sábado, 20 de maio de 2023

Edmílson Martins de Oliveira* - Construtor de Sonhos

Acabei de ler o livro “De Oscar a Niemeyer”, do historiador e escritor Ivan Alves Filho. Leitura indispensável para todos nós, brasileiros, tão necessitados de conhecimentos e de sonhos. Para Ivan, Oscar Niemeyer foi um construtor de sonhos. Com ele, muitos sonhos foram concretizados.

Como Pelé é o craque da bola e Niemeyer o craque da arquitetura, Ivan é um craque das palavras. Sabe usá-las com muita competência e magia. Como dá gosto ver a arte  de Pelé no futebol e a arte de Niemeyer na arquitetura, dá gosto ver a arte literária do Ivan Alves Filho.

Li o livro de um só fôlego. Como uma comida saborosa, daquelas que a gente come e tem vontade de comer mais. Li o livro do Ivan com tanta gulodice que, chegando ao final, tive vontade de ler outra vez. Porque é muito bom  o tempero das suas narrações, informações e observações, que vêm do seu conhecimento e experiências.

Com linguagem simples, saborosa e conteúdo riquíssimo, Ivan passeia, com rara habilidade, na História política, artística, literária, em torno do grande arquiteto e grande figura humana Oscar Niemeyer, em todo o Século XX. E através do famoso arquiteto, Ivan aproxima-se de grandes personalidades do mundo da arquitetura, da literatura, da pintura, da política e do pensamento mundial.

Artistas, escritores, engenheiros, arquitetos, músicos e políticos famosos estavam sempre com o arquiteto, no seu escritório da Avenida Atlântica, em Copacabana, também sua residência. Ali, Ivan convivia com ele na intimidade e, por ele, tinha contatos com toda essa gente famosa.

Conforme o Ivan, o Oscar, figura humana e grande humanista, era maior do que o Niemeyer arquiteto. Era um homem acima do bem e do mal. Acolhia com a mesma generosidade e afeto tanto quem concordava com ele, como quem não concordava. Ele tinha uma ideologia política, mas estava acima das ideologias.

Vão por aí as análises do escritor sobre o grande Oscar Niemeyer que, na França, na década de 1970, lhe deu todo apoio e solidariedade. Ivan estava em Paris, exilado, ainda jovem, depois de ter passado pelos porões da ditadura brasileira.

São belas as descrições e detalhes das suas experiências na França e na Argélia, impulsionadas pelas atividades artísticas, sociais e políticas do arquiteto. E belíssimas são as suas experiências a partir de contatos com revolucionários argelinos, na luta de libertação do domínio francês.

É impressionante o interesse e a capacidade com que descreve suas experiências na Argélia. Visitando o Saara, com um amigo argelino, ele diz que o deserto lembra o nosso sertão e, generosamente, se refere ao prefácio que fez para o meu livro “Conversas de Papel”. E informa que Ceará é uma corruptela de saara. Sempre fazendo revelações.

E foi através de Oscar Niemeyer que Ivan teve acesso a Claude Lévi-Strauss, o grande mestre da Antropologia do século XX e ao famoso fotógrafo Henri Cartier-Bresson. Conseguiu entrevistar estas duas personalidades famosas, do pensamento e da arte mundial.

Quero dizer que o livro do Ivan é um passeio pela História das artes, das personalidades artísticas e da política mundiais do século XX. Ele disserta tudo com tanta habilidade, tanta emoção, que coloca a gente dentro da História. Como se tudo estivesse acontecendo hoje. Ele quer mostrar com isso que Oscar Niemeyer está presente em todos os tempos. É um imortal.Por fim, o escritor apresenta o arquiteto Oscar como um homem simples, “característica que impressionava a todas as pessoas que dele se aproximavam”. Era tolerante, respeitava os diferentes, defendia, na prática, a convivência pacífica, grande defensor das liberdades humanas.

Diz o Ivan que as conversas com o Oscar eram enriquecedoras. E, certa vez, disse a ele que todo cidadão brasileiro devia ter o direito de conversar, pelo menos, dez minutos com ele. Isso devia constar da Constituição brasileira.

Um grande pensador católico já disse que a Doutrina Social da Igreja é um tesouro escondido, que os católicos ainda não descobriram. O Ivan, nesse livro, revela para todos nós esse tesouro escondido que é Oscar Niemeyer, com sua arte, seus desenhos, sua arquitetura, seus valores humanistas e libertários. O livro é de leitura indispensável.

*Advogado e escritor, autor de vários livros em que se destacam “Bancários – Anos de Resistência (1964-1979)” e “Removendo Pedras”

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