O Estado de S. Paulo
A desconfiança dentro do STF aumenta a
imprevisibilidade na crise
O STF enfrenta duas crises ao mesmo tempo e a interna parece tão perigosa quanto a externa. E a causa é a mesma: é a institucionalidade substituída pela pessoalidade.
No caso da crise externa, é a percepção de grande parte do público de que a instituição do Supremo virou ferramenta de defesa de interesses pessoais de alguns integrantes. Fora toda a questão da atuação política.
No caso da crise interna, é o fato de que laços
pessoais e amizades cruzadas – algo que todo grupo pequeno, poderoso e secreto
desenvolve – estão profundamente abalados por desconfiança. Que rompeu esses
laços.
Ministros já brigaram entre si, em público e
privado, mas nada é comparável à destruição desse “STF futebol clube” (palavras
do ministro Flávio Dino) como o episódio da gravação de reunião fechada crítica
e decisiva.
Nem é necessário apresentar provas. Os
ministros estão convencidos de que foi Dias Toffoli – um dos principais
responsáveis pela crise externa atual da Corte. Tornou-se um estranho no ninho,
do qual nunca alguém foi expulso.
A pessoalidade no trato também com
instituições como o Ministério Público promete novos tempos difíceis pela
frente. Falhou até aqui a tentativa de frear a Polícia Federal e o que possa
sair dos celulares do dono do Master, que tinha contrato de prestação de
serviços com advogada esposa de Alexandre de Moraes.
Brasília inteira sabe da amizade pessoal
entre o ministro e o procurador-geral da República, personagem-chave do ponto
de vista institucional dependendo do que a PF levar adiante, como fez no caso
de Toffoli. E Brasília inteira sabe que o novo relator da investigação do
escândalo no STF, ministro André Mendonça, teria dado carta-branca à PF.
Curiosamente, quando as teias pessoais ganham
força sobre os papéis institucionais as saídas políticas se tornam mais
difíceis. No caso de Toffoli, foi necessário um exaustivo trabalho de costura
pessoal nos bastidores para se “dar um jeito” na crise – arranjou-se uma saída
“institucional” precária e a crise segue com fúria.
No momento esse escândalo se sobrepõe à
capacidade dos atores nos três Poderes de assar uma pizza via seus contatos
pessoais. Eram bem conhecidas a fragmentação das lideranças no Legislativo e a
incapacidade de articulação política no Executivo, mas a novidade é a perda de
controle interna no STF. Devido ao peso imenso dessa instituição,
acrescentou-se mais imprevisibilidade à crise brasileira.
Homem de profunda convicção religiosa, o
ministro André Mendonça teria imediatamente se recolhido em orações ao saber
que fora sorteado como novo relator do caso Master. •

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