecer que campanhas eleitorais precisam avaliar riscos políticos antes de autorizar uma associação tão direta.

Além disso, a escola deveria ter sido informada de que não poderia receber recursos públicos, principalmente federais. Mas recebeu R$ 1 milhão da Embratur, R$ 2,5 milhões do governo do Rio, R$ 2,15 milhões da Prefeitura do Rio e R$ 4 milhões da Prefeitura de Niterói. Nenhum desses recursos foi exclusivo para a Acadêmicos de Niterói, mas nem por isso deixam de ser recursos públicos empregados num enredo que elogia um presidente candidato a reeleição. Não é muito ético — e talvez viole a lei eleitoral.

Como se os erros cometidos não bastassem, o desfile continha ainda uma ala chamada “Neoconservadores em conserva”, que pretendia criticar os grupos conservadores, mas parecia criticar a família. Como diz o programa da escola, a “fantasia traz uma lata de conserva, com uma defesa da dita família tradicional, formada exclusivamente por um homem, uma mulher e os filhos”. Há anos o PT tenta argumentar que não se opõe à família enquanto instituição e que a crítica de alguns setores progressistas é na verdade uma defesa de famílias mais inclusivas. Não foi isso que a foto de uma família com pai, mãe e filhos numa lata pareceu dizer. Foi descuidado por parte da escola e por parte da campanha de Lula.

Além disso, essa mesma ala ainda incluía alusões a grupos que, segundo a escola, “levantavam a bandeira do neoconservadorismo”: o agronegócio, a classe alta, os defensores da ditadura militar e os evangélicos. Elencar agronegócio e evangélicos como opositores de Lula foi um dos maiores equívocos que poderiam ser cometidos numa pré-campanha eleitoral. Os evangélicos são 27% da população brasileira e sete em cada dez brasileiros têm visão positiva do agronegócio.

No final, o desfile acumulou erros éticos, jurídicos e políticos. A defesa do governo de que foi responsabilidade exclusiva da escola pode até prosperar juridicamente, mas não o salvará politicamente. Não víamos um erro político dessa magnitude desde quando Eduardo Bolsonaro resolveu apoiar as tarifas de Donald Trump aos produtos brasileiros.

 

 

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