terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

O favoritismo de Lula em 2026, por Míriam Leitão

O Globo

Com bons números na economia, Lula chega como favorito na campanha. E Flávio tenta herdar o espólio bolsonarista

O ambiente econômico de 2026 é favorável ao presidente Lula. Inflação sob controle, juros em queda, dólar fraco, crescimento maior do que no governo anterior, desemprego baixo e melhoria da renda. E a disputa sempre favorece o incumbente. Nas quatro eleições em que o presidente, ou a presidente, concorreu no cargo, só Jair Bolsonaro perdeu. Apesar de a pesquisa ter mostrado que Flávio Bolsonaro herda parte importante do espólio do pai, ele não tem a mesma capacidade de mobilização nem conseguiu galvanizar a direita. O favoritismo nesta eleição é do presidente Lula.

Os dois candidatos com mais intenção de votos têm em comum uma alta rejeição, mas é preciso levar em conta a dinâmica da disputa eleitoral. Normalmente, a rejeição cai, até porque campanha é o esforço de falar bem do candidato, mostrar suas realizações e convocar o bom recall. O presidente Lula tem um enorme legado para trazer de volta à memória dos eleitores, como ascensão social, período de crescimento, e boas relações com o mundo.

O recall de um “Bolsonaro” é contaminado pelas más lembranças da pandemia, quando o então presidente ofereceu ao país uma sucessão de frases ofensivas e impiedosas. As falas do tipo “eu não sou coveiro” ou “chega de mimimi”, “vai ficar chorando até quando?” ficaram marcadas.

Os economistas de mercado financeiro já começam a dizer que o candidato da direita tem mais capacidade de reduzir o déficit público, mas sabem que não se baseiam em evidências. O “tesouraço” prometido no artigo do Brazil Journal é apenas uma palavra. Quem leu o artigo viu que nenhuma medida sustenta a promessa. Além do mais, há os fatos. A economia de Bolsonaro não foi bem, nem para os parâmetros liberais. Ele ampliou muito os gastos no ano eleitoral, deu calote em precatórios, fez quatro intervenções na Petrobras, privatizou só a Eletrobras porque ela estava preparada desde o governo Temer. Não conseguiu preparar nenhuma outra empresa para a venda. Reduziu impostos federais e estaduais apenas para manipular preços dos combustíveis e reduzir a inflação artificialmente.

O déficit primário é menor no governo Lula do que nos governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro, porém é um assunto difícil de tratar na corrida eleitoral. O prejuízo dos Correios é muito mais concreto e exibido como prova de que os governos do PT são gastadores. De fato, o rombo cresceu muito. Há detalhes difíceis de explicar nas contas das estatais. A Emgepron, estatal da Marinha, por exemplo, teve superávit no governo Bolsonaro e agora tem déficit. É efeito estatístico. Bolsonaro aportou R$ 10 bilhões do Tesouro na estatal. Por isso, aparece superavitária. Nos anos seguintes, a empresa tem gastado esse dinheiro e, por este motivo, passa a registrar déficit. Não é que a Emgepron esteja tendo prejuízo. Está fazendo os investimentos previstos. Só que não há campanha que explique isso.

Economistas distantes da polarização e que são capazes de ver virtudes no governo Lula acham que ele deveria fazer uma promessa de ajuste fiscal no início de um novo mandato. É necessário porque as despesas obrigatórias têm crescido acima dos limites do arcabouço, e da capacidade do país de absorver. Em parte, a explicação está nos aumentos reais do salário mínimo que voltaram neste mandato, o que indexa a maioria das despesas previdenciárias.

Estes são temas áridos no palanque, mas que fazem parte do debate. O bolsonarismo fará aquelas promessas que não cumpriu da primeira vez que governou o país. A outra direita, a que se organiza em torno do coletivo de candidatos do PSD, pode ter crescimento. A queda de Ratinho Júnior. na última pesquisa Quaest decorre de ele ainda não ser candidato, e a apresentação por Gilberto Kassab da sua trinca mais confundiu do que esclareceu sobre a candidatura alternativa da direita.

No período oficial de campanha, o presidente Lula contará com a vantagem de uma situação econômica que não atrapalha, pelo contrário, ajuda. E com o fato de ser o incumbente. Quem quiser acreditar que Flávio é moderado terá que esquecer, por exemplo, que numa entrevista à Folha, em 14 de junho de 2025, ele disse que o grupo do pai só apoiaria um candidato a presidente disposto a impor ao Supremo a aprovação do indulto ao ex-presidente. “Estamos falando da possibilidade do uso da força, de interferência em outro poder”. Não há um moderado de nome Bolsonaro.

 

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