Folha de S. Paulo
Lula vetou os novos penduricalhos, mas é
pouco
Eles são uma erva daninha que tem se
espalhado sem o mínimo pudor das autoridades e demais beneficiados pelos
supersalários
O veto do presidente Lula a novos
penduricalhos, que iriam engordar o contracheque dos servidores do Legislativo
além do limite constitucional do salário do funcionalismo público, é um começo,
mas está longe de impedir o avanço dos fura-tetos na administração pública
brasileira.
Uma erva daninha que tem se espalhado sem o
mínimo pudor das autoridades e demais beneficiados pelos supersalários,
como se viu na votação do projeto aprovado pelo Congresso.
A proposta permitia a concessão de uma gratificação de um dia para cada três dias de trabalho para trabalhadores que já têm outras vantagens, inclusive a estabilidade no emprego.
E o privilégio, concedido aos servidores
do Senado,
Câmara e Tribunal de Contas da União, poderia ser pago em dinheiro para
turbinar os supersalários.
Que bom que o presidente rejeitou, mas nada
garante que o Congresso não vá derrubar o veto.
É sabido que os maiores supersalários estão
no Judiciário e no Ministério Público, que têm resistido a mudanças há mais de
dez anos e usam todos os meios para barrar propostas no Congresso.
Mas o governo Lula também escolheu o caminho
de ignorar a necessidade de enfrentar o problema na prática e não no discurso.
A exceção, sejamos justos, são os ministros Fernando Haddad e Simone Tebet, que
desde 2023 já falavam no problema.
Ficaram falando sozinhos num governo com fortes
laços nos sindicatos da elite do funcionalismo. Os dois poderiam ter feito
mais.
O ministro Flavio Dino, do STF, suspendeu por
60 dias os penduricalhos. O risco é o prazo acabar sem uma solução que dê
alento para os que condenam os privilégios. Não são poucos.
Mesmo com a imagem arranhada pelo caso
Master, o STF pode acabar fazendo apenas um remendo, mesmo sabendo que a
maioria da população é crítica aos supersalários, o que inclui os 99% dos que
não estão no 1% dos fura-tetos.
Aos críticos, é bom lembrar: sem mobilização,
os servidores com supersalários vão continuar aumentando os penduricalhos.
Sambando na cara dos brasileiros.

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